quinta-feira, janeiro 08, 2015

Let it grow

A agricultura, pelo menos em Portugal, ainda sofre de um enorme estigma. O pior é que o estigma começa na cabeça de quem lá trabalha, como se não fosse suficiente o estigma de quem está de fora. Uma das condições que consigo facilmente enunciar para que a agricultura possa ser um sector de excelência é o fim da ideia de que uma pessoa que trabalhe no sector agrícola é um agricultor qua lavrador — certamente que muitos serão, e nada contra. Mas do mesmo modo que uma pessoa que tenha uma fábrica de sapatos não será um sapateiro, essa mesma mudança de perspectiva terá que acontecer em quem trabalha e com quem lida com a agricultura.

Explico: o agricultor qua lavrador será a imagem mais comum pela simples razão de que foi (e, provavelmente, ainda é) o que mais frequentemente se encontra. A pessoa que, como ouvi os antigos a dizer, "fazia campos". Independentemente do que plantavam, mesmo que tivessem pessoas a trabalhar para si, e sem diferenciação da dimensão da propriedade, ou da existência de "actividade comercial" (i.e., a produção não era [só] para consumo próprio, mas também para dar rendimentos através da venda da dita produção). O lavrador terá os métodos de produção estabilizados, saberá que produtos aplicar e em que alturas, e mais do que isso, saberá até alterar os seus processos em função dos factores que não controla (temperatura, humidade, chuva, etc). Não estará em causa, de todo, o seu know-how no que toca àquilo que faz.

No entanto, faz falta algo mais. Pensamento estratégico, função comercial, capacidade financeira. Actividade empresarial; no fundo: uma indústria agrícola. Acabar com o estigma do agricultor-sapateiro, passar a ser o agricultor-empresário, que tem uma empresa que explora algo no sector primário. E ter uma empresa é ligeiramente diferente de ser um lavrador. Porque implica mais do que estritamente a agricultura; do mesmo modo que ter uma fábrica de sapatos depende um pouco mais do que saber fazê-los.

O problema da agricultura não estará na mão-de-obra, no "proletariado" — afinal de contas, hoje em dia, a agricultura é cada vez menos um sector de mão-de-obra intensiva, apesar de ainda haver muito espaço para melhorar aqui, especialmente a nível da actualização/melhoramento do conhecimento prático. O maior problema estará, a meu ver, na falta de visão de quem quer investir no sector. Quando isso mudar, e quando a massa crítica estiver no lugar para fazer o que, por exemplo, o que algumas pessoas já perceberam no vinho (que a qualidade compensa, que exportar também, que o vinho não é só as uvas espremidas num copo de vinho, que as pessoas procuram mais do que o álcool) e noutros sectores, então será possível que as coisas se encarreirem para um lugar melhor — desde que a Assunção-Cristas-da-altura não se intrometa.

Sem comentários: