sábado, março 12, 2016

Parolos da província de S. Bento (II)

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Lembram-se disto? Agora temos isto:
Produtores portugueses de leite e carne manifestam-se na segunda-feira em frente à Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte, em Matosinhos, Porto, “em defesa da produção nacional” e contra as “práticas comerciais abusivas” da grande distribuição.
(...)
“O leite e a carne suína são produções estratégicas para a soberania alimentar do país, para a economia nacional e para a nossa alimentação”, sustentam, defendendo que o Ministério da Agricultura e o Governo “devem lutar” a nível europeu, “sem mais hesitações, para a retoma de mecanismos públicos de controlo da produção e dos mercados como as ‘quotas’ leiteiras nacionais cujo fim determina, em grande parte, a actual crise”.
(...)
Para o sector, o que se impõe são “ajudas excepcionais para fazer frente a uma situação de excepcional gravidade” e para “apoiar e manter” os produtores pecuários a produzir, não “deitando a perder os vultosos investimentos públicos e privados feitos no sector”.
É brutal. Vamos por partes.

Sim, a "grande distribuição" tem um poder desmesurado. Por cá, o problema está há muito identificado: «[e]xplica-se numa história muito simples: por um lado, há muitos agricultores, que produzem pouco individualmente, visto também não têm parcelas muito grandes; por outro, há poucos canais de escoamento, estando a grande maioria da produção encaminhada para as centrais de distribuição que existam em cada sector, havendo eventualmente um ou outro negociante a título individual que tem possibilidades de absorver alguma produção. Invariavelmente, acontece que são as centrais que definem os preços e, bem pior do que isso, os meios de pagamento. No fundo, não só os produtores se têm que sujeitar a preços fracos, mas para todos os efeitos a financiar a operação das centrais, visto esperarem muitas vezes 6 a 8 meses para verem o pagamento da campanha do ano anterior enquanto fazem face aos custos decorrentes da campanha do próprio ano.» 

Em termos económicos, é simples de perceber: produção pulverizada e atomizada, distribuição concentrada em alguns (poucos) agentes. Como é a distribuição que faz a ligação entre o produtor e o consumidor, existe uma assimetria muito grande na forma como as variações do preço afectam a bottom line dos intervenientes. A ideia é que a distribuição, fruto do poder negocial que advém do descrito acima, tenta que a sua margem líquida seja o mais parecida possível com a sua margem bruta; isto faz com que variações positivas no preço pago pelo consumidor se reflictam pouco no que é pago ao produtor, mas variações negativas são sentidas fortemente pelo produtor. Tudo claro.

O que não é claro é em que medida é que as soluções citadas na notícia da Lusa (via Público) vão resolver o que quer que seja. Desde proteccionismo (“controlo severo das importações, como está a fazer a Espanha desde há meses”), benefícios fiscais ("isenção temporária e “sem perda de direitos” do pagamento das contribuições mensais para a Segurança Social e o reembolso de parte do consumo da ‘electricidade verde’"), subsídios ("aumento da ajuda (ligada à produção) à vaca leiteira e a promoção do “consumo prioritário” da produção nacional nas cantinas públicas e dos mercados de proximidade"), quotas de produção ("o Ministério da Agricultura e o Governo “devem lutar” a nível europeu, “sem mais hesitações, para a retoma de mecanismos públicos de controlo da produção e dos mercados como as ‘quotas’ leiteiras nacionais cujo fim determina, em grande parte, a actual crise”"), e acabando mesmo em honrosas menções aos bons velhos planos centralizados de produção ("Na União Europeia impõe-se a regulação pública da produção e do mercado"). Nada disto vai resolver o problema de fundo, apenas mascarar as deficiências do sector.

Claramente, o problema para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e para Associação Portuguesa de Produtores de Leite e Carne (APPLC) não é a "grande distribuição". O problema é o Estado não fazer o suficiente: o Estado deixa que a produção portuguesa compita em pé de igualdade como as importações, o Estado não dá benefícios fiscais aos agricultores, o Estado não dá subsídios, o Estado não impõe quotas de produção, o Estado não planeia as produções como deve de ser. E isso tudo fica (ainda mais) claro aqui: "o sector reclama também ao Ministério da Agricultura e ao Governo que criem “condições para escoamento, a melhores preços à produção, dos produtos agro-alimentares” nacional".

A agricultura em Portugal não é uma actividade empresarial. Só assim se pode explicar que se espere que tenha que ser o Estado a assumir a responsabilidade comercial da agricultura produzida em Portugal. Qualquer outro sector tem que produzir e garantir que consegue vender a sua produção a um preço que lhe permita continuar a operar. Para a CNA e a APPLC, um agricultor devia simplesmente ser um empregado do Estado, onde se limita a fazer os seus campitos, e, no fim da campanha, algum comité algures garante-lhe que tudo o que produzir irá ser vendido a bom preço. E assim se percebe: afinal, o problema não é a "grande distribuição"; a "grande distribuição" está bem como está. O problema é que ser agricultor dá trabalho.

Mais uma vez, é brutal. Não admira que Portugal, um país com condições extremamente propícias para a prática agrícola — com bons solos, excelentes condições climatéricas para um enorme número de culturas, tradição no sector — seja um desastre no que toca ao sector agro-alimentar. Enquanto não se perceber que a agricultura em Portugal tem se modernizar, e que isso só acontece com os incentivos de uma verdadeira economia de mercado, vamos andar todos os anos a ouvir os "produtores" através das CNA e APPLC da praça a reclamar por mais ajudas "temporárias". Depois, admiram-se.


quarta-feira, março 09, 2016

Estratégia liberal no esquerdistão (IV)

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Permitam-me continuar esta série de posts de uma forma um pouco diferente: vou sair do terreno teórico e passar a questões de implementação de estratégia. Afinal de contas, se digo que até agora as tentativas de implementar o liberalismo em Portugal têm falhado, parece-me boa ideia tentar explicar com um exemplo como é que esta luta podia ser feita. E uma das maiores falhas do movimento liberal em Portugal tem sido a escolha da mensagem que quer passar. Quero pegar num exemplo muito querido de todos os liberais, portugueses ou não: o salário mínimo nacional. A posição default dos liberais tem sido a de se mostrar contra os aumentos que se têm sentido, ora porque o SMN já é demasiado alto, ou porque irá prejudicar os mais desfavorecidos, ou porque são contra a existência de um SMN (exemplos: 1, 2, 3, 4, 5).

A discussão do salário mínimo é, claramente, uma missed opportunity para os liberais. Por um lado, a razão/verdade, de forma geral, está do nosso lado, os argumentos têm sido feitos com encadeamento lógico, de forma mais ou menos sustentados com dados empíricos, e sem muitos apelos à emoção. E isto, a meu ver, é um das condições essenciais para que algo possa mudar, e aqui os liberais estão de parabéns. No entanto, por outro lado, algo está claramente a falhar. O paradigma continua esquerdista, e podemos encolher os ombros e dizer "bem, fizemos o nosso melhor". Mas, tal como nas ciências, para mudar de paradigma, não basta ferir o vigente de morte, também é preciso avançar com uma alternativa.

Afinal de contas, a discussão política sobre o SMN não é um mero exercício teórico. Existe um problema real com os salários em Portugal, que são tendencialmente baixos, e temos uma cada vez maior proximidade entre o SMN e o salário médio e mediano. E se, do ponto de vista económico, as pessoas até podem concordar com a análise feita de que aumentar o SMN nas condições actuais é um problema, há outras considerações a tomar. Dizer "não aumentem o SMN" sem oferecer uma alternativa sobre o que fazer é o equivalente a dizer que se quer que fique tudo na mesma. Em termos de mensagem, especialmente para o estatuto de PME que o liberalismo-qua-empresa tem em Portugal, é suicídio. Ao menos o esquerdistão oferece algo que, no curto prazo, traz mais rendimento, e até oferece uma bonita narrativa onde o milagre da procura interna vai impulsionar o país para uma prosperidade nunca antes vista.

Daí que toda esta história seja uma missed opportunity. Pode-se (e deve-se) dizer "aumentar o salário mínimo, neste momento, não faz sentido", mas também convém dizer "e em vez de aumentar o salário mínimo, eis o que podemos fazer". De que a mistificação da procura interna, impulsionada pelo investimento estatal em grandes projectos, será a solução para os problemas do país. E era aqui que pode entrar uma mensagem diferente: a ideia de que há casos de países com sucesso lá fora, e que já há provas de que o modelo desses países resulta em Portugal. Vejamos.

Uma das preocupações mais frequentemente avançadas quando se discute a questão do SMN tem que ver com o impacto que esse aumento tem sobre as PMEs, especialmente no que diz respeito à sua competitividade — ainda recentemente, foi essa a mensagem que veio de Bruxelas. Num país que tem défices crónicos nas balanças comerciais (apesar da situação se estar, finalmente, a inverter), isto é algo que deve preocupar qualquer pessoa minimamente interessada nos destinos do país e de quem cá vive. Mas (e estou ciente de que o que vou escrever não é de todo consensual), eu gostava de recomendar que se ignorasse esta lenga-lenga. Não só ignorar, como repudiar. Porque Portugal tem de deixar de ser um país onde as empresas competem no preço:
What matters for international competitiveness and growth across countries are technological (non-price) competitiveness and (high-tech) productive capabilities – not labour costs and prices. Our own econometric evidence for Greece, Italy, Portugal and Spain (Storm and Naastepad 2015a) and for Germany (Storm and Naastepad 2015b) shows that RULC [relative unit labour cost] changes did not affect export and importgrowth and trade balances in a statistically significant manner during the period 1996–2008.
Este é o modelo de sucesso de que devíamos falar: a Alemanha. Mais concretamente, tentar perceber o porquê do sucesso desse país, e de como é que podemos criar as condições para que Portugal também possa sair da sua situação actual. Actualmente, está em vigor um modelo onde as suas empresas actuam efectivamente num mercado global, mas se limitam passivamente a produzir uma dada quantidade a um preço definido externamente (concorrência perfeita); e substituir o que existe actualmente para um modelo onde existe uma alta diferenciação e especialização e são as empresas que definem, tendo em conta as condições existentes, o preço que cobram (concorrência oligopolística).

É precisamente este modelo de competição oligopolística que convém promover em Portugal:
German firms, producing high-tech, high value-added, high-priced and mostly very complex manufacturing goods, do not directly compete with Spanish, Portuguese, Greek or even most Italian firms, which are specializing in lower-tech, lower value-added, low-price and less complex goods (Simonazzi et al. 2013). German firms are price-setters and dominate their niche markets, while Greek and Portuguese firms instead compete with low-cost Asian producers—on costs (but not just labor costs)—and get pushed out from their markets by their Chinese competitors (Straca 2013). The upshot is that real-life competition in oligopolistic markets cannot be reduced to just unit-labor-cost competition—whatever the textbooks want us to believe. And if one insists on focusing on unit labor costs, then there is no reason why one should not also look at unit capital costs (or profit margins), as is argued by Felipe and Kumar (2011); oligopolistic firms might as well compete on profit margins. 
E, reparem, isto não é uma defesa de que Portugal deve começar a investir em massa em fábricas de automóveis, apostar em fábricas de maquinaria pesada, ou todas as imagens que se nos oferecem quando pensamos na indústria alemã. Isso é simplesmente a concretização alemã do modelo que aqui defendo, que tem em conta o seu contexto, a sua história, a mão-de-obra disponível, e o capital existente. O que torna a Alemanha especial, o que permite que o país tenha abandonado o paradigma da concorrência perfeita, e avançado para a concorrência imperfeita, é a existência do Mittelstand (recomendo vivamente a leitura deste link), e em especial a conjugação de quatro princípios, o ethos que dá alma a estes hidden champions:
  1. Strategy: Global niche dominance
  2. Governance: 'Enlightened' family capitalism
  3. World class performance in core processes
  4. Locational advantages: The German microeconomic business environment
E não querendo cair nas tentações dirigistas que tão bem caracterizam os nossos actuais actores políticos, convém perceber quão bem este ethos pode encaixax naquilo que já temos. Afinal de contas, o caminho que o vários sectores têm vindo a percorrer (calçado, têxtil, vinhos, agricultura, metalúrgico..) é precisamente este: empresas pequenas, normalmente de gestão familiar, que estão altamente especializadas, a produzir produtos de excelente qualidade.

São estas as pequenas e médias empresas que estão a gerar emprego duradouro, melhor pago do que o que havia anteriormente. E são estas a empresas que estão a dominar os seus nichos: os nossos produtos, seja em segmentos de venda ao consumidor, seja no B2B, começam a dar cartas.  E, claro está, a particularidade das nossas vantagens competitivas (o nosso know-how e a nossa história e contexto não nos permite criar indústria como a Alemanha o fez) leva a que a implementação seja diferente. E é inegável que mesmo tendo nós os custos da mão de obra a aumentar relativamente à Alemanha, as nossas exportações cresceram relativamente mais que as alemãs!

Nunca esquecer que foi o socialismo que nos deixou no estado em que estamos. A insistência no Estado como motor de desenvolvimento só contribui para o nosso atraso; e, de resto, convém lembrar que toda a lenga-lenga da procura interna leva a um efeito muito engraçado:
In a nutshell, since the mid-1990s, Germany has become stronger and more productive in high-value-added, higher-tech manufacturing (in conjunction with outsourcing to Eastern European countries), while Southern European countries became more strongly locked into lower-tech, lower value-added and, often, non-tradable activities. (Storm and Naastepad 2015c). This has reinforced the core-periphery relationship between Germany and the Southern-European countries—meaning that Southern European growth spills over into German growth (via trade and finance) but not vice versa (Janger et al. 2012; Simonazzi, Ginzburg & Nocella 2013; Botta 2014; O’Connell 2015). This centrifugal process has been fueled and strengthened not just by the surge in cross-border capital flows following the introduction of the euro, but also by the common currency itself (as argued by Wierts, van Kerkhoff and de Haan 2014) as well as by the centralized and uniform interest rate policy of the ECB which up to 2008 was perhaps appropriate for stagnant and low-inflation Germany, but was undeniably out-of-sync with inflation levels in Southern Europe (Storm and Naastepad 2015c).
E reparem quão bem esta ideia encaixa nas aspirações dos liberais Portugueses, servindo simultaneamente para responder às ânsias de muitos portugueses. Não só é possível explicar porque é que o socialismo vigente nos afunda cada vez mais, como é possível apontar uma saída plausível (porque já resultou lá fora, e tudo parece indicar que pode resultar cá) para a nossa situação. É possível mostrar como é que, mesmo sem o Estado da equação, pela força e vontade das pessoas em prosperar, há possibilidades efectivas de melhorar a vida de todas as pessoas que querem trabalhar, ser honestas e viver a sua vida sem problemas. E não passsar esta mensagem parece-me ser uma missed opportunity.

terça-feira, fevereiro 23, 2016

Estratégia liberal no esquerdistão (III)

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I.

Escolho começar este texto pelo reconhecimento de que estou a fugir ao habitual tipo de posts que faço por aqui, por duas grandes razões: por um lado, é um post eminentemente político; por outro, é também contraditório. Sempre fiz questão de afirmar o meu desgosto (também podia dizer nojo) pela política enquanto actividade, e sempre fiz questão de afirmar o porquê de assim o ser. Mas, e daí a parte contraditória, estou cansado e esgotei a esperança de que isto vai lá por si só. O tombo que o país levou desde 2007-8 foi brutal: não bastava o já de si desagradável ajustamento económico (que só aconteceu em parte), mas também o esforço que teve de ser feito para manter o status quo ter sido extremamente pesado (e foi bem mais pesado do que o esforço do ajustamento económico).

A 3ª República está falida, de um ponto de vista moral e financeiro. É visível e palpável a corrupção que assola o aparelho do Estado, a burocracia que tolhe o normal funcionamento do país, o hipotecar do futuro das gerações vindouras graças a décadas de acumulação de défices públicos e respectiva dívida pública, a captura do aparelho público por parte de grupos privados e "elites" podres, a existência de leis anacrónicas e que castigam o comum cidadão, o completo afastamento (e respectivo alheamento) da população dos processos de decisão sobre a coisa pública, e, não menos importante, o atraso económico.

A tudo isto se junta, em simultâneo, um status quo que domina a política e a comunicação social que não oferece qualquer tipo de mudança ou alternativa credível relativamente ao que tivemos até agora - os partidos que proclamam a diferença e a alternativa propõem apenas uma dose mais forte do lastro que tem vindo a afundar o país. Não muda o medicamento, apenas se aumenta a dose. Perceber que o Estado e os seus instrumentos directos de controlo sobre o país estão capturados por uma plutocracia - metade partido, metade grandes grupos económicos - é essencial. Não podemos ignorar que o problema da captura é algo real, documentado, e que acontecerá independentemente da cor partidária enquanto algo não mudar.

É isso que me leva a tentar fazer algo: a noção de que o "sistema" está caduco, e que tem de haver uma refundação moral e ideológica das instituições para que possa haver alguma esperança num futuro melhor. Aqui gostava de partilhar aquilo que vejo como uma possível saída para o país. Este texto é o começo desta empreitada "macro".

II.

Assim sendo, proponho duas verdades que serão os pilares fundamentais de tudo o que será escrito daqui para a frente: por um lado, que o Estado, definido para este efeito como a instituição que detém o monopólio sobre o poder coercivo da força, é um mal; por outro, que a Liberdade, definida em termos negativos como a não interferência por terceiros em assuntos de foro individual, é um bem. Daí que haja uma escolha clara de minimizar um e maximizar o outro. Tudo o que for escrito e aduzido daqui para a frente terá estas duas premissas como base. Sei que muita gente não concordará com estes pressupostos, mas estas parecem-me ser as verdades (com "v" pequeno) que escolho como "self-evident".

Sei que estas premissas não são consensuais, mesmo entre pessoas que partilham o mesmo espaço político que eu. Nem tampouco o ponto de equilíbrio, a existir, será igual para todos. Levará a discussões, a mal-estares e até a quem ache que tal organização deixará de ser parte da solução, passando a fazer parte do problema. Mas isso acontecerá em qualquer tentativa de organização política. O importante será ter noção que a política é uma tentativa de solução de um problema de coordenação a nível colectivo; e que se garantirmos a observância daqueles princípios, a solução tenderá a ser melhor.

E quando escolho estas verdades, sei que também estou a implicitar um ideal de pessoa. Qualquer desenho institucional, seja ele feito de forma orgânica ou de cima para baixo, favorece certos traços de personalidade e comportamentos individuais. Mas esta noção é fundamental. Não sendo possível (nem desejável) que as instituições desenhem um homem novo, elas norteiam e balizam o comportamento dos indivíduos. Será desejável que as instituições favoreçam a responsabilidade individual, a cooperação entre partes livres, e também a competição entre respostas alternativas. De igual modo, será desejável que se desencoraje as falhas de carácter (mentira, fraude, desresponsabilização) e que, de igual modo, não se permita que as eventuais falhas das instituições penalizem quem tente trabalhar e viver de forma honesta.

III.

A formação de um partido de índole liberal é uma das possíveis respostas para melhorar a situação do país. No post anterior deixei antever a minha simpatia por esta solução. Tal deve-se a uma situação de mero confronto com a realidade: as outras soluções tentadas, até agora, não surtiram frutos, e não antevejo que tal vá mudar — e se estiver errado, terei todo o gosto em reconhecê-lo pois isso era sinal de que a causa do liberalismo em Portugal poderia avançar.

De todo em todo, um partido é uma arma extremamente perigosa. Se pode por ele pode passar a resposta de que precisávamos, também por ele pode passar o prego que faltava no caixão do liberalismo em Portugal. Ou, e admitidamente o mais provável, é que não tenha efeito algum, e passe a fazer parte da espuma dos dias. A meu ver, há algumas condições que têm de existir para que possa existir possibilidade de sucesso.

    1. Definição de uma estratégia clara - o que é, mas acima de tudo o que não é, o partido liberal
    2. Definição de uma mensagem clara - qual é o problema ao qual quer dar resposta, e que resposta é essa
    3. Definição de objectivos claros - onde se quer chegar, como se pode lá chegar, quando se pode lá chegar

Gostava de me ocupar do primeiro. Os outros dois serão algo que seguirão naturalmente, e certamente que haverá várias maneiras de aplicar a mesma estratégia. Aliás, será a existência e tentativa de várias maneiras diferentes de aplicar a estratégia que permitirá maximizar a possibilidade de sucesso desta empreitada.

Desde já, muito do que vou escrever será informado por ideias que vêm do mundo empresarial, em especial com recurso a estudos de casos de sucesso de empresas start-up, que começam do 0, com pouco mais do que uma ideia e parco capital. Recentemente, li na HBS a publicação de um artigo que me parece adaptar-se como uma luva ao que procuro explicar: Lean Strategy. Aconselho vivamente a leitura para se perceber melhor alguns pontos que não tenha capacidade de passar. Mas, acima de tudo, o ponto mais importante (e de onde se depreende a importância da estratégia) é o seguinte: «Indeed, the single best piece of advice for any company builder is this: Know what not to do. Strategy helps you figure that out.»

Um partido liberal, a existir, deve ter sempre em vista que idealmente não seria preciso para nada. O dia em que a sociedade portuguesa passar a ser liberal, onde o princípio da liberdade se sobreponha ao monstro estatal, é o dia em que o partido liberal deve arrumar as botas e terá a sua missão cumprida. É assim com todas as empreitadas que procurem transformar a sociedade. E no dia em que esse objectivo estiver cumprido, deixa de fazer sentido a existência de um partido liberal.

Devido às condicionantes, deve-se definir bem quais são as vantagens competitivas e procurar apostar o máximo possível em organizar as actividades de um partido liberal em torno dessas vantagens. A meu ver, há algo que o diferencia decisivamente dos partidos já existentes: o partido liberal oferece a resposta correcta aos problema do país; e fá-lo de uma posição de fora do status quo. Daí que seja fulcral, por um lado, construir uma mensagem clara e, por outro, fazer ver que essa mensagem se opõe frontalmente ao que tem sido o curso do país.

A pergunta "porquê essas duas?" é perfeitamente legítima. A meu ver, e tendo em conta o mercado político existente, será fundamental deixar o mais claro possível o porquê de a resposta dada ser a correcta — só assim se pode garantir uma mudança de fundo na sociedade. O facto de ser necessário vincar o facto de a mensagem surgir de uma posição de fora do sistema é igualmente fundamental para o sucesso; afinal de contas, só assim pode haver uma hipótese em procurar persuadir a fatia dos votantes que não se revêm nos partidos existentes e nas respostas que eles procuram dar, nem tampouco se revêm no sistema que existe em Portugal.

A pergunta "por que não outras?" é também importante. Aqui não tenho uma resposta. Será o processo de aprendizagem proveniente da aplicação da estratégia no caso real que permitirá revê-la — e certamente que será necessário revê-la, a certo ponto. Por ora, isto é uma análise teórica. Sem dúvida que existirão outras vantagens competitivas que permitirão, simultaneamente, diferenciar o partido liberal dos restantes e concretizar a estratégia.

A existência de uma estratégia não implica uma mensagem fixa, ou que os objectivos não possam ser revistos. Como qualquer startup, os elementos exógenos (e que não se podem controlar) têm uma influência fundamental nos objectivos de curto-médio prazo, e naquilo que será a mensagem a passar para fora. Mas isso não será um problema — pelo contrário, fará parte do vigor — pois existirá essa estratégia que garante coerência entre aquilo que é dito, aquilo que é feito, e onde se quer chegar a curto, médio e longo prazo. Este processo de aprendizagem e mudança será fulcral para o sucesso, visto que a navegação será feita por águas que ninguém conhece com certezas. E será a estratégia que permitirá levar este barco a bom porto.

E o que não se deve fazer? A resposta aqui é mais difícil, e a experiência será aqui também fundamental para perceber. Mas acho que há alguns pontos demais óbvios.

    1. O mais óbvio será o de ter noção de que qualquer que seja a concretização da mensagem, vai sempre haver (muita) gente que irá discordar, independentemente da qualidade do trabalho do partido liberal ou da veracidade e cogência dos seus argumentos; mas não adianta perder tempo e recursos com essas pessoas, e ter noção que o objectivo não será roubar votantes ao BE ou ao PSD, mas sim à abstenção — no fundo, não tentar vender algo a alguém que não vai comprar.
    2. Igualmente (ou talvez mais) importante é não vender um produto a alguém que não está disposto a pagar o preço que se acha adequado; o objectivo do partido liberal, especialmente numa fase de início, nunca deve ser o de lutar no jogo de maximizar o volume, mas sim de trabalhar com clientes de margens elevadas — isto traduz-se de forma simples: não diluir a mensagem para agradar a mais pessoas. Criar massa crítica é fundamental, e de qualquer modo parece estar a dar-se o caso de que o tempo dos partidos de massas estar a acabar.
    3. "Start-ups are not smaller versions of large companies. They do not unfold in accordance with master plans. The ones that ultimately succeed go quickly from failure to failure, all the while adapting, iterating on, and improving their initial ideas as they continually learn from customers." Isto para dizer: o partido liberal não é um partido estabelecido, com uma mensagem convencional. Não se deve olhar para esses partidos para ter inspiração, pois o objectivo não é tornar-se um deles.
   
Mais uma vez, haverá muito mais a não fazer. Aplicam-se, claro, os princípios básicos da decência: não mentir, não roubar, não praticar fraude, admitir erros, e procurar sempre fazer melhor. Mais do que princípios liberais, a sociedade precisa de princípios de comportamento. Mas esses, para o bem e para o mal, só podem ser transmitidos através de bons exemplos.
   
IV.

Acho que antes de terminar, há algumas palavras que gostava de deixar. Em primeiro lugar, é provável que esta empreitada vá falhar. Seja por falta de interesse, seja porque a estratégia seguida (a que foi aqui delineada, ou outra) se revele errada, seja por falta de recursos, seja por erros catastróficos, quezílias internas ou externas, ou simplesmente porque o país não está preparado. Independentemente disso, e repetindo-me um pouco, pelo menos seria bom tentar e dar o melhor.

Em segundo lugar, não vai ser fácil. Afinal de contas, as discussões internas («If you put two economists in a room, you get two opinions, unless one of them is Lord Keynes, in which case you get three opinions.» -e os liberais tendem a ser um pouco como o Lord Keynes) e as externas (os socialistas deste país nunca foram propriamente fãs da liberdade de expressão, mas sempre foram bastante fãs do insulto) serão intensas e muito desgastantes.

Em terceiro lugar, e para terminar da mesma maneira que o post anterior, "também acho que [um partido liberal] pode ser uma ferramenta que pode destruir a réstia de esperança que há em mudar o país". Ter isto em conta será fulcral para garantir o eventual sucesso.

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Estratégia liberal no esquerdistão (II)

2 comentários:
(Faz hoje 4 meses do último post neste blog. Mas ainda cá estamos, nada temam.)

Nesta última semana, muito se tem falado sobre um partido liberal. Umas pessoas contra (ex., outro), outras a favor. Acho que o post mais interessante é mesmo o primeiro que citei, do Rui A. (que expande sobre o mesmo assunto aqui e aqui), porque me parece conter a expressão mais correcta do sentimento mais presente nos grupos liberais portugueses. Tem ainda a vantagem de esse post fazer uso de uma analogia (a política como actividade de mercado, o partido como empresa, o votante como consumidor, etc) como forma de ilustrar o argumento. É esse post (e essa analogia) que vai servir de base para o que vou escrever. Mas permitam-me começar um pouco mais atrás.

No último post deste blog ("Estratégia liberal no esquerdistão") falava de um assunto a jusante deste; ali, procurava definir uma estratégia de comportamento individual (na boa tradição Miseana) que depois poderia ser extrapolada para empreendimentos colectivos. O post terminou de uma forma um pouco atabalhoada ("A nível institucional, não sei responder a essa questão, mas vou pensar sobre o assunto.") porque, de facto, não sabia como responder. A resposta fácil a nível institucional (viz., criar um partido) sempre me causou repulsa e referi-o já várias vezes, neste blog e noutros sítios. No entanto, e tenho de reconhecer, não me ocorrerem, até hoje, outras. Explico.

Fui participante no defunto Movimento Libertário, que desapareceu porque as pessoas que dinamizavam aquele espaço perderam o interesse — eu perdi-o porque me pareceu que os esforços que desenvolvia não estavam a surtir o efeito desejado. Naturalmente, alheei-me do projecto, e eu e os meus camaradas percebemos que não valia a pena continuar a insistir. Declaramos bancarrota, e cada um seguiu com a sua vida. Tenho alguma pena, mas acho que o trabalho que fizemos foi bom e meritório.

Fui participante no ainda vivo Instituto Ludwig von Mises Portugal. Deixei de participar porque deixei de me rever na forma como o Instituto era orientado — i.e., a estratégia que a nova (à altura) direcção tomou não me parecia correcta, e distanciei-me também desse projecto. Aqui, tenho ainda mais pena, pela admiração velada que tenho pelo ILvM americano, e por ter visto aquilo que foi possível fazer no Brasil através dos esforços do ILvM-Brasil. A versão portuguesa é até agora um falhanço. Se calhar, não dei o meu melhor para que as coisas fossem diferentes, mas isso é imaterial.

Haverá ainda outras concretizações institucionais, umas bem sucedidas (acima de tudo, o Insurgente e o Blasfémias) e outras nem tanto (Causa Liberal, PLP, outros que não me ocorrem ou não tenho conhecimento). Há razões, muitas, para assim ser. Mas parece-me que há duas que são fundamentais: por um lado, a estratégia (quando existia) era insuficiente ou errada; por outro (ou devia dizer: por causa disso), o desenho institucional não era o mais indicado. O facto de haver "muitos" liberalismos, o facto de supostamente haver "purgas" (apesar de eu nunca ter assistido a isso), de as pessoas discordarem, ou de sermos poucos, parecem-me ser apenas desculpas para ficar parado. E aqui, voltava ao post do Rui A.

A analogia de base parece-me ser correcta; isto é, há de facto muitas similaridades entre uma empresa e um partido, entre o mercado e a democracia, entre um votante e um consumidor. O que me parece é que há um entendimento errado sobre como (na prática) funciona o mercado, e sobre o que é preciso fazer para uma empresa que começa do 0 (ou próximo disso) possa ter viabilidade. O Rui A. diz que para um partido liberal triunfar "carece de causas e objectivos, de bons vendedores e, obviamente, de um presidente do conselho de administração que seja carismático e atraia as preferências dos consumidores." Eu, pessoalmente, discordo.

Do mesmo modo como o mercado mudou — a paisagem do século XX não é a mesma do século XXI, seja no mundo empresarial, seja na política —, também mudaram os caminhos para obter o sucesso. O exemplo mais premente desta mudança de paradigma é o caso da Procter & Gamble; o gigante dos bens de consumo tem desde finais da década passada procurado estar em menos e menos negócios, e a concentrar-se naquilo que faz bem (leia-se, nas marcas mais lucrativas). Em 2014 anunciou que ia vender mais de 100 das suas marcas, e já em 2015 vendeu 43 marcas de produtos de beleza. Não é que os negócios que a P&G vende tenham deixado de ser lucrativos; mas a verdade é que o tempo dos grandes conglomerados que fazem de tudo um pouco ("jack of all trades, master of none") está a chegar ao fim. E isto, na política, quer dizer que a ideia do partido de massas está a acabar. (Note-se que quando estes partidos surgiram, fizeram-no fora das estruturas e instituições políticas existentes, para dar resposta aos novos votantes, que não estavam representados pelos partidos já existentes.)

Uma empresa, para ser bem sucedida no séc. XXI, tem de ter uma estratégia, algo diferente das "causas e objectivos". Isto é, tem de saber qual é o problema ao qual quer dar resposta, e tem de saber o que pode (e não pode) e quer (e não querer) fazer para dar essa resposta. Precisa de um bom vendedor, mas o trabalho do vendedor passou a ser explicar que o seu produto é o que melhor dá resposta ao job to be done, independentemente do seu custo ser elevado ou não — isto contrasta com o vendedor do séc. XX que procura vender o máximo de volume possível, nem que para isso tenha de esconder informação ou oferecer descontos brutais. Os consumidores têm as suas preferências, que não mudam assim tanto, especialmente no caso da política; o trabalho da empresa é desenvolver o melhor produto que dê a melhor resposta possível a esse problema, e não fazer o consumidor mudar as suas preferência para ir de encontro ao seu produto. 

Mais: de nada interessa que o CEO seja um tipo carismático ou um introvertido de primeira água: o que interessa é que o cliente fique satisfeito. Olhem para Espanha: o Podemos atingiu a votação sem um líder carismático (Pablo Iglesias tem tanto de carismático como de liberal). O Cs e Albert Riviera idem. Mesmo no caso português, e com todas as qualidades intelectuais e políticas de Francisco Louçã, o carisma nunca foi uma arma que lhe assistiu. Pelo contrário, sempre soube explicar muito bem o que representava e porque achava que a sua resposta era a correcta para os problemas que assolavam as pessoas. Muita gente acreditou, muita gente discordou. Mas a verdade é que o BE é um caso de sucesso ao nível partidário, mesmo sem um líder carismático, com vendedores que não procuravam agradar a todos, e que não iam ao encontro das pessoas, mas sim com as pessoas a irem de encontro à linha do BE. 

Daí que não consiga perceber a sugestão do Rui A. em dizer que os liberais devem juntar-se ao CDS e ao PSD. Partidos esses que não têm uma mensagem clara (PSD) ou que têm uma mensagem pouco ou nada liberal (CDS). Esses são os liberais que estão a diluir e confundir a mensagem. É como eu querer vender uma distribuição de GNU/Linux e decidir que a melhor maneira é juntar-me à Microsoft para os convencer a fazê-lo. O mais provável é eu acabar a usar Windows.

Daí que discorde de Rui A. Acho que há um mercado considerável por explorar para o liberalismo em Portugal. Acho que um partido pode ser uma boa ferramenta para mudar o status quo. Mas também acho que pode ser uma ferramenta que pode destruir a réstia de esperança que há em mudar o país. Daí que seja uma linha a caminhar com muito cuidado. Continuo sem saber se se deva fazê-lo, mas nos próximos dias vou tentar explicar como, a meu ver, tal empreendimento pode ter sucesso.