terça-feira, janeiro 12, 2010

# 5

«(...) there is one point about the gold standard that would redeem it from the charge of foolishness; even in the absence of any purely economic advantage…. An automatic gold currency is part and parcel of a laissez-faire and free-trade economy. It links every nation's money rates and price levels with the money rates and price levels of all the other nations that are 'on gold.' It is extremely sensitive to government expenditure and even to attitudes or policies that do not involve expenditures directly, for example, to foreign policy, to certain policies of taxation, and, in general to precisely all those policies that violate the principles of economic liberalism. This is the reason why gold is so unpopular now and also why it was so popular in the bourgeois era. It imposes restrictions upon governments or bureaucracies that are much more powerful than is parliamentary criticism. It is both the badge and the guarantee of bourgeois freedom — of freedom not simply of the bourgeois interest, but of freedom in the bourgeois sense» (p. 406)

Joseph Schumpeter, History of Economic Analysis (1954)

segunda-feira, janeiro 11, 2010

# 4




# 3

«Shiller and his colleagues have written formal academic papers on these matters, and I am sure that the mathematics are correct given the modeling assumptions. But for all the reasons cited above, the proposal to tie government payments to GDP figures is dubious both in terms of theory and practice.

If Shiller really wants assets that are analogous to corporate stock (as opposed to bonds), it would make much more sense for the government to sell securities entitling the buyer to a percentage of tax receipts, not a percentage of GDP. Besides making for a better analog to corporate stocks, this approach would also provide a healthy incentive by making massive tax cuts less "costly" to the government. Shiller's proposal, in contrast, gives the government a perverse incentive to raise tax receipts while strangling GDP. Isn't the government doing a great job of that already?»

Robert Murphy, no Mises Institute.

domingo, janeiro 10, 2010

Estado: o grande consumista


1286,2 milhões de euros no total.

***

Os sofistas asseguram que o dinheiro é bem gasto porque cria empregos e infra-estrutura. Isto, como escreveu Bastiat, é o que é visto. E isto é o que não se vê: «(...) the State has been living on a revenue which was being produced in the private sphere for private purposes and had to be deflected from these purposes by political force.» (J. Schumpeter, Capitalism, Socialism and Democracy, p. 198). O que não se vê é que cada euro a mais que o Estado tem para gastar é um euro a menos para o cidadão; que o dinheiro gasto pelo Estado não pode ser gasto pelas pessoas individuais que proporcionaram (ou no caso da dívida pública, vão proporcionar) a receita; que todo o emprego que o Estado cria é à custa de outro emprego que a esfera privada não pode criar; toda a procura agregada do Estado é apenas poder de compra retirado a cada contribuinte em particular. Em suma: o Estado não acrescenta riqueza, apenas a transfere.

sábado, janeiro 09, 2010

# 2

«Nesta matéria, é preciso ter alguma memória para não cair no espectáculo. Lembram-se quando um ministro (do PSD) tratou de substituir a designação «alunos» pela de «aprendentes»? Lembram-se como, que me lembre, todos os ministros que tentaram reformas curriculares e chamaram a atenção para o problema dos programas de ensino (como David Justino e Marçal Grilo, por exemplo) foram trucidados pelas máquinas partidárias?

(...) o «estatuto do aluno» é o menor dos males — vai ser coisa para a fedelhagem tratar da «participação na escola», do «modelo de gestão», do «poder da escola» e dos vícios congéneres.

Não. O que é preciso discutir, realmente, é o que se vai ensinar na escola. E para isso é preciso questionar seriamente uma geração de burocratas das ciências pedagógicas que, durante os últimos trinta anos, torturaram professores e alunos com as suas ideias de «engenharia escolar e social», os seus manuais deficientes, as ideias feitas, as vulgaridades e erros nos manuais de Português, História ou — ah, sim — até Matemática. Não se trata, apenas de mudança de mentalidade; isso, como o país está, ligeirinho e moderno, é o menos. Portugal muda de mentalidade todos os anos, conforme as conveniências, as oportunidades, o «Prós e Contras», as «fracturas» e os «psis» chamados ao estrado do Ministério da Educação.

A «revolução conservadora» tinha graça há duas décadas quando valia a pena construir o edifício. Hoje, ele está deficiente.»

Francisco José Viegas, n'A Origem das Espécies.

Medir os agregados


Malditos dados do desemprego, que insistem em desmentir os modelos e as fantasias dos positivistas. Eles «medem» os «agregados», e a expansão de crédito parece ter um efeito positivo, excepto no desemprego. O fenómeno da estagflação está perto, mas como os modelos provam que é impossível haver inflação massiva dos preços e enorme desemprego ao mesmo tempo, os keynesianos estão calmos. Os mercados financeiros prosperam com a injecção enquanto a produção de riqueza encolhe, e respondem com outra bolha. O investimento que mostra recuperação é o tipo de investimento que uma higiénica deflação faria desaparecer e ruir, não é investimento produtivo que responda à preferência temporal dos consumidores. É um investimento que não adiciona riqueza e que responde apenas à inflação do Banco Central. E que por consequência não «cria» empregos - apenas mantém alguns que não deveriam existir.

Por outras palavras, a economia do Estado está a engolir a economia de mercado.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

O papel da Igreja na defesa do casamento

O reconhecimento de um compromisso de intimidade perante uma instituição, o matrimónio, não nasceu ontem. Se a ideia surgiu das entranhas da Igreja, nada impede que não se possa «libertá-la» e partir do mesmo princípio com regras diferentes (elas, aliás, existem noutras religiões). Os puristas tradicionais não podem, nem devem, impedir a fundação de uma tradição à parte – isso tornaria o seu tradicionalismo numa pura farsa ou numa total incoerência. O que os tradicionalistas puros deveriam estar a fazer, em vez da vã cruzada contra a mudança dos costumes, era a protestar o envolvimento do Estado em assuntos que não lhe competem, como as relações amorosas e o núcleo familiar. Por outras palavras, deveriam estar a defender os direitos dos portugueses, inclusive aqueles portugueses que são homossexuais.

Infelizmente, a Igreja Católica em Portugal tem uma longa história, com poucas intermitências, de colaboracionismo com o Estado. Recorrer à força bruta do Estado para salvar a pureza das tradições é atractivo, mas em vez de as salvar o Estado dissolve-as lentamente numa massa indefinida e inútil – como fez com a Educação ou com o Casamento. Além de que o tradicionalista que recorre ao Estado, só pode ter pouca fé nas qualidades inerentes da tradição que quer salvar.

O casamento tradicional perdeu a sua natureza e o seu apelo não só pela passagem simples do tempo: o envolvimento do Estado, não só no casamento, mas em inúmeras áreas da vida privada e familiar mina permanentemente o papel e a importância da família, da comunidade, da cultura e da solidariedade; destrói a responsabilidade pessoal e a preocupação com o próximo com os seus programas; destrói as escolas e os bairros; subsidia a irresponsabilidade, a corrupção e a delinquência. O grande inimigo da vida tradicional e regrada é o Estado. É pena que os católicos não o consigam compreender.

E é triste porque a Igreja Católica poderia ser uma força decisiva na defesa de um Portugal livre. Infelizmente, continua a preferir fazer parte do Estado.

Adenda:

«Since the third century Christianity has always served simultaneously those who supported the social order and those who wished to overthrow it. (...) It is the same today: Christianity fights both for and against Socialism.» (p. 408)

Ludwig von Mises, Socialism: an economic and sociological analysis (1922)

A «empresa concorrente»

Recebo um telefonema em casa, da «empresa concorrente da EDP», para me aliciar a mudar de fornecedor. A rapariga começa a perguntar-me que tipo de serviço disponho, se estou satisfeito, blá, blá, blá e descobre que tenho um tipo de serviço incompatível com os programas que têm para oferecer. Diz-me: «se quiser aderir aos nossos programas tem de contactar a EDP» (para mudar qualquer coisa no contador). Pergunto se eles não podem oferecer o serviço completo depois da EDP ter mudado a tal coisa no contador. «Não, tem sempre de contactar a EDP», disse a menina da empresa concorrente.

Chama-se a isto, em newspeak, um «mercado livre».

Direitos

Finalmente os homossexuais têm o direito de ver as suas relações amorosas sancionadas e reguladas pelo Estado português. Que conquista. Que maravilha.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Dois pesos e duas medidas

É compreensível a preocupação com a nova lei da blasfémia na Irlanda - uma espécie de retorno à idade média em nome do progressismo multiculturalista. Qualquer ser civilizado consegue ver o absurdo e o perigo da coisa. Não há por isso nada de novo a dizer sobre o assunto.

O que me pareceu interessante, porém, foi o protesto relativo a esta lei por gente que, há duas semanas, dizia com certeza e superioridade moral que uma «democracia liberal» tem de ter leis que punam o uso indevido da linguagem se esta atingir ou puser em causa a honra ou a reputação de outro mortal.

Há algo de incoerente entre as duas posições: ou se limita a liberdade de expressão unilateralmente ou se assume que o simples facto de exprimir uma opinião não agride nem limita a liberdade de outrem. O meio termo, além de incoerente, é simplesmente desonesto.

terça-feira, janeiro 05, 2010

As origens do Estado social-democrata

Eis algumas medidas avançadas por Karl Marx no Manifesto Comunista para fundar o socialismo:

«2. A heavy progressive or graduated income tax.

(...)

5. Centralisation of credit in the hands of the State, by means of a national bank with State capital and an exclusive monopoly.

6. Centralisation of the means of communication and transport in the hands of the State.

(...)

10. Free education for all children in public schools. (...)» (p. 53, 54)

***

O resto foi copiado do III Reich.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Ainda bem que o Estado nos protege

Isto é o que nos diz o monopólio energético - garantido por privilégios do Estado, para variar - sobre alternativas que pudessem melhorar a vida dos «consumidores de energia» (eufemismo para «toda a gente»).

É claro que sendo protegidos pelo Estado da anarquia dos mercados competitivos, nunca saberemos que melhorias em qualidade e descidas em preços ocorreriam se outras empresas pudessem entrar no mercado sem estarem agregadas ao cartel da EDP e sem estarem reguladas por uma agência governamental cujo único propósito é aumentar os preços todos os anos.

O problema da EDP é, aliás, sintomático da toleima da esquerda e da direita em conjunto. A esquerda acha que o problema da EDP é ser privada e que em vez de burocratas em nome próprio e com subsídios do Estado, a empresa devia ser liderada por burocratas em nome do Estado e com subsídios do mesmo. Se é certo que seria menos imoral - porque ao menos manteria a ilusão de que se tratava de «serviço público» -, a solução esquerdista seria totalmente ineficiente e, no fundo, resultaria no mesmo que o cartel subsidiado da EDP.

A direita dos partidos, porém, acha que o «mercado liberalizado» da EDP é óptimo e nunca lhe ouvimos qualquer palavra de crítica a esta forma muito particular de «liberalização». Um monopólio, segundo a peculiar teoria, é benéfico desde que não seja, em título, do Estado. Mas visto que é a força do Estado que mantém potenciais competidores de fora (ou que os obriga a juntarem-se ao cartel), a diferença entre um monopólio que é do Estado e um monopólio que é mantido por ele não é nenhuma.

Para todos os efeitos e na prática, a EDP, a Mota-Engil e inúmeras outras empresas são apenas ramificações ou tentáculos do organismo Estatal, que não sobreviveriam sem os preciosos contratos e privilégios que lhes são concedidos. Por outras palavras, em competição aberta, o dr. Jorge Coelho teria de arranjar um emprego.

Entretanto, os consumidores são protegidos dos malefícios de preços mais baixos e melhores serviços pela benevolente acção do Estado - enriquecendo alguma gente com boas ligações partidárias pelo caminho. Dado que toda a produção necessita de energia, a queda nos preços desse bem essencial repercurtir-se-ia nos preços de todo o tipo de bens e serviços, o que se traduziria na melhoria imediata do nível de vida da população (tirando o nível de vida dos senhores da EDP, é claro). Ainda bem que o Estado nos protege.

domingo, janeiro 03, 2010

Being against the left is being right

Eu gosto do estilo cínico/sarcástico do Alberto Gonçalves e, não raramente, concordo com ele, sobretudo sobre a miséria indígena e o riso estupefacto perante ela. Mas no que toca aos EUA o Alberto vê o mundo da mesma forma que a esquerda anti-EUA: a preto e branco. Se a esquerda vê encarnado na América todo o mal do mundo moderno, o AG só lhe reconhece candura e boas intenções; se a esquerda protesta nas ruas contra a invasão do Iraque, o Alberto conclui que o Iraque deve ser invadido para promover a «democracia», capturar «armas de destruição maciça» ou qualquer outra mentira que Washington foi contando ao longo da Guerra. Por outras palavras, se a esquerda odeia Bush, a direita tem de adorar Bush.


Eu sem dúvida que achei compreensível e horrorizei-me na mesma (como não?), mas isso põe-me do lado dos que festejam o acto terrorista? Para me horrorizar tenho de achar que um acto destes vem do simples ódio às calças de ganga e à liberdade de expressão? Não é possível ser lúcido? É necessário partir para o maniqueísmo idiota que divide o mundo entre esquerdistas anti-capitalistas e direitistas neoconservadores? Eu sinceramente estou contra ambos. Da mesma forma que os EUA de Roosevelt provocaram o Japão continuamente, os EUA de Reagan, Bush (pai) e Clinton provocaram o Islão - ocupando territórios, bombardeando civis, interferindo na sua soberania. Que tais intervenções dêem origem a movimentos que odeiam os EUA como um todo não é de estranhar. É de estranhar que para defender o povo dos EUA, a sua história e os princípios que estiveram na sua origem, tenha de se defender o Governo imperialista dos EUA que é a negação desses princípios que fundaram a América. Rejeito esta interpretação maniqueísta, porque o mundo não é a preto e branco, e é legítimo gostar da América sem se gostar ou aprovar o Governo americano.

A razão porque o Governo americano invadiu o Iraque é bem clara até para o mais idiota dos esquerdistas: para assegurar interesses petrolíferos. A conclusão que eu tiro, porém, não é a que a esquerda tira: que o capitalismo é monstruoso e que os americanos são imperialistas por serem capitalistas. A conclusão que eu tiro é que não existe capitalismo nos EUA e que o Governo americano é imperialista para promover determinados interesses particulares, não porque defende a «democracia», o «livre mercado» e o modo de vida ocidental (até porque desde o 9/11 que os EUA se tornaram num Estado policial). E acredito que, se a América tivesse um governo como no Século XIX, não teria havido 9/11, nem radicais islâmicos, nem as razões para ambos: o imperialismo.

Mas a direita tenta nunca tirar uma conclusão que se baseia numa premissa que a esquerda partilha. E logo, é vê-la a defender o imperialismo americano sentindo-se a defender o liberalismo e a civilização ocidental; promovendo guerras infinitas e a intervenção do Estado nos assuntos de outras nações ao mesmo tempo que pretende que o Estado não interfira nos assuntos internos. É triste e incoerente. E só acontece pela necessidade de fazer oposição à esquerda, mesmo quando é preciso fazer a oposição certa que a esquerda não sabe fazer. Os EUA de Bush ficaram na memória geral como o cúmulo do imperialismo capitalista, e não houve oposição de direita na Europa que separasse as duas coisas como elas mereciam.

Esta tendência para estar contra a esquerda em tudo - mesmo quando se pode estar com ela, contra ou a favor das mesmas coisas, por razões diferentes - é uma marca distintiva da nossa direita e ameaça ficar por cá indefinidamente. Não admira que grande parte da população se identifique com a esquerda radical em relação aos EUA. Só é triste que não se possam identificar com alguém que, partilhando da sua visão sobre o assunto, tirem conclusões diferentes sobre ele e ofereçam uma verdadeira alternativa teórica e prática.

sábado, janeiro 02, 2010

O melhor e o pior de 2009

Na política, o pior terá de ser o Tratado de Lisboa a entrar pela porta do cavalo (a prova de que a democracia não chega e não serve para travar a voracidade totalitária dos burocratas). O melhor foi a proposta do Ron Paul para inspeccionar a Reserva Federal - que não sendo nova, tem pela primeira vez hipótese de ser passada à prática. Também foi muito muito mau o afrouxar da oposição esquerdista ao militarismo e ao império nos EUA, devido ao efeito-Obama; tal como o esboço de governo global que se desenhou em Copenhaga. A vitória de Sócrates foi má para o país, mas julgo que não seria melhor caso o PSD ou qualquer dos outros tivesse ganho. A reverência de alguma gente ilustrada perante Paulo Rangel pareceu-me de mau gosto. A oposição de Vaclav Klaus foi bonita de ver.

Na cultura sinceramente não sei. Acho que só li um livro deste ano: o Meltdown do Thomas Woods, que explica sucintamente a crise presente, embora apenas da perspectiva americana. Não ouvi música nenhuma deste ano, a não ser por acaso - e o que ouvi não gostei. Não fui ao teatro, não fui ao cinema. Vi o concerto da banda portuguesa de tributo ao Zappa no Porto e foi giro; talvez tenha visto algum concerto no CCB ou na Culturgest no início do ano, mas não me lembro. Fui ao Berardo umas quantas vezes passear.

O melhor blog foi o Vida Breve (pelos tomates, a honestidade e o estilo); o pior o Da Literatura (pelo Socratismo inesperado e de mau gosto).

Entre as minhas conquistas pessoais consegui que um comunista lesse O Arquipélago de Gulag. Ah, e provei sushi, confirmando as minhas piores suspeitas. 2009 vai ficar-me na memória por ter provado peixe cru pela primeira vez.

O Estado sanitário e o corporativismo

«(...) cinco esquemas alternativos de ajuda que passam, entre outras sugestões, pela comparticipação em 37 por cento dos medicamentos de primeira linha para deixar de fumar, pela sua oferta nas consultas de cessação tabágica ou pela disponibilização de cheques/vales que permitam a sua aquisição pelos fumadores, durante as primeiras semanas de tratamento. Os medicamentos de primeira linha incluem os substitutos de nicotina e antidepressivos que provaram ter eficácia na cessação tabágica.»

«Unânime quanto à necessidade de financiamento dos tratamentos de apoio à cessação tabágica, os especialistas que elaboraram o estudo lembram que os medicamentos "podem duplicar ou triplicar o sucesso da intervenção" e calculam que, no cenário mais optimista, ajudar os milhares de fumadores que em cada ano procuram os profissionais de saúde para deixar de fumar podem até significar uma poupança para o Estado.»

(no Público)

Nem vale a pena comentar. Vou fumar um cigarro.

#1

«Sound money still means today what it meant in the nineteenth century: the gold standard. The eminence ofthe gold standard consists in the fact that it makes the determination of the monetary unit's purchasing power independent of the measures of governments. It wrests from the hands of the 'economic tsars' their most redoubtable instrument. It makes it impossible for them to inflate. This is why the gold standard is furiously attacked by all those who expect that they will be benefited by bounties from the seemingly inexhaustible government purse.

(...) the government should no longer be in a position to increase the quantity of money in circulation and the amount of cheque-book money not fully - i.e. 100 percent - covered by deposits paid in by the public. No backdoor must be left open whereTriffiition can slip in. No emergency can justify a return to inflation. Inflation can provide neither the weapons a nation needs to defend its independence nor the capital goods required for any project. It does not cure unsatisfactory conditions. It merely helps the rulers whose policies brought about the catastrophe to exculpate themselves.» (p. 438)

Ludwig von Mises, The Theory of Money and Credit (1912)

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Sem governo.

Em Portugal a grande maioria das pessoas aprova a presença do Estado nos inúmeros aspectos da vida em sociedade. É um dado adquirido que a subordinação do indivíduo ao Estado é um enorme avanço civilizacional. E Deus nos proteja dos lunáticos que agem sem a permissão e a bênção das autoridades. Por consequência as actividades que o Estado hoje não regula, controla ou proíbe são poucas.

Se nos lembrarmos que quase todas as actividades envolvem uma ou outra forma de interacção económica, que toda a actividade económica é regulada pelo Estado (inclusive a expropriação directa de parte do nosso salário) e que o dinheiro que usamos (e somos obrigados a usar) para interagirmos economicamente é produzido por uma instituição monopolística governamental, podemos dizer com segurança que o Estado é o nosso dono e o nosso amo. E se os benevolentes legisladores ainda nos permitem algumas, escassas, liberdades, não há qualquer dúvida de que, se quisessem tirá-las todas, não haveria grande coisa que o cidadão comum pudesse fazer para impedi-lo.

Se o cidadão considerar uma lei injusta, que meios tem de se opor a ela? Escreve uma carta ao Presidente da República? Faz uma petição ao parlamento? Desobedece e põe a sua vida, liberdade e propriedade em perigo? Processa o Estado?

Os tribunais, tal como a polícia e o exército, são do Estado. E se o cidadão não está satisfeito com o serviço dessas instituições, não pode recorrer a outras que providenciem o mesmo serviço com melhor qualidade porque a competição nesses sectores é ilegal. Como dizia alguém: se o Estado nos defende dos criminosos, quem nos defende de um Estado criminoso? Ninguém.

Mas ao que parece a população vive confortável em regime de servidão aos amos de São Bento e de Bruxelas – só porque, de tantos em tantos anos, pode escolher uma mão diferente para segurar o chicote. É raro ouvir alguém, e muito menos um político ou um comentador, a pedir ao Estado para deixar as pessoas em paz. Deixar alguém em paz é a maior maldição para qualquer apologista do Estado. Nunca elegemos um candidato cujos objectivos sejam intervir menos nas nossas vidas, intervir menos na economia, intervir menos na cultura, na saúde, na educação (de qualquer das formas, onde anda esse candidato a não ser na imaginação prosaica de uns quantos libertários?). Pelo contrário, elegemos frequentemente o caudilho que pretende intervir mais e controlar mais a nossa vida para nosso bem. E raramente entendemos que para isso o Estado tem de expropriar mais através dos impostos que nos cobra, visto que a expropriação é a sua única forma de obter receitas.

Nem a esquerda nem a direita têm qualquer objecção moral ou vêem qualquer entrave ético aos impostos: para ambas trata-se apenas de mais um instrumento social, inevitável e a ser usado da forma mais imaginativa possível. Mas o que são os impostos, além da extorsão violenta da nossa propriedade, sob a presunção de que os burocratas podem gastar melhor o dinheiro honestamente ganho dos cidadãos? E àqueles que consideram os impostos «voluntários» faço o mesmo desafio que Rothbard fez inúmeras vezes: experimentem não pagar e ver o que acontece.

Tal como a população em geral, a esquerda e a direita reconhecem no Estado uma legitimidade imaginária, como se gerações e gerações de extorsão tornassem o acto de extorquir moralmente aceitável e indispensável à estabilidade social. Como qualquer ser parasítico, o Estado não produz nada e não saberia como. A sua essência é absorver a produção alheia e redistribuí-la; não é certamente aumentar a quantidade da riqueza para distribuir. Não: isso é a tarefa do malvado sector privado.

A esquerda quer subsidiar os pobres suburbanos à custa dos pobres rurais e da classe média. A direita quer subsidiar PMEs ou agricultores ou qualquer outra empresa com contactos políticos à custa dos contribuintes, dos consumidores e dos competidores. Ambos querem subsidiar sempre alguma coisa ou alguém. Só que nenhuma das intervenções do Estado na sociedade civil é neutra: todo o bem que faz é com o dinheiro dos outros; todos os privilégios que concede a uns são à custa dos sacrifícios de outros. Não é de estranhar que tamanho poder nas mãos de um aparelho monopolístico atraia pessoas de pólos políticos supostamente opostos. A verdadeira ideologia dos nossos partidos não é de esquerda ou de direita: é muito sucintamente o uso da força estatal para impor as suas visões particulares de como os cidadãos se devem comportar e interagir em sociedade, e não raras vezes, na privacidade dos seus lares, na educação dos seus filhos, no uso ou abuso dos seus corpos.

Todos os governos da III República, sejam de esquerda ou direita, aumentaram a despesa do Estado e, não raras vezes, os impostos. Inflacionaram a moeda, construíram auto-estradas e estádios de futebol ou impuseram regulações, controlos, regras, limites numa coisa ou noutra. Nenhum governo recuou nas invasões da liberdade e propriedade dos cidadãos; nenhum reduziu a despesa ou os impostos. Nenhum partido português de direita fala em mercado livre, a não ser a propósito de algum tratado internacional entre Estados que é o contrário de um mercado livre. Sobre a presença do Estado noutros domínios não directamente económicos – como o casamento (homossexual ou outro), o aborto, as drogas, o tabaco ou a prostituição – ninguém fala a não ser para pedir, mais da mesma ou outra, intervenção. Se as drogas ou a prostituição fossem legalizadas e começassem a dar lucro a alguém, é certo que o BE iria rapidamente ser contra elas e exigir inúmeras regulações e impostos absurdos sobre essas actividades.

Mas mais triste e importante que a baixeza moral e intelectual dos nossos partidos, é que o país real é leal ao Estado. Geralmente detesta ou despreza os seus representantes e não confia neles (com toda a razão); mas confia na ideia redentora de um Estado centralizado que sabe tudo e mexe em tudo, inseparável da sociedade civil, indispensável a ela.

O principal problema estratégico daqueles que, como eu, pretendem ver o Estado drasticamente reduzido ou eliminado sem recorrer a métodos violentos consiste em convencer e persuadir o público a ver a essência parasítica e predatória do Estado e em destruir a aura mística de legitimidade erigida por séculos de propaganda. Se há algum objectivo de fundo neste espaço, é esse.

Este é um blog livre e, por consequência, sem governo.