domingo, agosto 02, 2015

Porque erram os economistas?

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«Porque erram os economistas?», publicado no Observador, é um artigo que toca num dos meus assuntos preferidos. E é um artigo especialmente bom de se ler porque põe a nu toda uma série de questões de que gosto muito de falar. Sendo escrito por um PhD em Física, alguém que sabe lidar com uma ciência a sério, estão reunidas todas as condições para que volte a poder falar do assunto (talvez seja interessante ler este post, para quem gostar do assunto).

1.

O primeiro ponto tem que ver com o objectivo da Economia (enquanto objecto de estudo). O que é que podemos esperar de uma teoria económica? Pelo que leio do artigo, é assumida uma posição marcadamente instrumentalista; isto é: a Economia serve para prever fenómenos económicos. É o seu propósito (aim), sendo a "qualidade" (latu sensu) de uma teoria económica medida em função da sua capacidade de prever. Não há nada de particularmente radical aqui, visto ser assim que a maior parte dos economistas pensam, pelo menos, já desde o tempo do sempre muito citado paper de 1953 de Milton Friedman The Methodology of Positive Economics:
Positive economics is in principle independent of any particular ethical position or normative judgments.  As Keynes says, it deals with “what is,” not with “what ought to be.”  Its task is to provide a system of generalizations that can be used to make correct predictions about the consequences of any change in circumstances.  Its performance is to be judged by the precision. scope, and conformity with experience of the predictions it yields.  In short, positive economics is, or can be, an “objective” science, in precisely the same sense as any of the physical sciences.
Esta posição, contudo, parece-me ser a primeira razão pelos quais os economistas erram: porque se focam pura e simplesmente numa Economia que apenas prevê, e não explica. E, correndo o risco de incorrer nos perigos a que o realismo científico nos leva, permitam-me assumir uma forte posição a favor do objectivo da explicação. E é fácil (apetece-me mesmo usar a palavra preguiçosa) equacionar explicação com poder de previsão, mas não é bem isso que estou a pensar; pelo contrário, uma disciplina deverá ser capaz de explicar o porquê de um dado fenómeno acontecer, e terá de ser julgada de acordo com a sua concordância (ou inexistência de contradição) para com a realidade. E sim, estou convencido que é a única solução para que os economistas dêem o passo certo para que deixem de errar.

Resumindo, os economistas erram porque se focam muito na previsão, e nada na explicação. Mas porquê?

2.

Porque o problema da Economia mainstream não é a relativo à qualidade ou abundância dos dados. E suponho que seja aqui que se gere a maior confusão para quem vem de um background onde o "método científico", inspirado no falsificacionismo Popperiano, funciona relativamente bem. De certo modo, percebe-se que haja uma tentativa de emular uma série de processos e modelos que se revelaram bem sucedidos noutras áreas. O problema é quando já andamos há coisa de 70 ou 80 anos (estou a pensar no trabalho de Irving Fischer em meados da década de 20, e de Ragnar Frisch e Jan Tinbergen na primeira metade da década de 30 — sendo que estes dois últimos acabam por ganhar, em conjunto, o primeiro prémio Nobel da Economia) a insistir nos mesmos erros.

Arrisco a responder a pergunta do título da seguinte maneira: os economistas erram porque ainda não perceberam o que deviam estudar. Do meu contacto com o processo de formação de economistas, de economistas em diferentes pontos da sua carreira académica, bem como de economistas já formados, sempre notei que existia uma grande preocupação em entender bem o formalismo que assistia a modelização da economia, em conjunto com a necessidade de se sentir por dentro da espuma dos dias no que toca às movimentações do mercado de capitais, das empresas, e até mesmo das novas trends que davam sinais de se poderem tornar importantes. No entanto, poucas pessoas procuravam entender o ser humano, ficando-se apenas pelos resultados aparentes das suas acções. O interesse não estava no porquê de as pessoas se comportarem de dada maneira, mas apenas em tentar desenvolver modelos que pudessem prever o seu comportamento.

Os economistas erram porque têm a caixa de ferramentas errada. Um físico que ao tentar estudar a formação do universo, use como base um livro de física do século XV, irá chegar a resultados estranhos; do mesmo modo, também um economista que use a framework neoclássica, e a partir daí tentar construir conhecimento através de um método empírico de recolha, tratamento e modelização de data, irá chegar a resultados estranhos. Irá, por exemplo, perceber que há inversão de preferências, que elas não são bem ordenadas, que a maximização não é o objectivo, etc. E, no entanto, continuará a tentar resolver os seus puzzles usando uma forma de ver o mundo que lhe diz que tudo aquilo é verdade, apesar de a realidade lhe mostrar que é mentira.

3.

Há uma série de razões para isto acontecer, e a maior parte podem caber dentro daquilo a que se convencionou chamar sociologia do conhecimento. Já por este blog se falou um pouco sobre a situação ser como é, e não de outro modo. Talvez também contribua para toda esta situação a gritante falta de reflexão que a maior parte dos economistas têm perante a sua disciplina — e se me disserem que um biólogo ou um químico também não fazem reflexão sobre a sua ciência, certamente que terão razão, mas não me parece que eles precisem; algo que não se passa com os economistas: afinal de contas, não é comum escrever-se artigos com títulos como "porque erram os biólogos?".

Sejamos sérios. Os economistas não erram porque a economia é mais complexa de que se pensava. Porque se assim for, podemos já arrumar as botas: especialmente desde a entrada em cena da internet, o mundo está-se a tornar cada vez mais complexo, mais fragmentado e mais heterogéneo, e esta tendência não dá sinais de abrandar. Também não erram porque os dados que tinham ao seu dispor eram de fraca qualidade ou insuficientes.

Os economistas erram porque não querem dar o braço a torcer e reconhecer que andamos a, e perdoem-me a expressão, encher chouriços. Porque não reconhecem os problemas e limitações inerentes ao método que usam. Há que mudar o paradigma