segunda-feira, agosto 27, 2018

Manual de boas práticas para a empresa agrícola

Uma das maiores riquezas do país é a nossa agricultura. Temos um país de tal modo diverso em termos de solos, climas, fauna e flora, que não estou a exagerar se dissesse que temos condições sem igual no mundo. Certamente nunca poderemos ser os "maiores", porque somos de facto pequenos, e a nossa estrutura fundiária a Norte não é muito dada a grandes concentrações. Mas podemos usar as nossas limitações a nosso favor; bem enquadradas, podem ser realmente aquilo que nos vai permitir uma agricultura de excelência, um exemplo a nível mundial, que remunera bem o capital, e paga ainda melhor a quem nela trabalha.

Porque afinal de contas, isso também conta. Ser agricultor, trabalhar a terra, tem de ser encarado como uma perspectiva séria de trabalho, sem adquirir conotações de más condições de vida e/ou de recurso último para poder sobreviver. As condições materiais são importantes, e para isso é preciso que a agricultura seja um negócio rentável para quem nele investe. E não nos enganemos, é preciso investir bastante na nossa agricultura. O tecido empresarial não se forma da noite para o dia, e tem de ter a confiança e o arcaboiço financeiro para fazer face aos desafios especiais que a empresa agrícola enfrenta (e.g., o facto de poder ter as suas receitas concentradas em 2 ou 3 momentos do ano, e as despesas espalhadas ao longo do ano, com "picos" concentrados em momentos antecedentes à entrada de dinheiro). Mas, de igual modo, as pessoas que nela trabalham têm de receber de modo condigno, de estar alinhas com a estratégia da empresa (e exige comunicação e formação da parte do patronato).

Isto pode parecer um sonho: ter a pequena/média empresa, num contexto de gestão familiar, de visão de longo prazo (pois há uma ligação à terra), orientada para a produção de algo de excelência (uma centena de milhar de pequenos "melhor do mundo"), que encara a sua vertente de responsabilidade social como um dever e não como algo que lhes atinge a bottom line, que tem uma estratégia de mercado acima de tudo virada para o exterior e com a preocupação última de servir bem o cliente. O tal sonho pode soar muito alienígena para quem não conhecer a realidade, mas a verdade é que as sementes para isto acontecer estão lançadas, e é uma questão de deixar crescer.

Para isso é preciso duas coisas: pessoas que queiram trabalhar, e um enquadramento institucional que alinhe os incentivos e os objectivos a atingir. Assim sendo, este manual de boas práticas servirá para dar um empurrãozinho à causa, e deixar a minha experiência como jovem agricultor registada num manual de navegação, que servirá para o sumativo jovem empreendedor e para o bem-intencionado (mas sempre "de mãos atadas") burocrata.

1. Fazer bem dá mais dinheiro do que fazer muito

Partindo do pressuposto que há uma visão de longo prazo, e um objectivo de fazer algo bem, a grande maioria das actividades agrícolas deve ser desenvolvida baseada em dois princípios, que andam sempre de mãos dadas: fazer bem, e vender melhor. Isto implica o domínio sobre o processo produtivo, bem como uma vertente comercial bastante desenvolvida. Ambas as vertentes demoram anos a desenvolver, daí que é fundamental que desde cedo o prospectivo agricultor leia livros, visite explorações, fale com pessoas, vá às feiras do sector (vários anos), faça contactos, marque reuniões, e tente colar o barro à parede. A rentabilidade que uma produção agrícola bem trabalhada pode apresentar impressionaria os mais sépticos.

A vantagem de ter a dita "visão de longo prazo" obriga-nos a fazer contas bem diferentes. Por exemplo, um modo de produção que privilegie as práticas culturais de referência, certamente que consegue amortizar investimentos de maneira diferente. Um exemplo concreto, por experiência própria: um pomar de kiwi (que requer um investimento inicial de cerca de 40 a 50 mil € por hectare), bem gerido, pode durar mais 4 a 7 anos de produção (numa planta que tem uma vida produtiva média de 25 anos). E como este exemplo, há outros, que todos somados causam um impacto financeiro que não pode ser negligenciado.

Convém ainda dizer que estas empresas de excelência que trabalham mercados que preferem qualidade a quantidade são menos vulneráveis às flutuações dos preços internacionais (pois trabalham essencialmente "nichos"), e terão mais capacidade de aguentar as variações económicas do nosso país, pois estarão pouco dependentes do consumo interno.

2. O dinheiro nunca chega

A não ser que tenham a sorte de encontrar um "tubarão" que vos dê umas injecções de capital, a sombra do "não tenho dinheiro para chegar até dia X" vai estar sempre presente. Claro que, no dia em que as coisas estiverem melhor (os bancos deixem de ser abutres, estar tudo amarrado aos subsídios, o estado deixar de brincar aos processos, etc), esta preocupação deixará de existir. Mas até lá, e como aviso para os intrépidos que se queiram lançar agora, parece ser importante avisar para se irem habituando às restrições de liquidez (quer da empresa, quer de partes terceiras).

Isto irá levar algumas empresas a falhar, especialmente de pessoas com poucas noções de "gestão empresarial" (seja lá o que isso for). A boa notícia é que a começar, os tombos não são muito grandes. Mas é tão simples como, num orçamento mental que fazem para as próximas semanas, se terem esquecido de contar com a apólice de seguro de acidentes de trabalho, ou com um pagamento por conta. E, de repente, o dinheiro não chega. E em especial nos anos de começo, basta haver um azar meteorológico (eles acontecem, e arruínam um ano de trabalho num só dia), e será o suficiente para esta vivência passar a ser algo muito real.

Não há muito a fazer. Sejam organizados, e usem o vosso TOC para vos ajudar a estarem em cima do acontecimento. Ah, e já me esquecia: preparem-se para nos primeiros anos a Segurança Social tirar mais dinheiro da vossa empresa do que vocês. Já sabem que, para algumas coisas, o dinheiro tem sempre de chegar.


(continua numa próxima oportunidade, porque já está bem em território tl;dr, e assim posso fazer uma pausa para tomar um copo de água. até lá, recomendo.)

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