terça-feira, maio 12, 2015

A mulher sexista, a minoria racista, e o indivíduo metodológico

Estava a passar os olhos por essa internet fora, e cruzei-me com uma notícia que me fez pensar um pouco: «'I can't be racist because I'm an ethnic minority woman', says Goldsmiths university diversity officer embroiled in racism row». Estou ciente que este é um assunto que, hoje em dia, faz palpitar muitos corações, e tem todo o potencial de chatear toda uma horda de sociólogos especializados em estudos de género. Great.

Retiro qualquer ilusão que possa haver: tal notícia e os seus conteúdos são só a manifestação de terem deixado à solta uma série de tolinhos nos departamentos de estudos sociais. Prima facie, a afirmação é completamente desprovida de sentido: claro que uma pessoa de uma minoria étnica pode ser racista! Claro que uma mulher pode ser sexista! Já ouço gritos de no such thing!, de que tal é impossível. Mas permitam-me citar a senhora:
«I, an ethnic minority woman, cannot be racist or sexist towards white men, because racism and sexism describe structures of privilege based on race and gender. 
Therefore, women of colour and minority genders cannot be racist or sexist, since we do not stand to benefit from such a system.»
Aqui o erro torna-se claro como a água: a não subscrição uma metodologia de análise e estudo do fenómeno social séria e consistente! Se, pelo contrário, tivesse havido da parte de Mustafa uma preocupação em olhar para os eventos seguindo os preceitos do individualismo metodológico, nada desta confusão tinha acontecido; ou, mesmo tendo acontecido, estou certo que teria sido encontrada uma desculpa mais coerente do que a descrita acima. E mesmo tendo um pequeno Geoffrey Hodgson em cima do meu ombro a lembrar-me que esta coisa do individualismo metodológico é terreno pantanoso, já lá vamos. 

Primeiro, acho que é importante perceber o que está a acontecer ali: a descrição do racismo e do sexismo não como manifestação concreta de um conceito abstracto, mas sim como "sistemas/estruturas de privilégio". Daquilo que conheço da filosofia feminista (julgo não ser um erro colocar este tipo de argumentação bem dentro da 3ª "onda" feminista), a explicação de fenómenos sociais será feita sempre em função da relação da pessoa para com o sistema onde ela se insere: "A mulher não pode ser sexista porque o sistema de privilégios da sociedade está montado contra ela!". Daí que o objecto de estudo, o ponto de partida, sejam esses sistemas e estruturas societais que privilegiam ou oprimem pessoas dependendo das suas características.

Isto não parece um tipo de argumentação estranho para quem está familiarizado com o Marxismo. O materialismo histórico segue, sensivelmente, o mesmo modus operandi: a ideia de que a organização da sociedade e os fenómenos societais podem ser explicados se olharmos para as estruturas de produção e para as classes sociais. Não é de todo ao acaso que haja alguma sobreposição entre a "antiga" esquerda marxista e a "nova" esquerda feminista (apesar de, como está bom de ver, as explicações materialistas e feministas serem em larga medida incompatíveis). 

Mas onde é que o individualismo metodológico entra aqui ao barulho? Em primeiro lugar, convém explicar que esta posição metodológica não devia levar (because it can't, and can't implies oughtn't) a nenhuma posição ontológica: isto é, o facto de se analisar algo de acordo com os preceitos do individualismo metodológico não implica dizer que para efeitos de análise só existem indivíduos (e aqui sim, estaria contida uma posição ontológica). Contudo, implica pelo menos o reconhecimento do indivíduo como objecto primeiro de análise (e isto sim, torna-se uma posição metodológica). 

Nesta perspectiva, o que é o racismo? Será uma ideia abstracta que serve para descrever o acto de descriminação de uma pessoa de acordo com a sua etnia. Ou seja, uma pessoa agredir outra na rua por motivações raciais constitui uma manifestação da tal ideia abstracta. Usando o exemplo concreto que a notícia nos deu, uma pessoa que proíbe a entrada a terceiros apenas e só por causa do seu género, orientação sexual, ou étnia, está a incorrer num acto racista/sexista. Independentemente do género, orientação sexual, ou étnia de quem o faz. E aqui reside, a meu ver, a beleza do individualismo metodológico: como olhamos para a acção de um ponto de vista abstracto e sempre com o indivíduo como âncora, permite-nos ver que a mesma acção, com o mesmo propósito, será analisada da mesma forma, independentemente das particularidades do indivíduo em questão.

Se a frase "as mulheres não podem ser sexistas" vos faz alguma comichão, a razão terá algo que ver com o que foi abordado aqui acima. Claro que pode ser sexista! Tanto podem ser, que o são, como se viu. Se porventura vos disseram que não, agora já sabem que tudo não passa de uma patranha metodológica que já tem barbas mais longas que o Marx.

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