"While
the State is a pernicious and coercive collectivist concept, the
"nation" may be and generally is voluntary. The nation
properly refers, not to the State, but to the entire web of culture,
values, traditions, religion, and language in which the individuals
of a society are raised. It is almost embarrassingly banal to
emphasize that point, but apparently many libertarians aggressively
overlook the obvious. Let us never forget the great libertarian
Randolph Bourne's analysis of the crucial distinction between "the
nation" (the land, the culture, the terrain, the people) and
"the State" (the coercive apparatus of bureaucrats and
politicians), and of his important conclusion that one may be a true
patriot of one's nation or country while – and even for that very
reason – opposing the State that rules over it."
(O
excerto acima foi citado pelo Filipe Faria no Facebook, e este texto
era para ser um comentário, mas acabou por ser grande demais, daí
ser publicado aqui.)
Indo
directo ao assunto, o primeiro problema que tenho com a ideia de que
a nação é um conceito fundamentalmente voluntário é que,
frequentemente, a cultura, os valores, as tradições, e até a
religião e a linguagem, não sendo indissociáveis, são até certo
ponto (e por vezes bastante) influenciados pelo Estado que preside à tal nação e pelas suas actividades passadas. E o
próprio conceito de nação tal como existe não existiria, ou pelo
menos seria bastante diferente, sem a influência desse Estado e dessas actividades. Tal
como existe hoje, o conjunto de valores e tradições que constituem
a cultura nacional são em grande parte um reflexo e não podem ser
totalmente separados (sem desaparecerem total ou parcialmente) da
existência do Estado.
O
exemplo português, com os seus séculos de história e de
subsequente “identidade nacional”, serve de ilustração. Até
que ponto a nossa identidade nacional não está presa às
actividades estatais que forjaram parte dessa cultura e identidade, e
sem as quais a nossa cultura (ou seja, das pessoas que habitam o
território dominado pelo Estado português) seria outra, distinta?
Que
cultura e que história, de facto, nos une, como portugueses, do
Norte ao Sul? Que partilham os algarvios com os minhotos, mais do que
com outras localidades espanholas, a não ser a história, feita
pelas acções tomadas pelo Estado e que, como tal e só por isso,
englobam toda a nação? O que distingue a nação, pois, é desde o
início o que as decisões que os estadistas tomaram desde o momento
em que, pela força, claro, tomaram o território e incluíram as
populações que aí habitavam nessa nação.
Até
a religião e a língua, que certamente ocupam um lugar distinto e
continuariam a exercer uma influência exterior ao Estado na cultura,
não podem ser totalmente dissociadas do Estado. Sem a expulsão dos
muçulmanos, por exemplo, não teríamos um Portugal diferente, ou
haveria sequer Portugal? Teríamos todos, do Norte ao Sul, a mesma
língua, a mesma religião e os mesmos costumes de hoje?
Isto
leva-me ao segundo ponto: que é a do patriotismo, ou nacionalismo –
ou seja, o orgulho em ser de uma determinada nacionalidade. Nunca
entendi como alguém se pode orgulhar de uma arbitrariedade como ter
nascido num lugar da terra em vez de noutro. E, claro, é possível,
natural e benéfico gostar-se do lugar onde se vive, das gentes que
partilham connosco esse lugar, e das formas de vida que se pratica.
Mas
isso só muito dificilmente se traduz em, ou pode ser referido como,
nacionalismo. Um português que viva em Lisboa ou no Porto, é muito
mais lisboeta ou portuense do que português. Precisamente porque ser
português não significa nada, a não ser a língua e a história,
que se deve ao facto de um Estado ter forçado os nossos antepassados
a pertencer à mesma comunidade.
A
nação não é uma comunidade, no estrito sentido do termo, porque
engloba territórios que, naturalmente, não pertenceriam à mesma, a
não ser pela insistência do Estado. Sobretudo nos séculos
passados, em que a comunicação entre partes remotas de um país era
extremamente difícil senão mesmo nula, a comunhão de interesses e
costumes é um produto sobretudo artificial. Isto num país
relativamente pequeno como o nosso – quanto maior o país, a nação,
maior a disparidade entre a cultura dos vários sítios englobados
pela nação, e mais absurda e perniciosa se torna a invenção de
uma identidade comum onde ela, de facto, não existe.
Na
prática, claro, esta identidade nacional tem consequências e
influência na forma como pensamos e agimos e naquilo em que
acreditamos. Mas isso está longe de querer dizer que seja uma boa
influência e que gere boas consequências.
E
certamente que outros factores têm muito mais influência na nossa
formação do que a identidade nacional: a família que temos, os
amigos que arranjamos, os livros que lemos, a música que ouvimos, os
cafés e lojas que frequentamos, os vizinhos que temos. Em tempos
passados estas influências seriam ainda mais circunscritas pelo
lugar que habitamos. E hoje, existindo a internet, apesar de
continuarmos até certo ponto dependentes da comunidade onde vivemos,
e nunca deixaremos de estar, a identificação com a nação e as
suas fronteiras artificiais torna-se ainda mais espúria.
A
nação, e o nacionalismo, são portanto uma farsa. E, geralmente,
uma farsa perigosa, porque de alguma forma implica uma identificação
com um determinado grupo de pessoas – com os quais não temos
necessariamente interesses em comum – e uma distinção de outro
determinado grupo de pessoas – com os quais não temos
necessariamente interesses em conflito.
Claro
que o comunitarismo, à falta de melhor palavra que signifique a
identificação e o orgulho em pertencer a uma comunidade,
necessariamente pequena e territorialmente limitada, pode também
tornar-se perigoso pela mesma razão. Mas, em primeiro lugar,
torna-se difícil, por ser muito mais obviamente absurdo, por
exemplo, convencer a comunidade de Alfama que são a suprema raça ou
que a comunidade do Bairro Alto é maléfica.
Depois,
mesmo que se consiga convencer um bairro que o bairro vizinho é o
inimigo mortal, a proporção do conflito e da destruição será
muito menor.
E,
além disso, pelo menos a identificação não será totalmente
despropositada, porque terá de facto interesses comuns facilmente
identificáveis, e o orgulho não será totalmente fundado numa
arbitrariedade, já que em grande parte, qualquer pessoa pertencente
a uma comunidade, contribui para a sua formação e manutenção de
várias formas, algo que não acontece no que a uma nação diz
respeito.