sábado, julho 17, 2010

Anarquia vs. Minarquia (I)

Não é provavelmente um bom sinal para os minarquistas que o termo minarquismo tenha sido cunhado por um dos seus inimigos – o anarco-capitalista discípulo de Rothbard, Samuel Konkin III. Pior sinal ainda, é que ninguém sabe muito bem quais as funções de um Estado minarquista, já que a limitação do Estado que os minarquistas pretendem e a escolha entre os serviços que devem ser monopolizados por ele é absolutamente arbitrária. Assim, para alguns o Estado limitar-se a fornecer polícia, exército e tribunais; para outros também ruas, estradas ou um sistema monetário. Onde está a linha que divide as legítimas funções de um Estado e as ilegítimas funções do mesmo? 

A teoria contratual é de que os cidadãos decidem formar um Estado e organizá-lo sob moldes minarquistas, dispondo da sua propriedade e voluntariamente concedendo legitimidade ao Estado para actuar dentro dos limites propostos. Apesar da impossibilidade de um monopolista territorial de lei e de ordem surgir contratualmente (algo que será exposto de forma mais sistemática num texto futuro), se assumirmos que é possível, teremos igualmente de assumir que é possível que um Estado comunista, fascista ou social-democrata possa surgir da mesma forma. Consequentemente, a razão para propor um Estado minarquista é, mais uma vez, totalmente arbitrária, fundada em princípio nenhum.

A resposta preferida dos minarquistas utilitários, porém, é a de que o Estado deve monopolizar os serviços necessários ao funcionamento do mercado, para que este possa fornecer todos os outros. Esta é, porém, uma resposta circular. Não será a alimentação e o vestuário mais necessários ao funcionamento da sociedade (e logo do mercado) do que a polícia e os tribunais? E se um monopólio da produção de alimentos ou vestuário é, do ponto de vista dos consumidores, menos eficiente do que um regime de competição aberta, porque será um monopólio da produção de lei e de ordem mais eficiente do ponto de vista dos consumidores? 

Tal como qualquer monopólio, o Estado é sempre mais ineficiente do que seria um mercado competitivo nos mesmos sectores presentemente monopolizados. Mais importante: por ser um monopólio, o Estado é necessariamente uma instituição colectivista. Os serviços que oferece estão completamente desligados do seu financiamento, e os meios de produção desses serviços são naturalmente nacionalizados – dado que não existe um mercado nos meios de produção dos serviços monopolizados, não é possível a formação de preços que reflictam as decisões voluntárias de consumidores e investidores e logo o Estado, como qualquer instituição socialista, é incapaz de cálculo económico – como Mises explicou, mas não aplicou consistentemente. E logo, o Estado está inevitavelmente destinado ao desperdício, pois não existe nenhuma forma não-arbitrária de decidir ou saber se existe sobre ou subprodução de segurança ou justiça. Não existe, por outras palavras, nenhum equilíbrio entre procura e oferta; e sendo os preços dos serviços determinados unilateralmente pelo monopolista, a consequência natural será a de pagar mais por menos e de menor qualidade do que seria fornecido por um regime competitivo. 

Ao contrário de todos os outros monopólios, porém, o Estado é inescapável. Por actuar dentro de limites geográficos, qualquer indivíduo, habitante ou visitante, dentro desses limites tem de interagir, mesmo contra a sua vontade, com esta instituição. Um indivíduo pode escapar a qualquer outro monopólio (por exemplo, da produção de cerveja), simplesmente abdicando do consumo do produto monopolizado. O mesmo indivíduo é incapaz, porém, de evitar o consumo dos serviços fornecidos pelo Estado no território da sua jurisdição. A sua existência acima do nível da subsistência e integração na sociedade torna indispensável que o indivíduo interaja com o Estado e consuma os seus serviços. Se o Estado declara que o seu financiamento é compulsório como parte da lei aplicável, o indivíduo não pode simplesmente ignorar esta lei da mesma forma que ignoraria os preços da cerveja fornecida pelo respectivo monopolista; se o Estado declara que é o árbitro final em todos os conflitos num determinado território (incluindo aqueles em que está envolvido), o indivíduo está incapacitado de se opor a tal decreto, já que entraria assim em conflito com o Estado e teria inevitavelmente de lidar com ele para a sua resolução. A esse indivíduo restam apenas duas soluções injustas: resignar-se à autoridade não-consentida do Estado, ou abandonar a sua propriedade e comunidade.

Numa sociedade anarco-capitalista, e ao contrário do que o nome indica, formas voluntárias de socialismo, ou de qualquer outra forma voluntária de autoritarismo, são possíveis e legítimas. Partindo do princípio base de que todos os seres humanos são donos do seu próprio corpo e da propriedade que adquirem por apropriação original ou via contratual, todos os indivíduos têm o direito de viver sob o sistema político que desejarem. No território dominado pelo Estado minarquista, tal escolha é completa e absolutamente vedada. Um Estado minarquista impõe, tal como qualquer Estado, um sistema político e uma lei a todos os indivíduos residentes num determinado território; e perseguirá inevitavelmente qualquer indivíduo que se recuse a viver sob esse sistema político e sob essa lei, ou que se recuse a financiar o sistema político e a lei sob a qual não pretende viver.

O minarquismo é, por isso, teoricamente vazio e fantasioso na prática. Não só não existe qualquer razão não-arbitrária para as limitações impostas no Estado ou para a existência do mesmo, como é inimaginável que um Estado minarquista (que teria de ser necessariamente uma república democrática) permaneça limitado às funções que os seus teóricos lhes atribuíram. Sendo o preço dos seus serviços determinado unilateralmente por si (já que o poder, sob o minarquismo, é público e logo exclui formas «feudais» de contrato e de impostos representativos), o incentivo é para o preço dos seus serviços aumentar e para a qualidade dos mesmos diminuir; sendo o árbitro final nas disputas em que o próprio está envolvido, a tendência será para sempre decidir a seu favor – dada a impossibilidade de uma decisão imparcial. O Estado minarquista sofre de todas as deficiências, ineficiências e perversões de qualquer forma de organização social estatista. E, como se sabe, a tendência é para que o seu poder aumente – não, obviamente, que fique estacionário ou diminua.

sexta-feira, julho 16, 2010

Dois versos sobre a tolerância da direita tradicional para com outras tradições

A estupidez não tem limite

PS: brilhante comentário de Guilherme Cunha no mesmo post:

«Cada vez que passo na rua e vejo uma janela com cortinas, estremeço de medo, não esteja um árabe assassino por trás dela.

Deixei de ir ao teatro, porque entro em pânico enquanto a cortina está fechada. Há muçulmanos no palco dos teatros (sabiam?), por detrás das cortinas, só com o intuito de matar judeus. Eu não sou judeu, mas posso apanhar por tabela. Essa é que é essa.

Eu um dia até pensei ir ver um show de dança do ventre mas, quando me disseram que a senhora tinha a cara tapada, vi logo que só podia ser uma bombista suicida e que o cinto dela era explosivo de plástico com acabamentos de dourado. A mim não me apanham, malandros!

Eu nem deixei que me tirassem o apêndice porque os malditos médicos, decerto muçulmanos raivosos, estão com a cara tapada na sala de operações e podem matar-me. Mesmo não sendo eu judeu nem norte americano (não tanto a norte, porque os canadianos não sofrem do mesmo mal), o risco é sempre elevado.

E outro dia dei uma tareia numa senhora que ia na rua com uma máscara a tapar a boca. Depois disseram-me que ela tinha um cancro e que se notava logo pela debilidade e, sobretudo, pela falta de cabelo. Mas não importa. Essa senhora era um risco para a minha segurança. Muçulmana, por certo (...)»

terça-feira, julho 13, 2010

A incoerência que se insurge.

Acho muita piada aos double-standards dos liberais moderados, por isso decidi reescrever este post do Miguel, sobre outro tema - sem alterar a estrutura (não muito coesa) do original:

O que me provoca maior estranheza é o Pedro Mexia Miguel só nos concender [sic] duas opções no campo do financimento [sic] da cultura defesa (interna e externa). Ou o fazemos de forma voluntária ou então devemos ser obrigados a disponibilizar os recursos necessários. Pela forma como coloca a questão sou levado a concluir que será esta a única forma de evitar uma devastadora hecatombe cultural civlizacional [sic] e o regresso ao Paleolítico. Não vislumbro outra razão que o leve a concluir pela existência de um direito divino aos subsídios ao monopólio estatal de violência. 

PS: Já agora, qual é a novidade sobre Mexia? Não sabiam que se tinha vendido à tutela estatal?

segunda-feira, julho 12, 2010

O liberalismo de uns e de outros (IX)


Posso estar enganado, mas o texto parece-me ser um ataque directo aos anarco-capitalistas, os supostos utópicos do vasto movimento liberal. Mas gostava que o Bruno, ou o Rui - a partir de agora o meu censor preferido -, me citassem alguma passagem de algum autor anarco-capitalista (ou mesmo anarquista individualista), que defenda ou acredite no que eles parecem acreditar que nós defendemos ou acreditamos. De Molinari e Spooner até Rothbard ou Hoppe, nenhum teve a pretensão ridícula de propôr tamanha estupidez. Obviamente que ou não se deram ao trabalho de ler, ou são simplesmente idiotas úteis e desonestos.

É triste, porque parecem ser simplesmente incapazes de entender que nós não dizemos que o ser humano irá ser sempre ordenado e eficiente sem a interferência de terceiros. O que nós dizemos, munidos de uma teoria ética, é que seja qual for o resultado da coerção ela é injusta, e não se devia recorrer a ela. - claro que, não tendo princípios, é difícil entender este ponto 

E dizemos também, munidos de teoria política e económica, que só na ausência de coerção existe verdadeira preferência demonstrada e logo eficiência económica discernível. No fundo, é o mesmo que os liberais clássicos moderados diziam, mas de forma coerente e sistemática. Infelizmente, até esses foram esquecidos pela defesa inconsequente do status quo. Uma defesa que, necessariamente, desdenha e detesta a ideologia, os princípios ou a teoria, porque não passa de prostituição intelectual a pousar como realismo.

O liberalismo de uns e de outros (VIII)

Será que «sair da UE» é o mesmo que «fechar o país ao exterior»? Henrique Raposo parece pensar que sim. Como para ele o liberalismo vem depois, muito depois, do status quo político, é obvio que Raposo não acredita que se possa, simultaneamente, não estar na UE e não ser proteccionista. Mas vamos perguntar ao Henrique Raposo como é possível que a Suiça ou Hong Kong não façam parte de uma entidade supra-nacional e sejam, apesar disso, países economicamente livres.

O que Raposo realmente nos quer dizer é que o proteccionismo, o inflacionismo e o intervencionismo em grande escala da UE é muito melhor que qualquer limitado proteccionismo, inflacionismo e intervencionismo nacional. E todos sabemos que a centralização política e monetária é o caminho para a liberdade.


O coma dogmático dos liberais-militaristas

Nota: Alguma virgem ofendida n’O Insurgente apagou o meu último comentário neste post – como possivelmente farão com os meus futuros comentários, e também do Pedro Bandeira. O Rui Carmo queixou-se que eu teria recorrido ao insulto, que ele redundantemente nos diz ser «quase grátis» e «custar pouco». Alguém decidiu, então, censurar a minha resposta que não continha qualquer insulto – seja como for, o leitor interessado poderá julgar por si mesmo se houve algum insulto anterior ao suposto insulto censurado. Visto que este texto é sobre neoliberais democratas e militaristas (de que O Insurgente está infestado, fazendo o próprio Rui parte da praga), decidi incluir esta nota prévia e expor o ridículo puritano a que chegou o pseudo-liberalismo, quando o assunto é o Estado de Israel ou o imperialismo do Estado americano. Esta deriva fascistóide, e de resto completamente absurda e hilariante, serve para ilustrar a honestidade intelectual e a disponibilidade para debater dos elementos de um blog «liberal».

É desconcertante a incoerência em que incorrem os auto-proclamados liberais que defendem o imperialismo do Estado americano e as incontáveis vilanias do Estado Israelita, sob a pretensão de que defendem a «liberdade ocidental» e de que prestam um grande serviço ao liberalismo. Não que o proclamem abertamente. Em teoria, cada caso é um caso, e é possível que certo dia os neoconservadores a pousar como liberais venham atacar Israel ou o imperialismo americano. Infelizmente, em todas as ocasiões, o liberalismo deles avalia a violência conforme a cor da pele ou a etnia que a perpetra – ou o Estado que a patrocina. Mas que razão pode existir para desaprovar, em teoria, a intervenção de um Estado em assuntos internos, e aprovar, na prática, a intervenção do Estado em assuntos externos? Ou é caso clínico, ou é desonestidade pura. Por razões de boa vontade, porém, vamos assumir que tudo não passa de um erro de julgamento, uma falha na corrente lógica, uma incoerência não adereçada ou um afastamento permanente de bons hábitos de raciocínio.

A crença selvática na democracia parlamentar a que os liberais se venderam, toldou-lhes certamente as vistas e não lhes permite evitar a queda nos abismos insondáveis da parvoíce e da inconsistência. Desde as justificações mais primárias para as guerras americanas até à defesa inconsequente de Israel, a democracia serve de base e suporte para toda a idiotia e vilania possível. 

É óbvio que nessa reverência dogmática pela democracia, nada sobra do liberalismo clássico – de que, supostamente, o neo-liberalismo-militarista se diz herdeiro. O conceito de propriedade foi, por exemplo e para todos os efeitos, esquecido – facto que a defesa inconsequente e impensada do Estado Israelita mostra claramente. 

Tendo nascido da expulsão e expropriação das populações palestinas (incluindo alguns previamente instalados judeus e cristãos), o Estado de Israel é, ainda mais explicitamente do que qualquer outro Estado, a negação viva do conceito de propriedade privada. Na sua defesa da expropriação israelita, os liberais-militaristas-democratas são quase mutualistas – ao basearem-na no sistema político do Estado de Israel como «bom uso», e o sistema prévio como «mau uso», e logo, território ocupável. O argumento de que Israel é uma democracia suplanta por completo nas suas mentes a expropriação necessária para o estabelecimento dessa democracia. Isto significa que, para estes pretensos liberais, a democracia é anterior e mais importante que o conceito de propriedade privada. Como tentei mostrar aqui, porém, o princípio de «one man, one vote» é, se consistentemente aplicado, incompatível com o princípio de propriedade privada.

Para os sofistas que, em resposta, arriscam a falácia da «propriedade histórica judaica», podemos apenas concluir que são filosoficamente colectivistas; e logo, não passam de socialistas equivocados ou com sentimentos de culpa. Para qualquer liberal consistente e honesto, não existe propriedade étnica; só indivíduos podem ser proprietários, nunca povos, etnias ou raças. Se vários judeus foram efectivamente roubados e expropriados num passado remoto por muçulmanos, e caso fosse possível provar que propriedade foi efectivamente roubada e a quem, seria legítimo e imperativo retornar a propriedade para as mãos dos herdeiros das vítimas – a quem, na ausência de interferência, a propriedade teria sido provavelmente deixada em testamento. Porém, isto não é justificação para a formação de um Estado que toma para si a tarefa de, na prática, expropriar unilateralmente um povo e oferecer, em teoria, a propriedade roubada a outro povo. O conceito de propriedade, e logo de roubo, só pode ser individual, nunca colectivo. E logo, o retorno de propriedade roubada é igualmente uma questão entre o ladrão individual (ou os seus herdeiros) e a vítima individual (ou os seus herdeiros). Se os sofistas quiserem prender-se à ideia de «propriedade histórica étnica» e à sua reivindicação pela força de um Estado, terão necessariamente de ser a favor do estabelecimento de um Estado magrebino em território português e da expropriação dos proprietários presentes em benefício dos povos do norte de África. 

Isto seria o que eles diriam se fossem consistentes na sua defesa do princípio. A verdade, porém, é que não são. Podemos por isso apenas especular que aberrações psicológicas ou preconceitos irremovíveis justificam a defesa de um princípio que, claramente, não pretendem aplicar senão a um caso.

Se esta gente dedicasse algum tempo a pensar e a debater honestamente conceitos e princípios, poderia eventualmente ser atingida por um raio de lucidez ou escrúpulos morais, mas, infelizmente, estamos na presença de criaturas pretensamente realistas, pragmáticas e, provavelmente, completamente ausentes de princípios morais no que à política diz respeito. Eles procuram o «politicamente possível», e reconhecem que o «desejável» nem sempre é possível. O que parece porém é que a definição de «possível», no que à política externa diz respeito, é simplesmente o que para eles é «desejável». Porque desejam eles a guerra permanente, o proteccionismo e o neo-mercantilismo, é algo que a lógica sozinha não pode responder. Para isso teríamos, apropriadamente, de lhes oferecer o divã e sugerir a hipnose.

quinta-feira, julho 08, 2010

Democracia e Liberalismo: conceitos incompatíveis (II)

É uma verdade estabelecida da economia política que, da perspectiva dos consumidores, a competição e a entrada livre em qualquer ramo de produção é preferível à entrada restrita e ao monopólio. Daí que um dos argumentos avançados pelos liberais-democratas como prova de que a democracia é o equivalente político do liberalismo económico seja o de que o princípio democrático realiza politicamente a competição e entrada livre, em contraste com a entrada restrita e o monopólio monárquico. Em democracia, qualquer cidadão pode, em teoria, «entrar» na política e ser chefe de Estado – ou seja, pode competir politicamente; em monarquia, essa posição está vedada apenas ao Rei e à sua família – sendo o Rei o monopolista da governação. O que os liberais-democratas parecem esquecer, é que o Estado é em si um monopólio – e um monopólio com particularidades especiais, já que além de ser a única agência legalmente permitida de fornecer serviços de protecção e arbitragem (e logo, pode fabricar a lei aplicável no território que este controla), é também de financiamento compulsório. 

Dada a complexidade e bizarria desta instituição monopolística, analisemos um outro monopólio noutra linha de produção – por exemplo, um monopólio da produção de cerveja – para expor a falácia deste argumento. Imaginemos que num determinado território, só existe um produtor de cerveja, e só a sua cerveja pode ser vendida legalmente nesse território. Assumindo, para facilitar, que esse monopólio é propriedade de uma só pessoa, podemos dizer – à luz do sofismo liberal-democrático – que esta empresa monopolística é organizada segundo o princípio monárquico. Não só não existe entrada livre para a liderança da empresa, como o dono – o monarca – irá deixar a empresa e a sua administração ao cuidado dos seus descendentes – os seus sucessores dinásticos. 

Dada esta descrição do monopólio de cerveja, nenhum liberal diria que o problema é a sucessão dinástica da empresa em questão – ou seja: a propriedade privada no meio de produção de cerveja. Pelo contrário, diriam, e bem, que o problema está, não na entrada restrita à liderança do monopólio, mas na entrada restrita ao sector monopolizado. 

O caso, porém, muda de figura assim que, em vez de um monopólio de cerveja, falamos de um monopólio de lei e de ordem (o Estado). Perante este monopólio, o problema para os liberais-democráticos deixa de ser a monopolização do sector, mas a propriedade privada do monopólio. Ao querer introduzir competição dentro do monopólio de lei e de ordem, mas não a competição nos sectores monopolizados, os liberais-democráticos chegam facilmente ao paradoxo óbvio de que a democracia e o liberalismo são conceitos incompatíveis.

Se os sofistas encaram a monarquia como a entrada restrita à governação, qualquer proprietário pode ser entendido como o monopolista da sua propriedade – já que a entrada à liderança e administração da sua propriedade é restrita e hereditária. E se, segundo o princípio democrático, o importante é a entrada livre a uma instituição (por exemplo, o Estado) em vez de, como postula o liberalismo, ser a entrada livre num ramo de actividade (por exemplo, a produção de segurança e arbitragem judicial), então, se aplicado consistentemente, o princípio democrático significa a socialização dos meios de produção – ou seja: a inserção de competição e entrada livre na liderança e administração de qualquer empresa.

Eis porque o liberalismo e a democracia são conceitos mutuamente exclusivos.

segunda-feira, julho 05, 2010

Boas e más razões para rejeitar dinheiro e honras do Estado

Neste excerto citado pelo PPM, o artista Paulo Nozolino aparece-nos como um heroi quase randiano, rejeitando abruptamente as honras e o dinheiro do Estado. Ora vejam:

«Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.»

Este excerto, que é o último parágrafo do comunicado do «artista», faz-nos pensar que estamos perante um homem íntegro e com algum sentido de independência - embora, sendo artista, provavelmente muito de esquerda. As coisas, porém, não são assim tão simples. Ao contrário do que o excerto faz pensar, Nozolino não se distingue do mais banal esquerdista-tipo-chique-freak, sem qualquer noção do que é integridade ou do que significa independência. Ao ler o comunicado inteiro, entendemos que a sua desavença com o Estado português e com o Ministério da Cultura não tem que ver com integridade, independência ou inteligência. Tem a ver com o dinheiro dos contribuintes que o artista quer meter ao bolso, e com o dinheiro dos contribuintes que o Estado lhe permite pôr ao bolso.

Ora vejamos: o «comportamento obsceno» e a «má fé» do Estado, representado pelo Ministério, para com o artista deve-se somente ao facto de «todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas». Sucintamente: «Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!». No final, o artista Nozolino queixa-se com poética exclamação: «Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.»

Como já notei por exemplo aqui, qualquer indivíduo que receba dinheiro do Estado não pode pagar impostos sobre o valor que recebeu do Estado . Os dez por cento que devolve não são impostos pagos, são impostos que o indivíduo não chegou a receber derivado de uma fantasia contabilística. É certo que isso em nada altera o facto de que Nozolino receberá menos do que esperava, nove mil euros, em vez dos prometidos dez. Mas não altera igualmente o facto de que esses dez mil euros foram coercivamente retirados ao sector privado, e que o sector privado não chegou a gastar - por exemplo, premiando Paulo Nozolino. 

Os artistas, como se sabe, são loucos. Mas loucura mesmo é alguma direita elevar o artista ao olimpo da integridade - supostamente porque Nozolino rejeitou o Estado, as suas honras e o seu dinheiro, e logo, merece um lugar em qualquer coração liberal. É triste que pensem tão enviesada e infantilmente. Nozolino rejeitou este Estado, estas honras e este dinheiro; não rejeitou o Estado, as honras ou o dinheiro - explicitamente, Nozolino confessa que, noutras circunstâncias, com outras cerimónias e outros procedimentos, aceitaria o Estado, as honras do Estado e o dinheiro coercivamente retirado aos contribuintes que o Estado lhe poria nas mãos.

A provável razão da confusão, é que as pessoas de direita que aplaudiram este senhor, também não rejeitam o Estado em si ou a forma de Estado moderna; rejeitam apenas este Estado, com este governo. Se as honras viessem de Cavaco Silva, ou de um seu lacaio cultural, Nozolino seria um pária; no mínimo um idiota. Rejeitando as honras de um servente socrático, o artista é o herói.

quinta-feira, julho 01, 2010

Música sem subsídios do Estado

E entretanto, no Insurgente...

... aprende-se que a NATO «não é de se deitar fora» porque «não tem grandes efeitos secundários contraproducentes». A superstição democrática no seu auge de megalomania imperial.

E isto, reparem, num blog liberal.

Socialismo de direita: a surpresa.

Ver um ilustre do CDS declarar-se a favor do uso da golden share, como um vulgar nacional-socialista, foi uma surpresa... para qualquer cego, surdo e mudo nascido anteontem. Para uma pessoa na posse das suas faculdades mentais, foi o costume com a boçalidade habitual.

Reparem, já agora, no primeiro comentário ao post, em que nos é revelado que «volta e meia o CDS-PP e o PSD viram a casaca e surgem com discurso socialista.». Permitam-me perguntar: quando é que o CDS e o PSD não têm um discurso socialista?

E já que estamos neste assunto, gostava só de lembrar aos esquecidos o que as siglas dos nossos partidos de direita significam. 

PSD - Partido Social Democrata; CDS-PP - Centro Democrático Social e Partido Popular. Sinceramente, do que é que estavam à espera?

Quando o vandalismo é uma boa acção.

Sentado num banco de jardim a fumar um cigarro, reparo num cartaz do Bloco de Esquerda colado num caixote do lixo. Pode ler-se no cartaz o seguinte slogan: «as nossas vidas valem mais que os lucros deles». Por baixo, está a assinatura: «anti-capitalistas!» e o endereço www.esquerda.net. 

Quando nos é oferecida a oportunidade de fazer uma boa acção devemos aproveitá-la. E eu, bom menino que sempre fui, aproveitei. Arranquei o cartaz da parte de fora do caixote e coloquei-o na parte de dentro, onde ele pertencia. Pôr o lixo no lixo, foi o que sempre me ensinaram.

PS: Podem ver aqui os cartazes da série «anti-capitalistas!». Nem todos eles são maus, como por exemplo o que apela à saída da NATO e ao fim da nossa presença no Afeganistão, ou o que prega a favor da «pirataria cibernética». Infelizmente, as pequenas mentes do Bloco de Esquerda confundem a NATO e a propriedade intelectual com capitalismo, quando na verdade são apenas criaturas do Estado, a religião do Bloco de Esquerda. O pior cartaz de todos será talvez o que perverte e distorce uma óptima frase: «Não roubes, o Estado detesta concorrência» (na versão do Bloco, o Estado é substituído pelos Bancos - o que, dada a existência de reserva fraccional, também não anda muito longe da verdade).

quarta-feira, junho 30, 2010

A PT, a Direita e o Estado.

Apesar dos gritos de virgens ofendidas (e, não se sabe bem porquê, surpresas) da direita, a intervenção do governo na PT é trivial e a golden share não tem qualquer utilidade ou poder especial e especialmente perigoso. No essencial, o Estado perpetra inúmeros crimes mais graves, tanto moralmente como utilitariamente, que este (ou outro) uso da espúria golden share. Se o Estado mantivesse a golden share na PT e, por exemplo, abolisse todas as regulações do mercado das telecomunicações o resultado seria melhor do que simplesmente acabar com a golden share e manter o status quo regulatório. 

A golden share é por certo uma aberração, uma estupidez e uma forma ridícula de proteccionismo moderno; é obviamente a manifestação de uma pulsão nacional-socialista provinciana; a golden share não é, porém, o bicho de sete cabeças que as virgens ofendidas parecem acreditar. Não é, principalmente, o prolema principal da PT. 

O problema da PT é ter como terceiro maior accionista a Caixa Geral de Depósitos. Na verdade, a Caixa Geral de Depósitos é um problema em si mesmo, e um enorme; não apenas o problema da PT. Desde a sua enojante participação em praticamente todas as empresas do regime até aos bizarros empréstimos que faz aos alunos das universidades públicas, a Caixa está em todo o lado, como o verdadeiro braço armado do Estado que é.

Privatizar totalmente a CGD é muito mais urgente do que acabar com a golden share, se objectivo é deixar o mercado funcionar e abandonar o corporativismo bacoco, em nome da moral e da prosperidade. Só não sei bem se será esse o objectivo da direita.

Tenho sempre a tentação de pensar no que a direita diria caso tivesse sido um governo PSD (melhor ainda: PSD-CDS-PPM) a fazer exactamente o mesmo (intervir na PT), da mesma forma (usar a golden share), com as mesmas justificações (o interesse nacional, sempre o interesse nacional). E o problema é que não consigo deixar de pensar, e de lembrar, nos inúmeros e mirabolantes malabarismos retóricos que a direita (como a esquerda) usou e usaria para justificar o seu poder.

# 57



Um clássico do humor corrosivo. «My first rule... I don't believe anything the government tells me».

domingo, junho 27, 2010

Personagens que os liberais deviam esquecer (II)

Milton Friedman.

Grande parte dos meus colegas liberais estarão a perguntar-se: porquê atacar Milton Friedman? Afinal, não foi o pobre Milton um defensor da liberdade económica em particular e da liberdade em geral? Não foi ele uma força positiva na batalha intelectual, um propagador prolífico de ideias libertárias e um elouquente opositor do socialismo? Que há, então, para não gostar em Milton Friedman, apesar das falhas e dos erros? Afinal, ninguém é perfeito.

Isto, para os que reconhecem as falhas e os erros. Para a maioria dos liberais, porém, Milton Friedman é o símbolo impecável da ortodoxia, o santo infalível e inigualável, incapaz de falhas ou erros (uma espécie de Cavaco Silva, portanto). Para eles, Friedman é de facto perfeito. Pelo menos, pode inferir-se que sim dada a adulação irreverente e inconsequente de uma personagem, no mínimo, duvidosa, no que à causa da liberdade e da justiça diz respeito.

O problema de Friedman começa, infelizmente, na ausência de qualquer fundação ética para a sua defesa de «menos Estado» em vez de «mais Estado». Na origem da sua posição liberalizante está, portanto e apenas, o aumento do PIB – ou mais propriamente: o melhor para o maior número. Se a escravatura de uma minoria aumentasse a riqueza da maioria, Friedman seria a favor da escravatura. 

Repare-se, por exemplo, nestas palavras de Friedman: «I regard the basic human value that underlies my own [libertarian] beliefs as tolerance, based on humility. I have no right to coerce someone else, because I cannot be sure that I am right and he is wrong.». Ou seja: se houvesse alguma forma de saber com certeza que algum comportamento (mesmo pacífico) é errado, dever-se-ia usar coerção contra esse comportamento (mesmo pacífico). Se este é o «princípio básico» de um liberal, temos de arranjar um novo nome para a nossa ideologia política.

Na questão do sistema monetário, Friedman volta a mostrar a sua total ausência de princípios de justiça. Nomeadamente, a razão porque Friedman aceita delegar ao Estado o controlo sobre o sistema monetário é porque, e outra vez nas suas palavras, «The fundamental defect of a commodity standard (read gold standard) from the point of view of the society as a whole, is that it requires the use of real resources to add to the stock of money. People must work hard to dig gold out of the ground in South Africa -- in order to rebury it in Fort Knox or some similar place.» (Capitalism and Freedom, 1962, p. 40). O que Milton nos quer dizer, no essencial, é que visto que a liberdade (a não-intervenção do Estado no sistema monetário) requer o uso de recursos reais (como ouro ou prata), devíamos recorrer à coerção e à fraude (dinheiro-papel e reserva fraccional). E reparem, de passagem, na expressão «society as a whole» - uma expressão que só um colectivista usaria conscientemente.

Outro ponto importante na decadência vinda de Chicago em geral e de Friedman em particular, e que a maioria dos liberais consideram como um ponto positivo, é o sistema de vouchers. Segundo este sistema, deixariam de existir escolas públicas, mas o Estado continuaria a financiar a educação de todas as crianças através de cheques que poderiam ser descontados nas escolas privadas da escolha dos pais. O objectivo seria o de introduzir o elemento da competição na educação pública. Existem dois problemas fundamentais neste programa, que o tornam quase sinistro. O primeiro é que, sendo financiada pelo Estado, a educação oferecida pelas escolas privadas deixaria de estar nas mãos dos proprietários da escola, mas sim da burocracia educativa – ou alguém acredita que o Estado iria financiar o ensino de, por exemplo, criacionismo? O segundo problema é que os proprietários deixam, necessariamente, de poder rejeitar alunos, caso contrário irão à falência – já que o incentivo de outras escolas aceitarem alunos problemáticos, e o dinheiro do Estado ligado a eles, faria com que as escolas que quisessem manter o nível elevado de ensino fossem à falência, enquanto que as que degenerassem numa outra forma de escola pública, não-discriminatória e naturalmente inferior, prosperariam. Com estes incentivos, em pouco tempo, todas as escolas privadas seriam braços armados do Estado, regurgitando a mesma propaganda e incapazes de educar os seus alunos como o são presentemente as escolas públicas.

Existe ainda, para ilustrar o carácter sombrio da criatura, a colaboração informal com o general Pinochet – que grande parte dos liberais consideram aceitável, ou pelo menos desculpável. Qualquer verdadeiro defensor da liberdade, porém, seria incapaz de colaborar com tiranos de qualquer género (imaginem Murray Rothbard a fazer o mesmo: é impensável).

Mas o pior de Friedman foi, sem dúvida, o whithholding tax (o que aqui se conhece como «retenção na fonte»). A razão para desenvolver tamanha monstruosidade é a sua inabalável crença na maravilha de um Estado eficiente (ou seja: menos burocrático). Segundo a doutrina, quanto mais eficiente for o Estado, melhor para «a sociedade em geral». Primeiro, dado que não podem existir comparações interpessoais de utilidade, e que existem burocratas que certamente não querem um Estado mais eficiente pois perderiam o seu emprego, não se pode dizer cientificamente que um Estado mais eficiente seja benéfico, pois não cumpre os requisitos do «óptimo de Pareto».

Mas, visto que estamos a falar de um suposto defensor da liberdade, analisemos a questão do ponto de vista liberal. Dado que o Estado é o monopolista legal do uso de coerção e violência, um Estado mais eficiente quer necessariamente dizer que temos um monopolista mais eficiente no uso de coerção e violência. Será este um resultado desejável do ponto de vista libertário? A resposta, para qualquer liberal, só pode ser «não».

Ainda outro ponto: ao tornar o imposto sobre o rendimento menos incómodo, a resistência natural ao roubo e à extorsão estatal tornam-se mais fracos (e a possibilidade do Estado devolver no fim do ano o pouco que retirou a mais ainda serve para dar ao Poder uma face benevolente). Ou seja: os sentimentos libertários naturais em qualquer pessoa são diminuídos, e a sua reverência pelo Estado aumentada. Um resultado que qualquer liberal verdadeiro avaliará como negativo.

A verdade é que Friedman foi o inventor do withholding tax e que não se arrependeu. E porquê? Porque, como ele mesmo disse, serviu para ajudar ao «esforço da guerra» (II Guerra Mundial) e, numa situação semelhante, voltaria a fazê-lo. Esta razão ressoará como música aos ouvidos dos nossos liberais-militaristas, mas causará uma náusea a qualquer verdadeiro liberal. (Mais uma vez imaginem Rothbard ou Mises a trabalhar para o Estado no desenvolvimento do withholding tax para ajudar ao esforço da guerra – absurdo).

Por tudo isto, os liberais devem rejeitar Friedman como se de um inimigo se tratasse. Até os nossos inimigos podem estar certos de vez em quando, e Friedman sem dúvida que estava em muitas questões (salário mínimo, proteccionismo, etc); é aliás possível reconhecer o seu papel como «porta de entrada» para a ideologia liberal. Mas, uma vez passada a porta, Friedman deve ser esquecido e renegado, porque no fundamental foi um obstáculo à, senão um inimigo da, liberdade, tanto nas suas acções como nas suas palavras.

Afinal, se Friedman não fosse um apologista e defensor do status quo, nunca teria a honra de receber o prémio Nobel – uma honra concedida exclusivamente a canalhas.

O liberalismo de uns e de outros (VI)


Mas a bola vai à barra e ressalta inevitavelmente para a bancada colectivista. 

De facto, cada um deveria pagar só o que utiliza (em vez de ser extorquido para financiar os serviços utilizados por outros). Tal raciocínio (liberal até ao tutano) implica o total desmantelamento do Estado e a desmonopolização de áreas como a construção de estradas, pontes, barragens e também dos serviços de protecção e arbitragem judicial - de forma a que a separação entre «pagador» e «utilizador» seja dissolvida, ou pelo menos tornada totalmente voluntária. 

Isto era o que um liberal diria. Mas para o Rodrigo, parece, um pouco de socialismo de vez em quando, e aplicado arbitrariamente a certos assuntos, nunca fez mal a ninguém.

PS: o Nuno Branco diz mais ou menos o mesmo que eu nos comentários (não sei se o aplica à polícia e aos tribunais também) . Graças a Deus ainda nem tudo está perdido para os lados do Insurgente.

PS 2: também nos comentários O Raio fala do problema não resolvido do «ganhador pagador», que se traduz nisto: um proprietário não tem apenas propriedade sobre recursos físicos, mas sobre o valor de mercado dos respectivos recursos. Assim, visto que a ponte Vasco da Gama (o exemplo dado), aumentou o valor da propriedade de alguns indivíduos na margem sul, esses indivíduos deviam partilhar os custos da construção da ponte que levou a esse «aumento em valor». O Raio queixa-se, aliás, que lhe construíram uma estação de metro à porta e que a sua propriedade valorizou imenso... sem ter pago nada por isso. Já viram que horror?

Levado à sua consequência lógica, este argumento implica que, não só no caso da valorização mas também da desvalorização, o Estado devia operar para repartir os custos e os ganhos, o que se traduz. em situações absurdas. Como por exemplo: se eu abrir uma loja que satisfaz melhor os clientes do que uma loja do mesmo ramo do outro lado da rua, o Estado devia tirar-me dinheiro porque a minha actividade levou a uma desvalorização da loja do outro lado da rua. Inúmeros exemplos absurdos do género, que servem como justificação para o efectivo controlo do Estado sobre toda a economia, poderiam ser dados de forma a ilustrar a natureza falaciosa e ridícula do princípio do «ganhador pagador». De facto, podemos dizer que por tomar banho de manhã eu beneficio imensas pessoas que passam por mim na rua, sem que elas tenham contribuído minimamente para o meu asseio. Assim, segundo a teoria do «ganhador pagador», todas essas pessoas deviam ser obrigadas a financiar o meu banho matinal.

sábado, junho 26, 2010

Utilizador pagador

Tenho achado piada à discussão sobre as portagens nas SCUT, sobretudo pelo apelo ao princípio do «utilizador pagador». Este princípio, que é naturalmente o mais justo e o mais economicamente eficiente, tem sido acertadamente defendido a propósito das SCUT. O que tem piada é que o princípio parece só ser aplicável a certos produtos e serviços, enquanto que outros parecem ter necessariamente de ser financiados colectivamente. Onde estão, por exemplo, os defensores do princípio «utilizador pagador» nos serviços de protecção e arbitragem judicial?

sexta-feira, junho 25, 2010

O imperativo de ser radical

A cordialidade do Manuel é sempre desarmante (talvez faça parte da sua estratégia) e merece respeito só pela capacidade de ser humano neste meio cibernético. Ainda assim, e embora agradeça a paciência com as minhas provocações, tenho infelizmente de discordar. 

Se eu tivesse (e graças a Deus não tenho) coleguinhas socialistas de todas as cores e feitios, jamais lhes daria tréguas. Não só insistiria no ataque (intelectual), como queria que essa guerra fosse quente, ardente; jamais fria. Perante gente sem escrúpulos morais e/ou sem células cerebrais, só intransigência. Como disse Karl Hess: extremismo na defesa da liberdade não é um vício; moderação na procura de justiça não é uma virtude. E como diria Lord Acton, o liberalismo procura o eticamente correcto, independentemente do politicamente possível.

Imagine o Manuel que estava não a debater a intervenção estatal na educação, mas a questão da escravatura. Pediria o Manuel gradualismo, moderação, compromisso - pelo simples facto de que a maioria dos seus pares eram fervorosos defensores da ideia e da prática? Chegaria ao ponto de dizer que pequenos passos em direcção à não-escravatura eram justos - ou mesmo desejáveis? Causar incómodo, choque ou raiva em criaturas que advogam tamanha violação dos princípios mais básicos do Direito Natural é mais grave do que a violação em si? Não merecem as vítimas ser poupadas a mais uma violação dos seus direitos; não merecem os criminosos e defensores do crime verem a sua ignominiosa actividade exposta e sofrer as devidas consequências?

Eu percebo bem a cruz social que é ter escrúpulos morais e aplicá-los publicamente a questões políticas numa sociedade estatizada em que as várias correntes de pensamento vigentes são socialistas de uma forma ou de outra. Mas, ao contrário do Manuel, eu acredito que a causa libertária é melhor servida pela defesa intransigente do que pelo compromisso gradualista. Porque como dizia o abolicionista americano Garrisson: gradualismo em teoria é perpetuação na prática.

quinta-feira, junho 24, 2010

quarta-feira, junho 23, 2010

# 56

«(...) since taxes are compulsory and not voluntary, we can conclude nothing about the alleged benefits that are paid for with them. Suppose, in analogy, that I am forced at gunpoint to contribute 25 cents for a newspaper and that that newspaper is the n forcibly hurled at my door. We would be able to conclude nothing about my alleged benefit from the newspaper. Not only might I be willing to pay no more than 5 cents for the paper, or even nothing on some days, I might positively detest the newspaper and would demand payment to accept it. From the fact of coercion there is no way of telling. Except that we can conclude that many people are not getting 25 cents' worth from the paper or indeed are positively suffering from this coerced "exchange." Otherwise, why the need to exercise coercion? Which is all that we can conclude about the "benefits" of taxation. 

To Adam Smith, the benefit principle dictated proportional income taxation: "The subjects of every state ought to contribute toward the support of government, as nearly as possible .. . in proportion to the revenue whic h they respectively enjoy under protection of the state."

Other writers have even used the benefit principle to justify progressive taxation. Yet there is no warrant whatever for assuming equi-, or even more than, proportional benefit from government. In one model the alleged benefit from government is to be simply deduced from one's income, and it is claimed that this indicates a proportionately greater "benefit from society. " But there are many flaws with this approach. For first, since everyone benefits from participating in society, the fact that A earns more than B must be attributed to individual differences in ability or productivity rather than to the benefits of society. And second, "society"—the pattern of voluntary exchanges of goods and services—is most emphatically not identical to the State, the coercive extractor of taxation.

If, indeed, we are to tax people in accordance with their benefit from government, we would ha ve to tax all the net taxconsumers to the amount of their subsidies. We would have to tax 100 percent of the salaries of bureaucrats, of the incomes of welfare recipients and of defense contractors, and so on. We would then have our ideal model of the neutral tax where all recipients of government funds would systematically repay them to the taxpayers—an absurd if rather charming state of affairs.» (p. 103-104)

Murray N. Rothbard, The Logic of Action Two (1997)

Outro clássico.

segunda-feira, junho 21, 2010

A direita que pensa em moldes socialistas (V)

A democracia é provavelmente o mais perene tabu da direita. Vista como alternativa ao «centralismo democrático» (a outra face do igualitarismo político), a democracia de tipo ocidental é a utopia dos pragmáticos, o «pior de todos os regimes exceptuando todos os outros», como eles mesmos admitem sem pudor. Estamos, portanto, perante criaturas que, ao invés de advogar um bem se contentam em defender um mal (mesmo que um mal menor), simplesmente porque ele existe. Eis a tão adorada «disposição conservadora».

No que à direita concerne, a democracia pode não ser, como dizia o ilustre neo-pateta, o «fim da história». É, porém e sempre, o fim da conversa. Pôr em causa o princípio do governo da maioria é, pois, uma heresia a ser tratada com ostracismo e acusações de comunismo.

A verdade, porém, é que qualquer pessoa com miolos na posse das suas faculdades será capaz de apontar inúmeros problemas que um regime democrático enfrenta necessariamente, quer sejam de natureza ética ou utilitária. Mas dada a categoria tabu da democracia, uma questão simples e óbvia deve ser levantadas previamente: se a maioria for composta por assassinos, violadores e ladrões - ou anti-semitas radicais como no caso nazi - será que devemos manter o princípio democrático? Ou devemos sacrificá-lo por valores mais altos?  Que princípio deve reinar: o direito natural ou o igualitarismo político? Coerentemente, só um esquerdista poderia optar pela segunda hipótese.

Porque aqui reside o principal da questão: o facto da maioria aprovar uma determinada acção, torna-a necessariamente aceitável, moral ou correcta? Responder que sim é cair no abismo insondável do relativismo moral - abismo em que a direita, apesar de ainda não se ter apercebido, já caiu há muito. Responder que não é, naturalmente, rejeitar o «menos mau de todos os males», a democracia. Segue-se o abraçar das duas ideologias concorrentes: a monarquia (não-democrática) ou a anarquia (qualquer uma delas  superior porque não-igualitárias).

Da mesma forma que a direita rejeita, em princípio, o igualitarismo económico, devia rejeitar o igualitarismo político - ou seja, a democracia - com igual, ou ainda mais, força. Mas esse passo a caminho da coerência é, admito, difícil de dar para quem vive encafuado na caverna da moderação.

A direita que pensa em moldes socialistas (IV)

Eis um exemplo do utilitarismo e da moderação social-democrata que infectou toda a direita e de que falei no post anterior. Gostava de lembrar a frase mítica de Karl Hess, a propósito da leveza das sugestões do Henrique «liberal do status quo» Raposo: «Extremism in the pursuit of liberty is no vice. Moderation in the pursuit of justice is no virtue».

domingo, junho 20, 2010

A direita que pensa em moldes socialistas (III)

A prova mais explícita de que a direita dos blogs (que é, de facto, a nova geração da direita portuguesa), partilha todos os vícios intelectuais e preconceitos filosóficos com a esquerda, é o facto de todos os blogs ou bloggers mainstream de direita se limitarem ao comentário sóbrio dos «eventos políticos» sem nunca se ocuparem de filosofia política, ou seja, sem nunca oferecer qualquer justificação para as suas premissas.

Uma das razões é que, apesar de constituída maioritariamente por católicos, a direita portuguesa é utilitária e positivista no fundamental. Mesmo os «liberais-conservadores» (ou vice-versa, conforme o dia e a circunstância) são fundamentalmente utilitários e cegos defensores do status quo, influenciados directamente pelo pior Burke (pós-A Vindication of the Natural Society) e pela disposição anti-racionalista (ou mesmo anti-Razão) de Oaskeshott. Se a tradição testada e experimentada de um determinado povo fosse o assassínio ritual e a violação dominical, o conservador continuaria a defendê-la - simplesmente porque o não-assassínio ritual e a não-violação dominical nunca tinha sido «experimentada».

O «conservador-liberal» é, portanto, também um utilitário/empirista, só que lhe acrescenta o determinismo irracionalista - ou seja: só se pode conhecer a realidade através da experiência observável, mas a primeira experiência não deve dar lugar a outras experiências porque a sua validade só pode ser conhecida contra o teste do tempo. Daí conclui-se que, qualquer instituição (tenha sido coerciva ou voluntariamente) instalada na sociedade deve ser respeitada como «work in progress». Disto não resulta um hands-off de assuntos políticos como a teoria oakeshottiana levada à sua consequência última propõe; resulta, sim, numa defesa filosoficamente vazia do status quo.

Pior que isso, o seu utilitarismo é largamente anti-elitista e igualitário, exactamente como os seus colegas utilitários de esquerda. É esse sentimento anti-elitista e igualitário que os torna vulneráveis à superstição democrática, tornando-os os mais acérrimos defensores do totalitarismo parlamentar, da redistribuição e regulação massivas, da excelência do inexistente «equilíbrio de poderes», do corporativismo e das inúmeras vilanias e horrores cometidos para «tornar o mundo seguro para a democracia». A sua cegueira e/ou silêncio em relação ao imperialismo democrático é exactamente igual à cegueira e/ou silêncio da esquerda em relação ao totalitarismo soviético, por exemplo. E a razão para tamanha aberração é a irreflectida defesa do status quo.

Na questão particular da «redistribuição», a direita é da opinião que o Estado Social deve ser muito mais moderado, mais regulado, mais eficiente, mas nunca abolido na totalidade. Por este facto, poder-se-ia pensar que a direita é, neste ponto, um pouco melhor que a esquerda. Tal é simplesmente falso. A diferença entre direita e esquerda na questão redistributiva é simplesmente que a esquerda favorece o Estado Social e a direita favorece o Estado Corporativo. Isto em teoria. Na prática, a direita e a esquerda querem ambas um Estado Social-Corporativo e Democrático. 

Tal como não tem coragem para atacar as instituições estabelecidas do portugalinho, a direita mainstream é também incapaz de pôr em causa o «comité central europeu», perdão, a EU - outra instituição do status quo que a direita mainstream apoiou desde o início e continua a defender. Na verdade, a sua defesa do «poder europeu» (com alguns escrúpulos de circunstância) advém, tal como na esquerda, do facto de não terem qualquer problema ético ou político com esse, ou qualquer tipo de, poder - simplesmente desaprovam certos usos específicos por certas administrações. A direita, tal como a esquerda, acredita na UE porque gostaria de controlá-la para os seus particulares propósitos e para impor os seus particulares valores; tal como acredita no Estado-Nação pela mesma ordem de razões. 

A direita é, pois, tal como a esquerda, um movimento igualitário, centralizador, democrático, autoritário e socialista.

# 55



(encontrado aqui)

# 54

«Precisamos de decisões e legislações drásticas que diminuam imediatamente o espaço entre o governo e o ato de governar». (p. 258)

Millôr Fernandes, A Bíblia do Caos (1994)

quinta-feira, junho 17, 2010

Personagens que os liberais deviam esquecer (I)

Ronald Reagan.

Este actor de filmes B é provavelmente a personagem política da segunda metade do Século XX mais querida entre as criaturas que dão pelo nome de «conservadores-liberais». Dado que a filosofia e economia política dos «conservadores-liberais» é, no máximo, corporativismo (ou seja, fascismo) anglo-saxónico – por vezes moderado e democrático, outras vezes extremo e democrático – é natural que Ronald Reagan, tendo entrado no mundo político enquanto trabalhava como spokesman para a General Electric depois de ter impressionado um alto executivo da empresa, seja querido aos corações dos neo-mercantilistas anglo-saxónicos. Infelizmente, não é só entre neo-fascistas que Ronald Reagan encontra admiradores. Pessoas com princípios e com cérebro também sofrem do síndrome Reagan, ou pelo menos apresentam claros e alarmantes sintomas.

Reagan começou como Democrata e grande admirador de Franklin Roosevelt (o Mussolini americano); mais tarde, durante o período GE, mudar-se-ia para os Republicanos onde começaria a sua carreira política (dizendo no entanto sobre os Democratas: «não fui eu que abandonei o Partido foi o Partido que me abandonou.»).

Tal como o mito de Winston Churchill, o mito de Ronald Reagan tem origem na, e vive da, retórica, do sofismo e da elouquência. Mas se Churchill era, de facto, um homem brilhante (mas maligno) e escrevia sublimemente, Reagan era simplesmente um actor – ou seja: um homem treinado na arte de enganar. É difícil para mim aceitar que liberais inteligentes e perspicazes admirem um actor enquanto político: se é verdade que um político (sobretudo democrático) será sempre um actor, também é verdade que não é benéfico ter um actor como político, capaz de incorporar seja qual for o delírio que as massas desejam e mentir abertamente e com todos os dentes a quem lhe queira dar crédito.

O Reagan político posou sempre como um liberal clássico, um libertário que desconfiava do Estado e respeitava a liberdade económica. Dizia-se até admirador de Bastiat. Infelizmente, o Reagan das câmaras e dos telepontos não é o Reagan político, o verdadeiro Reagan, aquele que foi Governador da Califórnia e, nessa posição, enviou a Guarda Nacional ocupar a cidade de Berkeley para bater em hippies e instaurar uma mini-ditadura; aquele que foi presidente para «tirar o Estado das costas» dos cidadãos e, no entanto, aumentou a despesa do Estado em 68%; aquele que pretendia pôr os «welfare bums» de volta ao trabalho e expandiu o Estado Social; aquele que queria ver-se livre do Departamento da Educação e duplicou os seus burocratas; aquele que pretendia baixar a carga fiscal e que depois de diminuir a carga para os escalões mais altos do Income Tax, aumentou-os para o cidadão comum e continuou a aumentar os impostos da Segurança Social entre outros impostos para cobrir os  prévios tax cuts (além, obviamente, da inflação); o Reagan que queria «equilibrar as finanças do Estado» e duplicou os défices de Carter; o Reagan que prometeu acabar com o Departamento da Energia e, naturalmente, não acabou; o Reagan que pregava a «desregulação» e aumentou o número de price supports e price controls; o Reagan que, apesar da sua devoção por Bastiat, foi um dos maiores proteccionistas americanos. 

Ronald Reagan não passou de um impostor; isto é, foi na política o mesmo que fora antes da política: um actor, ou seja, um farsante. O seu único feito foi ligar o bom nome do Mercado e da Liberdade ao seu contrário, e assim mais uma vez denegrir as boas ideias que a sua retórica aplaudia, mas que os seus actos traíram sempre.

terça-feira, junho 15, 2010

Direita e Esquerda: duas faces da mesma imoral moeda

É geralmente aceite a visão do espectro político segundo a qual a esquerda defende a liberdade pessoal denegrindo a liberdade económica e a direita defende a liberdade económica denegrindo a liberdade pessoal. Se assumirmos, por momentos, a veracidade desta visão, teríamos de apontar para a incongruência de ambos os campos políticos e concordar com o argumento de Walter Block que os liberais-libertários não pertencem nem à direita nem à esquerda, sendo o único movimento político coerente. Isto porque a liberdade económica e a liberdade civil ou pessoal não são esferas distintas, separadas e independentes uma da outra. Pelo contrário, a liberdade económica e a liberdade pessoal estão interligadas e pertencem ao mesmo núcleo de «liberdade negativa», ou seja: ausência de interferência humana na esfera de acção de um indivíduo no uso da sua propriedade justa. Os usos particulares são, pois, irrelevantes para o princípio, e logo não existe liberdade económica nem liberdade pessoal, apenas liberdade, como foi acima definida. A separação artificial que direita e esquerda fazem do conceito não passa, portanto, de uma falácia que resulta naturalmente numa incongruência. (Por exemplo, se a direita defende – supostamente – a liberdade económica, como pode rejeitar a venda e compra de serviços sexuais ou de plantas que se fumam?; ou se a esquerda defende a liberdade de associação para as pessoas que se pretendem divorciar dos seus cônjuges, como pode rejeitar a liberdade de associação de um empresário que pretende desassociar-se de um empregado?). 

Está então estabelecido que, sob esta assumpção de que a esquerda defende só as liberdades civis e a direita só as liberdades económicas, tanto a direita como a esquerda são irreversível e tristemente incongruentes. Infelizmente, o caso é pior do que parece. Porque nem a esquerda defende as liberdades civis nem a direita defende as liberdades económicas. A verdade é que, seja qual for a ordem de razões porque o fazem, tanto a esquerda como a direita desprezam ambas as esferas de liberdade e pretendem diminuí-las sempre que possível, em todas as direcções. Entre direita e esquerda, apenas muda o particular ataque à particular liberdade que pretendem destruir no momento; ambas usam sem qualquer pudor – ou usariam se pudessem - a força bruta do Estado para fazê-lo; ambas são adeptas da regulação massiva do comportamento individual e empresarial e da burocratização da actividade económica e cívica;. Onde esteve a oposição de esquerda ao Cartão do Cidadão, por exemplo? Onde está a proposta da direita de acabar com o monopólio da EDP? Não esteve e não está. A direita e a esquerda, cada uma com as suas razões, detestam a liberdade em todas as suas faces e detestam sobretudo a ordem espontânea que resultaria de uma sociedade livre. Em suma, a única liberdade que direita e esquerda subscrevem como fundamental é a liberdade do Estado agredir e oprimir, taxar e expropriar, controlar e regular, proibir e coagir. 

Como partidários da liberdade, podemos apenas rejeitar a direita e a esquerda como duas faces da mesma imoral moeda, duas facções cuja única reverência é pelo poder puro e duro. Entre autoritários e libertários não pode haver amizade ou cooperação.

Boas notícias da Flandres

Ao mesmo tempo que os eurocratas de Bruxelas tentam a centralização soviética da Europa, os flamengos procuram a libertação pelo «separatismo gradual». Não é tão bom como uma declaração intransigente de independência, mas é um começo.

sexta-feira, junho 11, 2010

Música sem subsídios do Estado

# 53

«It is true that the theory of our Constitution is, that all taxes are paid voluntarily; that our government is a mutual insurance company, voluntarily entered into by the people with each other; that each man makes a free and purely voluntary contract with all others who are parties to the Constitution, to pay so much money for so much protection, the same as he does with any other insurance company; and that he is just as free not to be protected, and not to pay tax, as he is to pay a tax, and be protected. 

But this theory of our government is wholly different from the practical fact. The fact is that the government, like a highwayman, says to a man: "Your money, or your life." And many, if not most, taxes are paid under the compulsion of that threat The government does not, indeed, waylay a man in a lonely place, spring upon him from the roadside, and, holding a pistol to his head, proceed to rifle his pockets. But the robbery is none the less a robbery on that account; and it is far more dastardly and shameful.

The highwayman takes solely upon himself the responsibility, danger, and crime of his own act. He does not pretend that he has any rightful claim to your money, or that he intends to use it for your own benefit. He does not pretend to be anything but a robber. He has not acquired impudence enough to profess to be merely a "protector," and that he takes men's money against their will, merely to enable him to "protect** those infatuated travellers, who feel perfectly able to protect themselves, or do not appreciate his peculiar system of protection. He is too sensible a man to make such professions as these. Furthermore, having taken your money, he leaves you, as you wish him to do. He does not persist in following you on the road, against your will; assuming to be your rightful "sovereign," on account of the "protection" he affords you. He does not keep "protecting" you, by commanding you to bow down and serve him; by requiring you to do this, and forbidding you to do that; by robbing you of more money as often as he finds it for his interest or pleasure to do so; and by branding you as a rebel, a traitor, and an enemy to your country, and shooting you down without mercy, if you dispute his authority, or resist his demands. He is too much of a gentleman to be guilty of such impostures, and insults, and villainies as these. In short, he does not, in addition to robbing you, attempt to make you either his dupe or his slave. The proceedings of those robbers and murderers, who call themselves "the government," are directly the opposite of these of the single highwayman.

In the first place, they do not, like him, make themselves individually known; or, consequently, take upon themselves personally the responsibility of their acts. On the contrary, they secretly (by secret ballot) designate some one of their number to commit the robbery in their behalf, while they keep themselves practically concealed.» (p. 17, 18)

Lysander Spooner, No Treason: The Constitution of No Authority (1870)

Um clássico.

quinta-feira, junho 10, 2010

Veteranos e Desertores; Militarismo e Queer Studies

O senhor presidente convida os veteranos do ultramar a juntarem-se à propaganda oficial e a direita desmaia de comoção. É bom de ver que o conservadorismo pátrio continua a suspirar como uma menina embevecida pelas «virtudes militares».*

Quem merece homenagem no dia do nosso triste país não são os autómatos que foram para África, são os desertores que se recusaram a ir, mas parece que até esses já se venderam ao poder público e se calhar até aceitavam ir matar seres humanos num continente distante só porque o governo os mandou fazê-lo.

* proposta de tese: militarismo e «queer studies» - uma reconciliação.

A direita que pensa em moldes socialistas (II)

«Capitalismo iliberal é uma contradição de termos» porque «por definição, o capitalismo é um sistema económico baseado na livre iniciativa e no mercado A premissa do Joaquim está correcta: se o capitalismo tem como base a propriedade privada e as transferências voluntárias de títulos de propriedade  (mercado), qualquer intervenção governamental na forma pacífica como os proprietários (contratuais ou apropriadores originais) usam a sua propriedade é uma forma de socialismo e logo, anti-liberal. E logo, a partir do momento em que existe interferência no mercado e na propriedade privada, o capitalismo deixa de existir e a propriedade privada passa a ser (em graus maiores ou menores) apenas em nome. 

É pena, porém, que o Joaquim não leve a sua premissa correcta à sua consequência lógica. Nomeadamente que a mera existência de um Estado, democrático ou não, é anti-liberal e anti-capitalista - porque sendo um monopólio territorial de lei e ordem o Estado tem a legitimidade legal para excluir outros competidores nesses sectores e logo, limitar o uso que os proprietários podem fazer da sua propriedade; e porque sendo financiado compulsoriamente (isto é, com base em transferências não-voluntárias de propriedade - impostos) e podendo definir unilateralmente o preço dos seus serviços sem o consentimento dos consumidores, o Estado é baseado em relações não-contratuais contrárias ao princípio liberal e ao princípio capitalista. 

O monopólio estatal de violência e de legalidade implica, em primeiro lugar, a colectivização dos meios de produção desses serviços e, necessariamente, o planeamento central da sua produção e distribuição. Ao invés de protecção privada e individual o Estado necessariamente produz protecção colectiva e pública, dado que o financiamento do serviço é totalmente independente da sua produção e distribuição; como consequência, o Estado é inevitavelmente obrigado a abandonar o conceito de justiça individual e a substituí-lo pelo conceito de justiça social - aceitando o princípio igualitário e colectivista, e eventualmente adicionando à redistribuição da sociedade civil para o Estado, a redistribuição entre a sociedade civil.

Posto de outra forma: sendo o Estado um monopolista de lei de ordem, e estando implícita nesta definição a colectivização dos meios de produção desses bens, o Estado é incapaz de cálculo económico racional, dada a inexistência de um mercado onde preços com real informação sobre procura e oferta possam ser gerados, e do ponto de vista da teoria económica, está destinado à sobre-utilização do capital existente, à sua não-renovação e à alocação ineficiente dos recursos (do ponto de vista dos consumidores). Ou seja: a existência de um Estado implica sempre e por definição algum grau de socialismo, isto é: de colectivismo, de expropriação e regulação da propriedade privada e de planeamento central; e implica igualmente um afastamento da ordem natural, não-parasítica, que resultaria de um sistema de pura propriedade privada (capitalismo e liberalismo).

Assim, podemos confirmar que de facto não existe capitalismo iliberal (e que a ser iliberal,  um regime permite apenas uma forma travestida de capitalismo - de propriedade privada). E podemos confirmar igualmente que o capitalismo e o liberalismo puros só existem de facto uma vez removido o Estado - a instituição socialista por excelência. Por isso, um «Estado liberal e capitalista» é, também, uma contradição em termos.

terça-feira, junho 08, 2010

# 52



(encontrado no Blasfémias)

A direita que pensa em moldes socialistas (I)*

Wow, que coragem: uma crítica ao PSD vinda d'O Cachimbo. E vejam só o teor da crítica: «Acho bem que se limitem os valores das pensões na função pública se se limitarem os descontos mensais no vencimento dos funcionários actuais.» Vejam só a subtileza com que o escriba descreve uma situação impossível: nomeadamente, que os funcionários públicos recebem o seu ordenado dos impostos pagos pelo sector privado e que, ao mesmo tempo, pagam impostos sobre o seu ordenado (que é pago com impostos pagos pelo sector privado). As duas ideias são mutuamente exclusivas, infelizmente.

Saltando um parágrafo encontramos a mesma contradição, mas mais elaborada: «Já nas pensões de cargos públicos quedescontaram (os que descontaram) quatro, oito ou dez anos, e vão receber como se tivessem descontado uma vida, não só deve haver um tecto, como estas pensões [de cargos públicos] devem ser tributadas (...)» Se ali descreve uma situação impossível, aqui o escriba propõe o impossível: a tributação de pensões públicas derivadas do exercício de funções públicas. A menos que o João Miguel Gaspar ache mesmo que uma fantasia contabilística vá alterar alguma coisa na questão das finanças públicas, só podemos rezar pela sua alma e passar um minuto em silêncio pela sua cabeça.

O pior é que não acredito que o escriba seja mal intencionado ou desonesto, apenas que a sua mente ande afastada de hábitos rigorosos de pensamento.

* Achei que isto dava uma boa série de posts, dada a abundância de exemplos. Quem quiser contribuir é bem-vindo.

E agora, um direitista de jeito

Divagações sobre os intelectuais de Direita em Portugal

A razão para incorrer nestas divagações sobre a direita portuguesa e não perder tempo com a esquerda é que já toda a gente sabe da petulância, da estupidez, da falência moral e intelectual da esquerda. Não é  pois, justo que tanta gente continue na ignorância sobre a petulância, a estupidez, a falência moral e intelectual da direita.

Incluem-se na categoria de intelectuais de Direita em Portugal as seguintes criaturas: sociais-democratas; conservadores-liberais; liberais corporativistas; neoconservadores e democratas-cristãos.

O facto mais incrível da direita portuguesa, apesar de todos estes epítetos, é a completa ausência de ideologia. Ao contrário da esquerda, que está como sempre esteve imersa em ideologia (uma ideologia falsa, ignorante e imoral), a direita é, com orgulho, anti-ideológica e anti-intelectual. Se a esquerda nos martela constantemente e há quarenta anos com os mesmos lugares comuns, a direita vai ao sabor do vento: de eleição em eleição, as convicções mudam e as prioridades alteram-se. Se os intelectuais de direita têm princípios, ideias ou teorias, escondem-nas no armário como um homossexual envergonhado esconde a sua vergonha homossexual. 

Na verdade, a direita portuguesa só acredita numa ideia e só a essa ideia proclama toda a sua devoção com orgulho: a democracia de massas. Como qualquer esquerdista atordoado pela potência das drogas ilícitas, o direitista pátrio está atordoado pelo vazio da superstição democrática. Não admira, pois, que o direitista pátrio seja anti-intelectual por convicção e, não raramente, oiça heavy metal por gosto; ou seja: o direitista pátrio é a força mais anti-elitista que existe no país.

Igualmente intrigante é que entre os vários espécimes da direita não existe nenhuma diferença fundamental a não ser no epíteto que escolhem para se definir politicamente.Todos eles são democratas, socialistas, corporativistas e igualitários. Sem gravata e do lado esquerdo do parlamento, ninguém notava que não pertenciam ao Bloco. O que os distingue da esquerda, além do facto de serem cidadãos respeitáveis, com bom nome e currículo no Estado (ou nas empresas do regime), é apenas o catolicismo (que se expressa politicamente no conservadorismo para as coisas que não interessam). No que interessa, o direitista pátrio é o mais progressista dos progressistas: desde a centralização política e monetária europeia até ao cartão do cidadão e aos chips nos automóveis, desde a NATO ao Ministério da Educação, a direita pátria faz que sim com a cabeça e bate entusiasmadamente palmas de circunstância. De vez em quando, aparece um que defende o sistema de vouchers e sente-se logo o paladino do liberalismo nativo. Até ao 25 de Abril a direita decidiu aderir, e celebra timidamente o 25 de Novembro como qualquer socialista moderado.

O facto mais curioso dos intelectuais de direita em Portugal é que não são mesmo capazes de entender a sua menoridade, inconsistência e ignorância. Ou seja: o facto mais curioso é que os intelectuais de direita são iguaizinhos aos de esquerda - só que em vez de ter princípios falsos, ignorantes e imorais a direita não tem princípios e é simplesmente falsa, ignorante e imoral.

# 51

«O facto dos proteccionistas nunca assumirem que a sua política não é fundamentalmente diferente dum cerco, apesar das óbvias semelhanças, mostra bem que não estão a defender a população em geral do "exterior", mas antes certos grupos económicos dentro do país, à custa dos consumidores desse mesmo país. Estão simplesmente, em suma, a conceder restrições monopolísticas a certos indivíduos.

Dito isto, e tendo em conta que toda a gente entende mais ou menos claramente que o proteccionismo tem consequências nefastas para determinados grupos duma população qualquer "protegida", resta tentar perceber dois factos salientes da última semana.

Primeiro, é curioso que a Esquerda, que se opõe assumidamente ao mercado livre e ao comércio internacional, tenha condenado vehementemente o ataque das tropas israëlitas a uma frota de barcos que esta semana tentou furar o bloqueio de Gaza. Afinal de contas, os israëlitas estavam simplesmente a "proteger" Gaza da concorrência internacional.

Segundo, é curioso que a Direita, e principalmente a Direita liberal, tenha em grande parte tratado com desprezo os activistas massacrados pelas tropas de Israël. Afinal de contas, ao tentar entregar contrabando a Gaza estavam simplesmente a furar um bloqueio (quer fossem esquerdistas radicais, islâmicos fanáticos, mercenários do Irão, ou progressistas versão tótó-light, nada importa quanto à natureza do seu acto). Ou seja, estavam a praticar o tal comércio internacional que os adeptos do comércio livre defendem.

Vá-se lá saber perceber estas cabeças ocas!» 

Pedro Bandeira, n'O Porco Capitalista.

# 50

«The left are better educated and more intelligent than the right, for two reasons:
1) The Left are the dominant power structure, liberalism is the dominant religion. Smart people with fairly normal social receptivity and status interests will therefor favor leftism and advance in left-acceptable roles. Learning to do this does not require any sort of conscious cynicism, social signaling can cause intelligent people to honestly believe impossible nonsense.

2) Conservatism in America is mainly braindead populism, and the people on the 'Right' who actually have brains have less in common with these conservatives than they do with the liberal-left.

While it's granted that most people on the left believe a lot of absolutely crazy nonsense in the realm of economics, sociology, history and political theory this is because their status is based on expressing the correct opinions, not on actually understanding these fields. They are not scientists, they are a priesthood. Understand that the modern university and media are a priesthood, and the Progressive Democracy is the religion, and you will understand the 20th century.» 

aqui.

segunda-feira, junho 07, 2010

Israel (V)


Este post, linkado pelo Henrique «liberal do regime» Raposo mostra muito bem a bagagem conceptual desta gente. Pelos vistos, nestes pobres cérebros supostamente conservadores-liberais, os estados têm o direito a existir. Muitas consequências lógicas bastante incómodas para estes senhores poderiam ser apontadas, mas prefiro ser brando com gente que não se distingue dos cãezinhos que outrora defendiam o direito à existência da URSS. Mas, muito sucintamente, podemos concluir que os direitos dos indivíduos (sejam eles palestinianos ou israelitas), são puramente concessões dos «estados com direito a existir» - e logo que a propriedade roubada, a agressão contra inocentes, etc, etc, são considerações menores e secundárias na discussão israelo-palestiniana (que, como é fácil de ver, tem tudo a ver com o direito à existência de um Estado e nada que ver com os direitos naturais dos indivíduos da região). Realmente, como diz o Henrique Burnay, com gente assim não vale a pena discutir. Parece que o colectivismo não é exclusivo da esquerda.

sábado, junho 05, 2010

Música sem subsídios do Estado

Continuando a conversa (VIII)


Eis o post completo do Miguel: «A respeito da minha tese de que "[i]ndependentemente da opinião que tenhamos sobre o "direito de propriedade"(...) o "facto de propriedade" só existe, ou pelo reconhecimento mútuo da comunidade, ou por ser garantido por um poder supremo", RBR responde: "um Robinson Crusoe, sozinho numa ilha, apropriando e transformando recursos naturais e obviamente exercendo sobre eles controlo exclusivo. Será que o seu controlo exclusivo necessita de reconhecimento por um «poder supremo»? É evidente que não"

Vamos por outra questão - nessa ilha haverá coisas que foram transformadas/apropriadas por Robinson Crosué (e, portanto, serão sua "legitima" propriedade); haverá outras que ele (ainda) não utilizou e que, portanto, permanecem sem dono. Agora pergunto eu - qual é a diferença entre os pertences de Crosué e as coisas que não pertencem a ninguém? Parece-me que absolutamente nenhuma - Crosué é livre de utilizar ambas em qualquer situação, se lhe apetecer, e sem ter que pedir autorização a ninguém. A diferença entre a "propriedade de Crosué" e a "não-propriedade" só seria relevante se aparecesse outra habitante na ilha (aí, ele seria livre de utilizar a "não-propriedade", mas não a "propriedade de Crosué").

Onde eu quero chegar com isso? Que o conceitos de "direitos de propriedade" só faz sentido quando é necessário arbitrar o uso de recursos escassos entre vários indivíduos; assim, usar como exemplo de direitos de propriedade a existirem sem reconhecimento social uma situação em que há apenas um individuo não é muito relevante.

Noutras palavras - a questão "o que é e o que não é propriedade de Robison Crosué" só passa a ter alguma importância prática quando aparece outra pessoa na ilha (vamos chamar-lhe Sexta-feira); e, a partir do momento em que há também um Sexta-feira, os direitos de propriedade de Crosué estão (mais ou menos) dependentes que o Sexta-feira concorde com eles (vamos imaginar que há uma única fonte de agua potável na ilha, e como Crosué já lá foi buscar água, ele, à luz da doutrina do homesteading, considera-se o dono da fonte e acha que Sexta-feira só pode lá ir buscar água com a sua autorização; será que Sexta-feira concordará? e, se ele não concordar, que valor tem a "propriedade" de Crosué sobre a fonte?). »

Penso ter, finalmente, percebido o que o Miguel quer dizer com este ponto. Penso também que o Miguel sobrestima a importância do argumento como refutação ou ataque à teoria ética que estamos a discutir. Na verdade, este ponto nada tem que ver com a origem e a validade dos direitos naturais, mas simplesmente com o seu «enforcement» (à falta de melhor palavra) dentro de qualquer sociedade. 

É certo, e tão óbvio que custou a perceber, que para pôr em prática qualquer género de direito ou de código ético-legal numa sociedade é necessário 1) reconhecimento desses direitos por uma maioria de indivíduos na comunidade em questão; e 2) protecção (ou garantia de protecção) por parte de um «poder supremo» (ou seja, o Estado - embora, suponho, «agências de defesa» cumprindo o mesmo papel em regime competitivo também pudessem receber o mesmo epíteto).

Ou seja: o Miguel está absolutamente certo sobre os factos, mas a tentativa de anular a teoria dos direitos naturais com base neles falha. O Miguel pergunta, como se desvendasse uma tese: «se ele [sexta-feira] não concordar, que valor tem a «propriedade» de Crosué sobre a fonte?». Um pequeno reparo é necessário: uma das maiores contribuições da escola austríaca é ter provado a natureza falaciosa e errónea das teorias de «valor intrínseco», e substituí-la pela teoria, correcta, do «valor subjectivo». Não é neste domínio, portanto, que o Miguel nos fala de valor – ou pelo menos julgo que não. Se fosse, não poderia responder à pergunta, dado que eu, o Miguel, Crusoé e Sexta-feira teríamos respostas necessariamente diferentes e igualmente válidas.

Por isso arrisco-me a interpretar a pergunta sobre «valor» como um desafio à ética racionalista e a priori, como uma tentativa de demonstrar que o facto de os nossos direitos dependerem de condições exteriores para que a sua validade tenha efeito prático, prova que os direitos só existem no domínio prático – não tendo qualquer «valor» no domínio puramente teórico. Ou seja: que não existem direitos naturais, só direitos positivos; regras de conduta que, avaliadas de uma perspectiva utilitária, são ou não observadas na vida em sociedade. É, digamos, a ética colectivista – que não é ética de todo.

Porém, esta conclusão é completamente errónea e falaciosa. Tentar refutar a teoria do direito natural com base na necessidade do seu «enforcement» é como tentar refutar a existência do ponto de ebulição com base na necessidade de calor para produzir esse efeito. Por muito acertado que o argumento do Miguel seja, ele não serve para provar que os direitos naturais não existem e, no fundo, limita-se a promover a teoria imoral do «might makes right» - ou seja: de que a opinião da maioria, da comunidade, é o principal; e que se essa opinião for contrária aos direitos naturais dos indivíduos «so much for those».

Socialismo: a caridade com o dinheiro dos outros.

Rui Tavares é um docinho e uma alma caridosa, e nós os liberais somos a favor de cada indivíduo decidir o que fazer com o seu dinheiro. Mas não nos esqueçamos que o salário do senhor Rui Tavares como eurodeputado tem origem na ameça de violência por parte do Estado e, logo, o dinheiro com que vai financiar as bolsas não é, se tivermos algum sentido de justiça, seu. Devolver o dinheiro aos contribuintes e demitir-se não seria populismo. Esta jogada heróica-autopromocional é. Vinda de quem vem, podemos especular que com esta manobra o eurodeputado está à espera que a UE lhe ofereça uma fundaçãozinha educacional para promover estudos gays-lésbicos e «a opressão da mulher na sociedade ocidental». Tudo pago, como sempre, pelos contribuíntes.

Adenda: estou a pensar em candidatar-me a uma das bolsas em questão para estudar o tema da «bancarrota moral do socialismo».