sexta-feira, junho 26, 2015

Isto não é post sobre as eleições legislativas

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Os últimos anos em Portugal (talvez desde 2008/9) têm sido particularmente penosos em termos económicos, com todas as consequências sociais que se conhecem. Falo naquele par de anos porque, apesar de o país antes dessa data já estar numa trajectória de degradação, é nessa altura que se manifesta a verdadeira crise. E há que perceber que Portugal teve, em simultâneo, três crises a acontecer: por um lado, uma crise relacionada com a dívida pública e privada, e do respectivo financiamento; por outro, uma crise relacionada com o reajustamento da economia; e, por último, os efeitos que o abrandamento das economias dos nossos parceiros económicos externos. Claro que todas elas estarão relacionadas — afinal de contas, a economia é um sistema orgânico, que obedece a relações de causalidade — mas para as tentar resolver, será interessante pensar nelas em separado. Sendo que em relação à última pouco se pode fazer, resta concentrar nas outras duas, e eu só vou aqui falar de uma.

A mais importante, a meu ver, sempre me pareceu a segunda. Portugal, durante muitos anos, viveu à custa da procura interna, com constantes défices da balança comercial, garantindo que o desemprego estava mais ou menos sob controlo através de sucessivas grandes (e muitas, muitas pequenas) obras públicas, e também graças ao sector dos serviços (mais concretamente, aquilo que se pode incluir na categoria dos "não-transaccionáveis"). Certamente que apesar do lip service que se prestava a coisas como a aposta na agricultura e pescas, o desenvolvimento do tecido industrial, o financiamento da investigação e desenvolvimento, e outras coisas bonitas, o grosso da economia era mantido a funcionar através dessas áreas. O dinheiro rolava, umas alturas melhor, outras pior, e ninguém se chateava muito porque a maior parte das pessoas estava razoável.

A verdade é que, surpresa surpresa, esse modo de desenvolvimento se tornou insustentável. O crescimento anémico que caracterizou a economia de Portugal do virar do século em diante tornou-se em verdadeiro retrocesso com o rebentar da crise do sub-prime e das dúvidas que se levantaram sobre a saúde das finanças públicas de alguns estados na EU. Muita gente entrou em verdadeiro pânico. Cantaram-se amanhãs verdadeiramente assombrosos. Mas, contudo, (quase) ninguém cantou o amanhã que se está a viver, e que parece animador. Não perfeito, não algo que assegure o bom funcionamento do país durante muitos e vários anos, mas são sinais que o país está a mudar para melhor. 

Sim, acho que o reajustamento da economia se está a fazer. Casos de sectores como o vestuário, calçado, metalúrgico, alguma agricultura (especial destaque para os vinhos e, em menor medida, os hortícolas e frutícolas), alguma IT. Tudo sectores que, se recuarmos há 10, 15, 20 anos, foram considerados mortos, enterrados e para sempre renegados. Não eram sectores sexy (bem, talvez o caso das IT), e por isso foram largamente ignorados pelo frenesim da política de querer mostrar uma grande obra em menos de 4 anos. E, claro, por um lado isto não é suficiente, porque são tudo mudanças recentes e que ainda não tiveram o tempo necessário para serem criados clusters, massa crítica, que realmente potenciem esses sectores; e, também, porque ainda não se entranhou a mudança de paradigma que está associada a esta mudança estrutural (e esta última não pode existir sem a primeira). Mas, ainda assim, mostra que há uma saída e que é possível as coisas melhorarem.

E convém frisar isto, para o deixar bem claro: esta evolução acontece apesar da existência dos comentadores da praça que muito gostam de falar por falar para se manterem relevantes; apesar de um Governo que, para mal dos nossos pecados, é mais do mesmo; apesar de todas as previsões de que a emigração ia arrasar o país porque estávamos a ter uma "fuga de cérebros"; apesar da contracção da procura interna; apesar de termos os piores patrões do mundo (pelo menos, é o que dizem); apesar da espiral descendente da recessão; apesar de tanta coisa.

Muito mais tem de ser feito. Mas, pela primeira vez em muitos, muitos anos, parece que as coisas se começam a dirigir para algo melhor. Querer negar isto apontado aquilo que o país ainda tem de mau é desconversar, pura e simplesmente. Sim, o desemprego (especialmente entre as pessoas da minha idade) é assombroso; sim, há muita gente, precisamente nas classes mais sensíveis (idosos, desempregados de longa duração, pessoas com deficiência, etc) que sofreu e sofre. Sim, o estado ainda é um empecilho, porque a justiça e a polícia não defendem quem tem razão, porque a Autoridade Tributária e a ASAE estão transformadas numa espécie de cães de caça à infracção, porque tanta coisa. Sim, porque o país vive num plano inclinado, sendo que quem quer ser honesto, trabalhar e realmente acrescentar algo de valor à sociedade sofre de ter de se mover contra essa inclinação. Mas nada disso anula o que o país está melhor em muita coisa.

E eu percebo que muitas pessoas não vejam isso. Literalmente, não vejam. Porque uma das razões pelas quais tenho alguma esperança é que algo está, finalmente, a mudar. A maior parte dessas pessoas, essas que não vêm ou não querem ver, passaram 20, 30, 40, e às vezes mais, anos a olhar para o país e a economia de uma dada maneira, a pensar que a procura interna é que era "o" indicador, que o sector da construção e restauração era suficiente para absorver o emprego da "populaça" com pouca qualificação, que o governo tinha sempre a hipótese dar choques à economia para a ir espevitando aqui e ali. E é normal que agora não vejam isso e pensem que está tudo perdido, que o país está a ir pela sarjeta. Mas tenho para mim que é por não se ver isso que o país está a sair da sarjeta.

Porque a diferença, o que está a correr bem, se faz fora das grandes cidades. Se faz em pequenas e médias empresas, nos sectores abandonados, sem pompa nem circunstância, com muito suor. Se faz longe do olhar da maior parte dos jornaleiros do costume, mais interessados em cumprir com uma agenda política do que em dar notícias. E faz-se. E espero que se continue a fazer, porque é aí que está a saída para o nosso país. É normal que não se veja nem se fale disso. Mas que acontece, acontece: é só deixar acontecer.

PS - Disse que isto não era um post sobre as eleições legislativas. E era verdade. Primeiro, porque tenho a certeza absoluta que vai haver quem leia aqui um elogio rasgado ao actual governo; mas essa interpretação não podia estar mais longe da verdade. A este governo, só posso fazer um elogio, e ter uma esperança: por um lado, não são tão maus como os anteriores, e por outro, que não sejam tão maus como a alternativa. Mas ainda estão longe, muito longe, de ser algo minimamente satisfatório. Faço aqui a minha declaração de voto, em público: se for votar, votarei tal qual como nas últimas legislativas; nulo. Para mim, a minha consciência é mais importante do que o eventual cálculo político-partidário.