sexta-feira, abril 03, 2015

Pormenores que fazem toda a diferença

A Rita I Carreira, no Destreza das Dúvidas, tem um post onde fala sobre gestão de risco na agricultura. Usando o exemplo dos EUA — que são, de facto, um dos líderes mundiais na indústria que é a agricultura —, a conclusão a tirar do post pareceu-me que é algo próximo disto: Portugal tem imensos problemas a nível das instituições que suportam a actividade agrícola, seja a nível do sector público ou do privado. Para combater isso, é sugerido que se olhe para o exemplo dos EUA e se tente emular aquilo que de melhor se faz por lá a nível institucional. Tudo certo. But the devil is in the detail.

O detalhe que interessa está escondido no meio do texto citado: «Producers, mostly family enterprises operating medium sized farms (average 445 hectares. Imaginando que isto não é erro — e, do pouco que conheço do sector agrícola nos EUA, não deve ser ―, este pormenor explica bem porque é que o exemplo dos EUA não pode (não deve!) ser seguido em Portugal. Salvo eventuais herdades no Alentejo, não existe em Portugal nada que se assemelhe a propriedades com 445 hectares, muito menos 445 hectares a produzir. Olhando para aquilo que os EUA produzem, faz todo o sentido que todas aquelas estruturas para gestão de risco existam: em culturas intensivas, onde 1 ou 2 cêntimos de variação de preço/kg se traduzem em centenas de milhares de dólares no final do ano para o produtor, faz todo o sentido que se faça uma gestão extremamente cuidadosa destes factores. Quando as margens são razor thin, é assim.

Aqui há uns tempos tive oportunidade de conhecer um produção de vinho no Dão. Uma quinta enorme, cerca de 40ha, tanto que permitia fazer várias experiências no tocante às misturas de castas. Cada garrafa era vendida, à saída da quinta (que também engarrafava, claro) por cerca de 3€ ("Preço de amigo!"); nos supermercados, chegavam aos 7.5€, às vezes mais. Se havia variações nos custos ou nas receitas na ordem dos 1 ou 2 cêntimos por garrafa, era relativamente indiferente — claro que era chato, e no final do ano todos os cêntimos contam, porque era trabalho que saía do corpo de alguém que não era remunerado. Mas o produtor sabia que aquele não era o jogo que ele estava a jogar. No médio prazo, sabia que era mais importante preocupar-se em conseguir subir o preço da garrafa em mais 50 cêntimos ou 1€, do que propriamente brigar com um distribuidor por causa de um desconto de 1%. Afinal de contas, ele não tinha uma commodity; tinha um vinho de alta qualidade. O seu produto era muito difícil (impossível?) de copiar, tinha uma marca associada, e acreditava que era de qualidade. E tinha margens de 20, 30, às vezes 40% por garrafa — especialmente nas reservas.

Tudo isto para dizer algo muito simples: Portugal não é os EUA. Portugal não deve (porque não pode) jogar o jogo das commodities. E não pode porque não tem dimensão, independentemente das suas potencialidades: produtos indiferenciados só são rentáveis em situações de economia de escala. 

Se isto quer dizer que algumas das coisas de que são faladas dentro da umbrella "gestão de risco" não fazem sentido existir? Claro que sim, informação é sempre bem-vinda. Mas tudo isto serviu para tentar fazer ver uma coisa: as nossas instituições (públicas ou privadas) têm, por necessidade da nossa realidade, de ter uma missão diferente das dos EUA. Não negando que em Portugal o Ministério da Agricultura (e quejandos) são pura e simplesmente, única e exclusivamente um entrave ao desenvolvimento do mundo rural e agrícola, parece-me mais ajustado uma estrutura institucional que reflicta as necessidades de flexibilidade, experimentação e não-comoditização da nossa produção agrícola. Porque, parece-me, só assim é que vamos conseguir explorar as nossas potencialidades.

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