domingo, março 07, 2010

# 34

«The nation as such is not a large subject that has needs, that works, practices economy, and consumes (...)Thus the phenomena of "national economy" are by no means direct expressions of the life of a nation as such or direct results of an "economic nation." They are, rather, the results of all the innumerable individual economic efforts in the nation (...) Whoever wants to understand theoretically the phenomena of "national economy" (…) must for this reason attempt to go back to their true elements, to the singular economies in the nation, and to investigate the laws by which the former are built up from the latter.» (p. 93)

Carl Menger, Investigations into the Method of the Social Sciences (1915)

sábado, março 06, 2010

Dos impostos pagos pela Função Pública

O discurso comum sobre os privilégios dos trabalhadores do Estado esquece frequentemente a premissa mais importante: a de que os funcionários públicos não pagam impostos. Se os funcionários públicos trabalham para o Estado e o Estado obtém as suas receitas através de impostos, a implicação lógica é que a Função Pública é consumidora de impostos, não contribuinte. Tomemos o exemplo de um funcionário público que recebe mil e duzentos euros. Desses mil e duzentos, duzentos são lhe deduzidos em forma de «impostos». Podemos dizer que o funcionário público paga duzentos euros em impostos? Não: podemos dizer que o funcionário público recebe mil euros, a dedução dos duzentos sendo uma fantasia contabilística. Porque seja qual for a quantia que recebe, ela teve de ser retirada ao sector privado.

Para simplificar, imaginemos uma economia em que só existem produtores de maçãs (sector privado) e reguladores da produção de maçãs (sector público). Por cada cinco maçãs produzidas pelo sector privado, uma maçã é retirada em impostos. Se a total produção de maçãs for cem, vinte são retiradas em impostos para pagar aos reguladores. Se um regulador recebe cinco maçãs e paga uma de imposto, quer isto dizer que ele acrescentou mais uma maçã ao total de maçãs do sector público? Não: quer apenas dizer que recebeu quatro maçãs, em vez das cinco, do total de cem que sector público confiscou ao sector privado.

A primeira pessoa a perceber esta evidência foi John C. Calhoun, há quase dois séculos atrás. Infelizmente, por ignorância ou puro sofisma, ainda nos mandam com estas tretas para cima de modo a tentar justificar os privilégios de uma classe - os consumidores de impostos - sobre uma outra classe - os contribuintes. Podem bem argumentar que, para usar o exemplo descrito acima, os «reguladores da produção de maçãs» são muito úteis à sociedade, mas já é tempo de assumir que não haveriam «reguladores» sem «produtores de maçãs» para os sustentar. Todas as considerações sobre os privilégios de trabalhar para o Estado precisam desta outra consideração, muito mais importante, sobre o natureza parasítica do sector público no sector privado. Ou para usar a frase de Thatcher (personagem da qual só a retórica se aproveita): o problema do socialismo é que eventualmente acaba-se o dinheiro dos outros.

# 33

«Carta aberta do jornal alemão Bild, ao Primeiro Ministro Grego. Podia ser endereçada ao Primeiro Ministro português (...)

Dear Mr Prime Minister,

If you read this print, you’ve entered a country completely different from yours. You’re in Germany.

* Here, people work until they are 67. There is no longer a 14-month salary for civil servants.

* Here, nobody needs to pay a €1,000 bribe to get a hospital bed in time.

* And we don’t pay pensions for the General’s daughters who sadly can’t find husbands.

* In this country, the petrol stations have cash registers, the taxi drivers give receipts and farmers don’t swindle EU subsidies with millions of olive trees that don’t exist.

Germany also has high debts – but we can meet them.

* That’s because we get up reasonably early and work all day. Becuase in good times we always spare a thought for the bad times. Becuase we have good firms whose products are in demand around the world.

Dear Mr Prime Minister, today you are in the country that sends umpteen-thousand of tourists and money aplenty to Greece.

We want to be friends with the Greeks. That’s why since joining the euro, Germany has given your country €50bn.

For this reason, we are writing to you,

Yours,

Bild Editorial

PS In case you want to write back, we have enclosed a stamped addressed envelope. Of course, we want to help you to save…»

(Encontrado no Insurgente).

Será que Milton Friedman era um socialista?

Uma conversa contínua com o Filipe Faria, sobre ética, metodologia, anarquia, minarquia e Friedman.

sexta-feira, março 05, 2010

Mais um atentado imbecil contra a sociedade adulta

Aqui. Depois dos totalitários anti-tabagistas chegaram os totalitários anti-gordura. A urgentíssima regulação da quantidade de sal no pão não chega, por isso eis uma nova causa para as autoridades se entreterem. A idiotia, e a prepotência, das patrulhas da saúde não tem, de facto, limites. Hoje, as patrulhas higiénicas são como um braço armado do Estado, dizendo-nos o que meter no nosso corpo, a que horas e com que propósitos. É a usurpação unilateral do direito de um ser humano de controlar o seu próprio corpo e, naturalmente, de o destruir. É a infantilização da sociedade, consequência natural dos «direitos adquiridos». Quando se aceita a premissa de que o Estado deve fornecer cuidados de saúde a todos os cidadãos, aceita-se implicitamente que o Estado controle o nosso corpo e, naturalmente, a nossa vida. Dado que o português comum acha o autoritarismo um sinal de progresso e está convencido da suprema moralidade do socialismo, merece tudo o que lhe venha a acontecer. E mais.

Portugal: um país de utilitários

quinta-feira, março 04, 2010

# 32

«(...) It always makes me laugh when I see news of some European government giving some other country a stern lecture on economics – what do these people know about enterprise? The ones in power are almost all socialists!

Doug: [Chuckles] It's perverse. It's hopeless. It's the blind leading the doubly dismembered. Either they bail the Greeks out – and the Greeks won't change…

L: Wait a minute. The IMF lends money to poor countries and imposes conditions that those countries do make efforts to meet. Not that I'm any fan of the IMF, but why couldn't the EU do the same thing?

Doug: They might, but it won't do any good – they haven't the first clue of how to fix economies. The IMF and the World Bank are disasters themselves. They get capital from rich countries, loan it to poor ones to do things like build steel mills a world away from iron and coal supplies, and then counsel the local government to raise taxes to repay their loans. You know what I'd recommend to them?

L: Besides privatizing every function of the state?

Doug: Yes, besides that – which is so obvious it shouldn't even need to be mentioned. What they should do is default on their debt. And I don't just mean a gentle default, like Argentina's of a few years ago, in which people got some fifteen or twenty cents on the dollar back – I mean a 100% default. And that would be a good thing.

L: How so?

Doug: First of all, it would punish people stupid enough, or immoral enough, to lend governments money. They don't deserve to get their money back – they've been supporting these governments and their bad habits…

L: Some of which involve killing people. And all of them make tax-slaves out of their subjects. Sounds like just desserts to me.

Doug: Yes. Why should future citizens be effectively made into serfs in order to pay for the excessive consumption of people today? It's completely unjustified to foist the debts of the father on the sons and daughters. Most of that money has been totally wasted. A huge amount of what's been spent on foreign aid has been siphoned off by officials in the recipient countries. Just as much has gone into the pockets of "consultants" from the West, in payment for giving them rotten advice. Huge amounts have been skimmed in profits of companies who sold them projects that should never have been undertaken. So I say, default on it. Absolutely! To start with, it would bankrupt the IMF and World Bank, which would be a good start.

L: And the consequences?

Doug: Almost all good.

L: Care to expand on that a bit?

Doug: Sure. The thing to remember is that we're talking about governments, not individuals. When we talk about a country defaulting on its debt, we're really talking about its government defaulting on its debt. And the consequence of that is that that government isn't going to be able to borrow money again, not for a long time.

L: I can see that as a good thing; it would impose some fiscal discipline.

Doug: Exactly. So, it's a good thing for the citizens in the country, as the government will lose a source of money to spend harassing them. And longer term, because they won't have a millstone of taxes around their necks – the taxes that would have been raised to pay off all the debt. It would also mean that whatever the government wants to buy would have to be paid for from current tax revenues; people might get the idea that the state isn't a cornucopia. Of course governments will still try to inflate their currencies to buy what they want – but that game is rapidly coming to an end as well… although these miscreants still think they can avoid the fate of Zimbabwe if they keep inflating.

Businesses needn't falter, because it's not their debt that would be defaulted on. They'd just carry on.

L: What about "essential" government services?

Doug: I'm not sure there's any such thing. There's actually nothing government does that the market wouldn't do cheaper, better, and for a profit. But assuming that police, courts, and a military are essential, those constitute such a tiny fraction of most government budgets, even a government on a starvation diet should be able to afford them.

The real question to ask is: "Who owns the Greek government's debt?"

L: Who will get burned.

Doug: I don't really care. And neither should anyone else who actually wants to see the problem solved. Whoever they are, those people should be punished for having encouraged the government to act so irresponsibly.

L: [Laughs]

Doug: Other governments are not going to want to see this happen, of course. I'm pretty sure EU banks own most of that debt. The way things work in today's world, governments where those banks are domiciled are going to have to bail those banks out. The whole thing is vi ciously circular – they'll feel they have to bail them out one way or another. Of course, they shouldn't. Because it's the average guy who has to foot the bill for these huge, corrupt institutions.

That gets us back to something we've said a few times: the whole world's financial system is built on quicksand, and it's got to collapse. And it should collapse.

L: Financial apocalypse now.

Doug: For governments, yes, but not necessarily for the people who see it coming and take steps to protect themselves.

L: Or profit.

Doug: Yes. People think that all the wealth in the world will go away if some institutions that shuffle paper go bankrupt. It won't – it will just change hands. And that's a good thing; mismanagement of capital should be corrected. If that happened, the politically connected would be hurt the most.

L: Couldn't happen to a nicer bunch of people!

Doug: In a real free market, those who create the most, and provide the most desired services, become wealthy. But the system is now such that those who hold political power, directly or indirectly, become most wealthy. They're the ones who've created the corrupt system we have today, and they set it up to make sure they can profit from it through their political connections, so it stands to reason that they will suffer the greatest losses when the system breaks apart. I have no problem with that at all.»

Doug Casey em Conversations with Casey.

O entusiasmo dos moderados pelos paliativos

Tudo muito certo senhor Raposo. A retórica certamente que aponta «um novo caminho», uma «ruptura». Mas como «acabar com a promiscuidade entre o público e o privado»? Qualquer homúnculo do Bloco sublinharia a necessidade da medida (embora por razões diferentes). Como fazê-lo é a questão que importa. O que parece, porém, é que a promiscuidade irá continuar com Rangel ou com Passos; simplesmente se irá alterar os privados que entram nas orgias públicas.

Quanto às escolas: nenhuma mudança de fundo será feita enquanto a educação for considerada «um direito». E para que a escola deixe de ser apenas um lugar onde os pais deixam os filhos a pastar, as escolas públicas, o ministério da educação e o financiamento estatal da educação tem de acabar, pura e simplesmente. Respeitaria Rangel se ele declarasse que quer entregar as escolas públicas à Igreja Católica (mesmo que não concordasse com ele). Não o respeito quando regurgita sofismos sobre a ruptura, a exigência e a autonomia que, no essencial, deixarão tudo no lugar sem mudar nada de essencial.

Mas, sejamos sinceros, alguma vez o PSD quis outra coisa?

quarta-feira, março 03, 2010

Mais um atentado imbecil contra a sociedade adulta.

Ouvi de manhã na rádio que o Estado inventou uma nova maneira de «proteger» os cidadãos contra atropelamentos. Ao que parece, quem atravessar uma estrada a menos de cinquenta metros de uma passadeira estará sujeito a uma multa. Mas há mais: agentes à paisana, em carros «descaracterizados» (como lhes chamaram), vão andar a espiar os claros agresssores que insistem em não usar a passadeira.

A coisa roça o absurdo, e é obviamente mais um passo na escravidão parcial que o Estado nos impõe. Mas, para quem gosta de argumentos utilitários, pensemos no seguinte: com os problemas de criminalidade que a sociedade portuguesa começa a apresentar (graças a deus pelo estado-social), o Estado decide pôr polícias à paisana à beira das estradas portuguesas para ver se multa alguém que passe fora da passadeira.

A isto chama-se alocação arbitrária e irracional dos recursos, conseguindo ao mesmo tempo violar o direito de um cidadão usar as próprias pernas e desperdiçar a única força policial (a do Estado) à disposição dos cidadãos. Só mesmo uma instituição como o Estado para nos brindar com tamanha imbecilidade.

PS: e sim, eu sei que já existem casos semelhantes noutros países, o que não significa nada, a não ser que outros Estados precederam o nosso na estupidez.

segunda-feira, março 01, 2010

Boas notícias

«Confiança na democracia bate no fundo»

«Cidadãos lançam iniciativa contra acordo ortográfico no Facebook»

Música sem subsídios do Estado

# 31

«O Bloco Central (sob a presidência de Sócrates?) seria, como é óbvio, uma solução expedita para liquidar o regime. Como a crise não acaba com certeza tão cedo (2012? 2014? muito mais tarde?), um governo do Bloco depressa perderia a popularidade e, com ela, a "legitimidade de exercício" que uma coligação não pode dispensar. Ainda por cima, nada nos garante que o PS e o PSD fizessem juntos tudo aquilo que não conseguiram fazer sozinhos. Pelo contrário, o Bloco instalaria no principal centro de decisão os conflitos que normalmente se dispersam pela Assembleia, pela administração do Estado, pela própria sociedade (pelos media, por exemplo). O Bloco é a receita para a balbúrdia, a paralisia e o imparável crescimento da corrupção. É uma admirável receita para o desastre. 

Com uma agravante, se a experiência acabasse mal (como fatalmente acabaria), o que ficava? Nem o PS, nem o PSD, sendo ambos cúmplices do fracasso, ganhariam a maioria absoluta. A Assembleia continuava tão impotente e dividida como hoje. E o regime ficava com um único recurso, o Presidente, e com uma única aspiração, a autoridade.»

Vasco Pulido Valente, no Público.

sábado, fevereiro 27, 2010

# 30

«Being pro-war is to the mainstream Right what global warming is to the Left-an unassailable dogma that is integral to their respective political identities. Like global warming, believing in the righteousness and necessity of the “war on terror” is an act of political faith, and any heretic who holds challenging views is not to be tolerated

Parabéns

ao Insurgente.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Continuação

(1,2,3, 4).

Diz o Manuel que eu vivo «como todos os libertários, com um quase-esquizofrénico receio de coerção.» É possível, mas não interessa nada para a minha visão política, porque ela não é definida pelo receio, mas pela oposição ética à agressão. O meu anarquismo é apenas uma convicção normativa, e não diz nada sobre a «possibilidade» ou «praticabilidade» de uma sociedade sem Estado. É possível ser um anarquista pessimista, isto é: ser contra a agressão - e por consequência contra o Estado - sem no entanto acreditar que o anarquismo seja possível na prática. Mas a prática é «ao lado do ponto». E o ponto é a legitimidade da agressão: e só os anarquistas libertários rejeitam a legitimidade de todas as formas de agressão, inclusivé a do Estado, de qualquer Estado.

O pragmatismo utilitário, pelo contrário, afirma a necessidade (ou a inevitabilidade) de um Estado (e logo de agressão institucionalizada) de forma a evitar agressões piores entre indivíduos. O que isto quer dizer é que o minarquismo considera justificada uma forma limitada de agressão por razões pragmáticas. Convém no entanto ter em conta que, com base em argumentos utilitários, pode chegar-se a conclusões perversas. Uma posição política baseada em princípios não permite tais licenciosidades: roubo é roubo; agressão é agressão; e o Estado é ambas.

Por exemplo o Manuel acredita que «logo após o fim dos governos, as pessoas tratariam de arranjar outros.». Mas mais uma vez, é a mistura entre o princípio e a prática. A oposição à anarquia - à forma de governo totalmente voluntária - exige essa manobra de diversão: chamando à atenção a questão pragmática da praticabilidade da sociedade voluntária, pode-se escapar à conclusão indegesta de que se está a defender e a justificar uma forma de agressão. Não é nenhuma posição extrema ou estranha, já que de todo o espectro político só os anarquistas negam a legitimidade de qualquer forma de coerção (sobre não-agressores). Mas fazia bem ir lembrando este ponto, e era por isso que no texto que iniciou esta conversa eu pedia aos minarquistas para abraçarem a anarquia ou se renderem ao Estado total: porque, uma vez admitida a legitimidade de certas formas de agressão, não há nenhum limite racional ou ético que permita parar a meio do caminho. Não há meio termo: a agressão sobre não-agressores é ou não é justificada. Para os anarquistas, não é. Para todos os outros, é-o sob alguma condição.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

A ilusão monárquica

O Manuel Rezende queria que eu lhe respondesse a este post, que em contrapartida era uma resposta a um post meu, e eu faço-lhe o favor. A natureza e a legitimidade do Estado é um dos meus temas favoritos. Sou como um daqueles ateus que vive obcecado com a ideia de Deus – com a diferença que Deus, por definição, não interfere directamente na vida dos ateus. É uma história diferente quando se fala do Estado.

Nós divergimos num ponto essencial da questão e as nossas visões sobre a natureza do Estado – e a forma como ele se impõe à sociedade civil – são inconciliáveis. Para o Manuel Rezende, o Estado não se impõe: surge. Surge de uma necessidade hobbesiana de estabelecer a paz e a ordem, e longe de ser um agressor que subjuga a população aos seus serviços de protecção, determinando sem competição o preço desse serviço, o Estado é trazido pela mão invisível do mercado para satisfazer a necessidade de ordem e paz da população de um determinado território.

Diz o Manuel: «a humanidade, devido às consequências do Pecado Original ou - no caso dos ateus - devido a meras circunstâncias históricas e antropológicas, vê-se obrigada a criar o Estado para refrear os impulsos totalitários dos chefes tribais e das oclocracias.» Ou, posto por outras palavras, é uma escolha consciente da «humanidade» instaurar um Estado, dada a escassez de alternativas melhores. Ora, caro Manuel, a «humanidade» não existe; existem indivíduos, com ambições e objectivos. E se uns se «vêem» obrigados a criar o Estado, outros vêem-se obrigados a sofrê-lo. Nenhum Estado foi de facto criado com o consentimento dos cidadãos que pretendia governar (nem mesmo a federação americana). Na origem de um Estado está sempre o domínio de um grupo de indivíduos sobre outro grupo de indivíduos, não a escolha racional por uma forma de organização política em contraste com as outras.

Eu acredito no direito natural à propriedade, e o Estado é simplesmente um violador persistente e sistemático desse direito (seja no nosso corpo, nos recursos que apropriamos originalmente ou que adquirimos através de arranjos contratuais): o Estado, por outras palavras, existe para defender o direito natural à propriedade, mas só pode existir violando permanentemente esse direito. O terrível paradoxo é irresolúvel.

Tanto me faz que o governo seja eleito por sufrágio universal ou que seja liderado pelo déspota iluminado que o Manuel idealiza: a natureza da instituição é a extorsão e a expropriação, a escravatura e a opressão. Não sou anarquista por razões utilitárias, sou anarquista por princípio: eu acredito na associação voluntária, em self- ownership e self-government . E o Estado é por natureza coerção, roubo e subjugação involuntária. Promover uma elite aristocrática para guiar os destinos do reino é para mim tão imoral como ser governado pelo voto da maioria – embora seja ainda mais indefensável do que a mob rule democrática. A autoridade não consentida é, para mim, simples agressão, venha ela do Estado ou da Máfia ou de qualquer indivíduo. Geralmente, porém, vem do Estado.

Acho que a imagem que o Manuel adoptou do monarca que respeita as liberdades individuais e que tenta tudo ao seu alcance pelo «bem comum» - essa criatura mítica e mística – é sobretudo ingénua e anti-histórica. O «bem comum» não existe e a abstenção voluntária do uso do poder monopolístico pelo monarca é simplesmente impensável, já para não falar de sem precedentes.

A única vantagem da monarquia sobre a democracia e a república, é que os governados são naturalmente mais cépticos e hostis em relação a um governo em que não existe liberdade de entrada – como existe numa democracia republicana – e logo, em que a autoridade é mais obviamente injusta, invasiva e violenta. É o melhor que tenho a dizer sobre o esquema monárquico que propõe.

PS: Quanto à questão prática, lembro apenas que em 1700 a democracia parecia tão ou mais impraticável do que a anarquia hoje.

# 29

«L: It was always darkly humorous to me that in the Reagan years, the same people the lawfully constituted government of Nicaragua called rebel guerillas, the U.S. called freedom fighters – and yet the U.S. helped Saddam Hussein put down rebellion when he was an ally. Not that I cared for the socialist government of Nicaragua. The point is that if “we” like them, their opponents are terrorists, and if “we” don’t like them, their opponents are freedom fighters. It’s so hypocritical.

Doug: It’s perverse enough to be black comedy. I think this needs to be looked at from a personal point of view. Here was a man who was apparently just going about his business. He quite justifiably resented the government taking forty-plus percent of everything he produced. And worse than that, they were making it hard for him even to produce. They made his life miserable. He spent much of his time and money trying to fight within the system and got nowhere. Perhaps that was foolish of him, perhaps he should have just rolled over on his back and wet himself… just done what he was told and paid what he was told to. It’s the New American Way.

On a moral plane, I think it’s important to remember that groups of people can have no rights that the individuals who compose the group don’t have. In other words, if an individual does not have a right to do something himself, then neither can he delegate that right to a politician, policeman, nor some other authority. If it’s not his to give, he can’t give it.

If I don’t have the right to take money by force from my neighbor, I don’t gain that right by teaming up with others. A bunch of people voting for it doesn’t make it any more right. Suppose, for instance, a neighborhood voted to hire a motorcycle gang to defend it and “authorized” that gang to levy taxes by force, including on residents who didn’t want to go along with the plan. Most people would say that’s wrong. But somehow, if the government does exactly the same thing, people see it as okay

Doug Casey, em conversa sobre o homem que pilotou um avião contra o edifício do Internal Revenue Service.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

O que significa laissez-faire para um intelectual de esquerda?


Eu sei que é muito fashionable e progressista ser pragmático e cínico, sobretudo sendo um intelectual e tratando-se de política. Mas só mesmo separando a ética da política é que se pode vir a apoiar Sócrates (ou Rangel, ou Passos) e a resignar-se ao lodo corporativista da nossa praça. Esta é, porém, a essência das nossas elites pensantes: reverência pelo poder primeiro, princípios depois.

Mas Eduardo Pita não se fica pelo utilitarismo niilista, avança rapidamente para a comédia. Repare-se:


Laissez-faire? Duvido que o poeta desconheça o conceito, também duvido que se tenha enganado. Mas sejamos justos: defender o status quo exige estes contorcionismos.

# 28

«Se repararem bem, Rangel, Passos Coelho e Aguiar-Branco dizem que querem acabar com as golden share. É uma forma fácil e barata de se mostrarem desprendidos em relação ao controlo das empresas semi-privadas. Mas, claro, o Estado não precisa de golden share para controlar empresas semi-privadas. Pode controlá-las através das participações directas do Estado, das participações indirectas via Caixa Geral de Depósitos, EDP, GALP e REN, dos reguladores, de subsídios, de concursos e da legislação. Quando um candidato a líder do PSD diz que quer acabar com as golden share eu apenas concluo que ele é esperto. Não concluo que ele quer acabar com a interferência do estado nas empresas

João Miranda, no Blasfémias.