vai injectar 6650 milhões na banca.
Vale a pena a propósito lembrar coisas como esta: Porque deve um liberal estar no PSD.
segunda-feira, junho 04, 2012
domingo, junho 03, 2012
A única democracia no Médio Oriente.
«And if a stranger sojourn with thee in your land, ye shall not do him wrong. The stranger that sojourneth with you shall be unto you as the home-born among you, and thou shalt love him as thyself; for ye were strangers in the land of Egypt: I am the LORD your God.»
Leviticus, 19:33-34
Ao que parece a citação acima já não se aplica. E quem os lembra disso arrisca-se a sofrer o mesmo destino. Parece que a obsessão com o Holocausto não serviu de muito. Só, talvez, para o repetirem. Desta vez sendo eles os carrascos.
segunda-feira, maio 21, 2012
Mudam-se as moscas...
Custa-me a entender o alvoroço perante a aberrante normalidade do "caso Miguel Relvas". A coisa é condenável? Claro que sim. Mas só gente muito crédula se surpreende. Enquanto houver poder para tal, abusá-lo não é uma anomalia: é a consequência lógica.
Da mesma forma, quem esperava que Passos Coelho condenasse, e demitisse, o ministro Relvas só pode pertencer à mesma espécie que esperava um PSD liberal.
Como se costuma dizer: só se desilude quem tem ilusões. Mudam-se as moscas... e o resto já se sabe.
quinta-feira, maio 17, 2012
Não importem o BOPE.
A resposta adequada à criminalidade violenta não é dar mais poder e mais armas ao Estado, como se sugere aqui. A solução a longo prazo passa pelo desmantelamento do Estado Social e pela derrota ideológica da mentalidade secular e esquerdista da vitimização dos criminosos, que efectivamente patrocina e justifica a degradação moral que se torna cada vez mais comum e variada.
A curto prazo, a resposta adequada à criminalidade violenta é a legalização das armas, da legítima defesa e da formação de milícias voluntárias. Porque "importar o BOPE" só vai adicionar um gangue, ainda maior e mais bem armado, aos outros, e este com permissão legal e salário pago pelo contribuinte.
A Telenovela do Cinema Português.
O João Pereira Coutinho é um moderado com sentido de humor e cinismo qb - o que para a sociedade respeitosa e hipócrita em que vivemos o torna um perigoso polémico. Como escreveu umas banalidades sobre a indigência dos cineastas portugueses, e nem sequer umas banalidades especialmente provocatórias, caiu-lhe a Esquerda em cima, com o dedo em riste e a perene acusação de crime de neoliberalismo.
O João Pereira Coutinho não falou, porém, na idiotia e falta de vergonha dos cinéfilos blasé que por muito que escondam as suas "boas intenções" culturais sabem que estão a exigir dinheiro roubado aos contribuintes para ver filmes que mais ninguém quer ver - se quisessem, não era preciso roubá-los. Também não falou na, conhecida mas pouco explorada, obsessão da Esquerda com tudo o que passa por "cultura", que se observa em primeiro lugar sobre o cinema e que é resumida numa frase de Woody Allen «if a guy comes out onstage
at Carnegie Hall and throws up,
you can always find some people
who will call it art.».
É aliás, inútil, tentar chamá-los à razão e falar-lhes no mundo real (mesmo da forma simplificada como o JPC tentou fazer): estamos na presença de artistas que não podem ter preocupações mundanas como financiamento e rentabilidade. Eles não são deste mundo; existem num lugar à parte, algures no Bairro Alto ou no Chapitô, onde se respira e se discute a Arte (com A grande) e onde - em nome da Arte - se congeminam petições (a que chamam ultimatos - e não se sabe o que farão, ou deixarão de fazer, se não lhes fizerem as vontades) que lhes permitam viver neste limbo artístico. Nisto, parecem verdadeiras personagens de uma telenovela (formato que detestam, porque agrada ao povinho e, como tal, dá dinheiro): unidimensionais e repetitivos. E eminentemente ridículos.
Só um cineasta português (naturalmente, de esquerda) poderia sequer conceber uma frase - e patrocinar uma mundividência - como esta: «é precisamente o oposto da caridade aquilo que se pretende: um país onde exista o sentido de dever, por parte do Estado, de estabelecer condições para que os seus artistas criem em Liberdade.» Esta redefinição de liberdade criativa (na verdade, uma declaração de dependência absoluta) por parte dos artistas do cinema é a confirmação do que o JPC escreveu.
Seja como for, ter um mentecapto como o João Salaviza a criticá-lo num site do Bloco de Esquerda só pode ser um bom sinal para o João Pereira Coutinho.
domingo, maio 13, 2012
A oportunidade que é estar desempregado numa social-democracia.
Ia responder a este magnífico exemplo de sabujismo sobre as recentes e infelizes declarações de Passos Coelho, mas já outro insurgente se insurgiu:
«Seria importante que Passos Coelho não se esquecesse de que, quando fala do desemprego em Portugal, está a falar em grande medida de uma série de pessoas que não viram apenas o seu emprego a desaparecer – antes viram desaparecer toda e qualquer perspectiva de de exercerem qualquer actividade. Pessoas que trabalhavam em indústrias que perderam por completo toda a sua competitividade com o exterior, que se tornaram obsoletas, que nunca mais regressarão ao nosso país; e pessoas que não têm (no horrível termo burocrático dos nossos dias) “competências” para procurarem empregos noutras áreas; ou que por terem 40, 45, 50 ou mais anos, são consideradas demasiado velhas por “empreendedores” como os que enchem os discursos de Passos Coelho; que, pura e simples, foram deixadas para trás pelo andar da carruagem. Essas pessoas, mudaram mesmo de vida. Mas essa mudança foi efectivamente uma tragédia para elas, e não lhes abriu qualquer oportunidade.
Mas se Passos Coelho quer realmente que os portugueses vejam o desemprego como uma oportunidade, tem bom remédio. Porque é dele e dos seus colegas de Governo que isso depende. A única forma de o desemprego deixar de ser, para muita gente, algo de permanente, mas apenas algo de temporário, e dee as pessoas procurarem aproveitar as oportunidades que lhes possam surgir e criar as que não estão imediatamente ao seu alcance, é o Governo realizar uma série de reformas que até agora ainda não passaram do papel, ou nem sequer nele foram escritas. Quando for mais fácil contratar, quando as empresas e as pessoas puderem canalizar as suas receitas para o investimento em vez de para o pagamento de impostos, quando criar uma empresa deixar de ser um pesadelo e a economia for realmente “dinâmica” o suficiente para o risco que as pessoas correm possa valer a pena.
Mas para isso, o Governo terá de, em vez de se limitar a fazer discursos, realmente fazer essas reformas. Até lá, as únicas oportunidades que existem são as que Passos Coelho perde de estar calado.»
quinta-feira, maio 10, 2012
Vasco Pulido Valente sobre o Cinema em Portugal
«A primeira coisa a compreender sobre o cinema é que não há dinheiro que vede o cinema. Porque os filmes são cada vez mais caros e porque o número de cineastas tende para o infinito.
Se alguém apontar uma câmara para qualquer sítio e carregar num botão, a câmara, coitada, filma fatalmente qualquer coisa. Se se gravarem depois umas conversas, as conversas ficam fatalmente gravadas. E se se puser, por aqui e por ali na banda sonora, um bocado de música, a música lá toca onde a puseram. Uma das tragédias do cinema está em que sai sempre. O mais completo mentecapto, incapaz de comer a sopa sozinho, pode perpetrar com facilidade um filme. Nos últimos anos, bandos de mentecaptos perpetraram, por consequência, filmes.
A seguir, estas criaturas juntam-se em celebrações, denominadas festivais, e atribuem-se reciprocamente "espigas de oiro" ou "salamandras de prata", que, em princípio, premeiam a excelência das suas façanhas. A quantidade de "espigas" e de "salamandras" é mais ou menos igual à quantidade de filmes e, assim, na prática não chega a haver perigo de um filme não se adquirir uma "espiga" ou uma "salamandra" que o recomende. Isto não significa evidentemente que seja visto fora dos festivais, onde vão sobretudo autores de outros filmes à cata de "espigas" e de "salamandras". Uma percentagem altíssima dos filmes portugueses não chega a estrear-se nos cinemas comerciais ou, quando se estreia, não passa de uns dias de exibição. Milhões de contos foram espatifads nestes exercícios clandestinos, a bem da cultura e do nosso querido "imaginário" lusitano»
Vasco Pulido Valente, Retratos e Auto-Retratos, p. 56-57
quarta-feira, maio 09, 2012
Convenção Ateísta Mundial.
O secularismo militante que promove estas convenções é o mesmo secularismo que minou todas as relações de autoridade tradicionais, que promoveu todas as formas de degeneração moral possíveis e imaginárias e que ameaça destruir a civilização ocidental por dentro, ao negar os princípios fundamentais sobre os quais esta se funda com todas as consequências práticas que isso implica.
Mas o verdadeiro perigo parece ser a meia dúzia de muçulmanos que protesta o triste espectáculo.
segunda-feira, maio 07, 2012
Admirável mundo secular.
«It is not one page. It's two.
It is all about the right of a woman not to be a mother. Half a dozen no-mothers are interviewed with marvellous stories to tell us. Not a single mother is mentioned or interviewed.
I am glad my mother did not exercise that right. What about you?
For a moment I wished the journalist's mother had exercised that right.
What a trash of a paper Público is becoming.»
Mais uma consequência grotesca e suicidária da sociedade secular. Não deixa, porém, de ser curioso que o secularismo seja tão auto-destrutivo de um ponto de vista darwiniano.
sábado, maio 05, 2012
O terceiro (e espera-se, último) post sobre o Pingo Doce.
Serve o presente texto para adereçar algumas questões levantadas um pouco por toda a blogosfera e na imprensa, em geral de esquerda (mas sendo a direita o que é, algumas das questões são partilhadas pela direita “responsável” do PSD e do CDS).
O Boicote e a “afronta” ao 1º de Maio.
Não vejo mal nenhum em boicotes. Podem ser estúpidos, irrelevantes e ignorantes - como são quase todas as actividades dos sindicatos e da esquerda, e este boicote não é excepção - mas considero-os totalmente legítimos (desde que não forcem ninguém a juntar-se ao boicote ou invadam a propriedade de quem querem boicotar). O que o Pingo Doce praticou foi, no fundo, um boicote ao Dia do Trabalhador. Mas, claro, não se pode presumir que a Esquerda julgue que os donos das empresas tenham direitos iguais aos empregados. Igualdade, sim – mas não dessa estirpe burguesa.
Dito isto, fico feliz pela demonstração de força perante os sindicatos, que são verdadeiramente uma força contra o progresso e contra as melhorias das condições dos trabalhadores. A única coisa que pode melhorar as condições, incluindo a remuneração, do trabalho é mais investimento. Ao haver mais investimento, há mais emprego, logo mais procura de trabalhadores. E se há mais procura, o preço aumenta (neste caso o preço do trabalho). E todas as políticas defendidas pelos sindicatos são contrárias a isto - vindas certamente do seu preconceito para com, e ignorância de como funciona, o capitalismo. As melhores condições não impediram, nem permitiram, o progresso: foram um produto desse progresso.
Esta é mais uma razão para aplaudir o Pingo Doce: desmistificar e desvalorizar o papel dos sindicatos na melhoria das condições de trabalho, que é na verdade um mito, e um mito grosseiro, só pode trazer boas consequências a Portugal.
Finalmente, a questão da “procura de poder político” pela Jerónimo Martins. É possível. E se assim se vier a confirmar, podem contar com a minha total execração e condenação. Pelo que fez até agora, só posso aplaudir.
Generosidade ou a procura de lucros, monetários ou outros?
Pode haver quem defenda que a campanha foi o produto da generosidade do empresário, mas não eu. Eu assumo, e aplaudo, que o Soares dos Santos esperasse apenas tirar proveito da situação, sendo este na forma de lucros, publicidade ou qualquer outro tipo de proveito material ou psicológico que lhe apeteça. Quem compreende minimamente como o mercado funciona sabe que um capitalista, a não ser que o faça através do Estado, só pode obter lucros servindo os consumidores melhor que os seus concorrentes. Se nesse processo os levar à falência, melhor – seja pela introdução de um novo produto, seja por reduzir os preços. É porque esses concorrentes estavam a desperdiçar recursos necessários ao mundo, que agora serão usados em coisas mais úteis. Cada escolha que fazemos como consumidores determina o sucesso e a falência de empresas, e como tal a gestão dos recursos. Quem acha isto “selvagem” deveria voltar a andar de carroça, em solidariedade aos fabricantes que foram à falência depois da invenção e comercialização do automóvel.
Escravos?
É verdade: houve quem apelidasse de escravos os empregados do Pingo Doce que escolheram trabalhar no dia 1 pelo triplo do dinheiro, ganhando quatro de férias e podendo usufruir da promoção mais tarde, longe da confusão. É preciso dizer mais alguma coisa?
Dumping.
Como pude comprovar em conversa com um amigo, ainda há quem acredite, mesmo na presença de uma calculadora, que é possível fazer lucro vendendo abaixo do preço de custo – insistindo no chavão anedótico: «They lose money on every sale, but they make it up on volume.»
Pelo que pude ver da blogosfera e dos jornais, o meu amigo não é caso único. Quanto a isto não há, verdadeiramente, nada que se possa argumentar.
Já a segunda acusação é, pelo menos, possível – e no entanto é ainda mais irrelevante: o Pingo Doce praticou dumping, não para obter lucros no momento, mas para levar à falência a concorrência e, posteriormente, quando estiver em posição “monopolística”, aumentar imenso os preços e obter lucros nunca vistos.
Há duas questões a tratar nesta acusação. Uma é ética: deve uma pessoa poder vender abaixo do preço de custo com intenção de levar a concorrência à falência. E a outra é: será que isto funciona. Vamos tratar primeiro da segunda.
A verdade é que a técnica não funciona, por muito que a esquerda acredite que sim. Em primeiro lugar, quantos dias teria o Pingo Doce de estar aberto, a perder dinheiro por vender abaixo do preço de custo, para levar à falência a concorrência? O mais certo era ir à falência primeiro, mesmo que a concorrência não fizesse nada – o que é duvidoso. A concorrência provavelmente fecharia as portas temporariamente e faria uma de duas coisas, ou ambas: dar férias aos empregados; ou pagar-lhes para se irem abastecer de stocks ao Pingo Doce (como fez Herbert Dow contra o cartel alemão que tentou essa prática). Mas no caso do Pingo Doce conseguir levar os concorrentes à falência, depois de ter estado a perder dinheiro por bastante tempo, e finalmente poder aumentar vertiginosamente os preços, o que sucederia? É provável que, dado os entraves estatais que existem ao empreendedorismo, a solução demorasse um pouco a chegar; mas mais tarde ou mais cedo, e não seria muito mais tarde dado os potenciais lucros de quem vendesse a preço de mercado, contra os preços exorbitantes do Pingo Doce, novas empresas viriam e reestabeleceriam o equilíbrio de forças que existia antes do dumping. Claro que isto nunca chegaria aqui, e que a tentativa efectiva e continuada de dumping levaria, isso sim, o Pingo Doce à falência.
A segunda questão é um pouco mais complexa, e dada a moralidade ambígua tanto da esquerda como da direita, é muito mais difícil de compreender nos moldes do pensamento vigente.
Em quase todas as críticas que li, salientava-se a questão da intenção, naturalmente maléfica; e salientava-se também o carácter de lei. E se a lei é lei, então é porque deve ser lei e quem viola a lei é criminoso porque violou a lei que é lei e que como tal deve ser lei (de que outra forma se pode representar o raciocínio, se é que se pode designar assim o que fazem, de algumas pessoas em relação a isto?).
Nenhum pensamento sobre a necessidade ou justiça desta lei. Simplesmente a condenação: se violou a lei deve ser punido. A esquerda sobretudo deveria lembrar-se que nem todas as leis são justas (ou já abandonou uma das poucas causas justas que a animam, a legalização das drogas?).
A verdade é que não há absolutamente nada de criminoso em vender algo abaixo do preço de custo. Quando alguém o pratica na feira da ladra com um cd velho que já não lhe interessa, ou pela internet com um artigo cuja utilidade foi mal avaliada, não é dumping – nem ninguém se chateia. E porquê? Porque quando uma empresa, por exemplo o Pingo Doce, o faz, e ainda por cima em mais do que uma unidade e em vários produtos, fá-lo com a intenção de atingir a concorrência.
Leis que visam punir não só práticas mas intenções não são leis dignas desse nome. Qualquer empresa deveria poder, sem ter de pagar qualquer multa, vender abaixo do preço de custo e sofrer as consequências naturais da prática.
O facto de isto ser objecto de uma lei, e de discussão, só demonstra a estupidez e a hipocrisia generalizada do Estado e dos idiotas inúteis que o servem.
Os apelos aos “descontos de 100%”.
Esta é talvez a mais nojenta de todas as reacções, porque trata-se de um apelo directo à pilhagem em massa, à destruição de propriedade privada, ao caos social e à “luta de classes”. Custa a perceber como é que há quem deseje isto a alguém, sobretudo vindo da esquerda que supostamente se preocupa com o povo. Do caos e da violência contra inocentes, nada de bom pode vir ao mundo. Há gente que, de facto, só quer ver o mundo a arder.
O Boicote e a “afronta” ao 1º de Maio.
Não vejo mal nenhum em boicotes. Podem ser estúpidos, irrelevantes e ignorantes - como são quase todas as actividades dos sindicatos e da esquerda, e este boicote não é excepção - mas considero-os totalmente legítimos (desde que não forcem ninguém a juntar-se ao boicote ou invadam a propriedade de quem querem boicotar). O que o Pingo Doce praticou foi, no fundo, um boicote ao Dia do Trabalhador. Mas, claro, não se pode presumir que a Esquerda julgue que os donos das empresas tenham direitos iguais aos empregados. Igualdade, sim – mas não dessa estirpe burguesa.
Dito isto, fico feliz pela demonstração de força perante os sindicatos, que são verdadeiramente uma força contra o progresso e contra as melhorias das condições dos trabalhadores. A única coisa que pode melhorar as condições, incluindo a remuneração, do trabalho é mais investimento. Ao haver mais investimento, há mais emprego, logo mais procura de trabalhadores. E se há mais procura, o preço aumenta (neste caso o preço do trabalho). E todas as políticas defendidas pelos sindicatos são contrárias a isto - vindas certamente do seu preconceito para com, e ignorância de como funciona, o capitalismo. As melhores condições não impediram, nem permitiram, o progresso: foram um produto desse progresso.
Esta é mais uma razão para aplaudir o Pingo Doce: desmistificar e desvalorizar o papel dos sindicatos na melhoria das condições de trabalho, que é na verdade um mito, e um mito grosseiro, só pode trazer boas consequências a Portugal.
Finalmente, a questão da “procura de poder político” pela Jerónimo Martins. É possível. E se assim se vier a confirmar, podem contar com a minha total execração e condenação. Pelo que fez até agora, só posso aplaudir.
Generosidade ou a procura de lucros, monetários ou outros?
Pode haver quem defenda que a campanha foi o produto da generosidade do empresário, mas não eu. Eu assumo, e aplaudo, que o Soares dos Santos esperasse apenas tirar proveito da situação, sendo este na forma de lucros, publicidade ou qualquer outro tipo de proveito material ou psicológico que lhe apeteça. Quem compreende minimamente como o mercado funciona sabe que um capitalista, a não ser que o faça através do Estado, só pode obter lucros servindo os consumidores melhor que os seus concorrentes. Se nesse processo os levar à falência, melhor – seja pela introdução de um novo produto, seja por reduzir os preços. É porque esses concorrentes estavam a desperdiçar recursos necessários ao mundo, que agora serão usados em coisas mais úteis. Cada escolha que fazemos como consumidores determina o sucesso e a falência de empresas, e como tal a gestão dos recursos. Quem acha isto “selvagem” deveria voltar a andar de carroça, em solidariedade aos fabricantes que foram à falência depois da invenção e comercialização do automóvel.
Escravos?
É verdade: houve quem apelidasse de escravos os empregados do Pingo Doce que escolheram trabalhar no dia 1 pelo triplo do dinheiro, ganhando quatro de férias e podendo usufruir da promoção mais tarde, longe da confusão. É preciso dizer mais alguma coisa?
Dumping.
Como pude comprovar em conversa com um amigo, ainda há quem acredite, mesmo na presença de uma calculadora, que é possível fazer lucro vendendo abaixo do preço de custo – insistindo no chavão anedótico: «They lose money on every sale, but they make it up on volume.»
Pelo que pude ver da blogosfera e dos jornais, o meu amigo não é caso único. Quanto a isto não há, verdadeiramente, nada que se possa argumentar.
Já a segunda acusação é, pelo menos, possível – e no entanto é ainda mais irrelevante: o Pingo Doce praticou dumping, não para obter lucros no momento, mas para levar à falência a concorrência e, posteriormente, quando estiver em posição “monopolística”, aumentar imenso os preços e obter lucros nunca vistos.
Há duas questões a tratar nesta acusação. Uma é ética: deve uma pessoa poder vender abaixo do preço de custo com intenção de levar a concorrência à falência. E a outra é: será que isto funciona. Vamos tratar primeiro da segunda.
A verdade é que a técnica não funciona, por muito que a esquerda acredite que sim. Em primeiro lugar, quantos dias teria o Pingo Doce de estar aberto, a perder dinheiro por vender abaixo do preço de custo, para levar à falência a concorrência? O mais certo era ir à falência primeiro, mesmo que a concorrência não fizesse nada – o que é duvidoso. A concorrência provavelmente fecharia as portas temporariamente e faria uma de duas coisas, ou ambas: dar férias aos empregados; ou pagar-lhes para se irem abastecer de stocks ao Pingo Doce (como fez Herbert Dow contra o cartel alemão que tentou essa prática). Mas no caso do Pingo Doce conseguir levar os concorrentes à falência, depois de ter estado a perder dinheiro por bastante tempo, e finalmente poder aumentar vertiginosamente os preços, o que sucederia? É provável que, dado os entraves estatais que existem ao empreendedorismo, a solução demorasse um pouco a chegar; mas mais tarde ou mais cedo, e não seria muito mais tarde dado os potenciais lucros de quem vendesse a preço de mercado, contra os preços exorbitantes do Pingo Doce, novas empresas viriam e reestabeleceriam o equilíbrio de forças que existia antes do dumping. Claro que isto nunca chegaria aqui, e que a tentativa efectiva e continuada de dumping levaria, isso sim, o Pingo Doce à falência.
A segunda questão é um pouco mais complexa, e dada a moralidade ambígua tanto da esquerda como da direita, é muito mais difícil de compreender nos moldes do pensamento vigente.
Em quase todas as críticas que li, salientava-se a questão da intenção, naturalmente maléfica; e salientava-se também o carácter de lei. E se a lei é lei, então é porque deve ser lei e quem viola a lei é criminoso porque violou a lei que é lei e que como tal deve ser lei (de que outra forma se pode representar o raciocínio, se é que se pode designar assim o que fazem, de algumas pessoas em relação a isto?).
Nenhum pensamento sobre a necessidade ou justiça desta lei. Simplesmente a condenação: se violou a lei deve ser punido. A esquerda sobretudo deveria lembrar-se que nem todas as leis são justas (ou já abandonou uma das poucas causas justas que a animam, a legalização das drogas?).
A verdade é que não há absolutamente nada de criminoso em vender algo abaixo do preço de custo. Quando alguém o pratica na feira da ladra com um cd velho que já não lhe interessa, ou pela internet com um artigo cuja utilidade foi mal avaliada, não é dumping – nem ninguém se chateia. E porquê? Porque quando uma empresa, por exemplo o Pingo Doce, o faz, e ainda por cima em mais do que uma unidade e em vários produtos, fá-lo com a intenção de atingir a concorrência.
Leis que visam punir não só práticas mas intenções não são leis dignas desse nome. Qualquer empresa deveria poder, sem ter de pagar qualquer multa, vender abaixo do preço de custo e sofrer as consequências naturais da prática.
O facto de isto ser objecto de uma lei, e de discussão, só demonstra a estupidez e a hipocrisia generalizada do Estado e dos idiotas inúteis que o servem.
Os apelos aos “descontos de 100%”.
Esta é talvez a mais nojenta de todas as reacções, porque trata-se de um apelo directo à pilhagem em massa, à destruição de propriedade privada, ao caos social e à “luta de classes”. Custa a perceber como é que há quem deseje isto a alguém, sobretudo vindo da esquerda que supostamente se preocupa com o povo. Do caos e da violência contra inocentes, nada de bom pode vir ao mundo. Há gente que, de facto, só quer ver o mundo a arder.
sexta-feira, maio 04, 2012
O cinema português
Anda por aí uma petição, com o título de Cinema Português: Ultimato ao Governo, que pretende mais financiamento do Estado (what else?) aos cineastas portugueses. Nada de surpreendente, portanto. Faria mais sentido uma petição que exigisse dinheiro ao governo para que os cineastas portugueses nunca mais filmassem nada. Dado o potencial sanitário de um tal ultimato, e contra as minhas convicções, até ponderaria subscrever. Assim, não.
Os "artistas" do cinema em Portugal ainda não perceberam que os subsídios não substituem a inexistência de uma tradição, nem a ausência de talento. Ou se calhar já sabem. Mas os prémios atribuídos por outros "artistas" e criaturas semelhantes lá fora, no estrangeiro - imagine-se - vão alimentando a ilusão e as pretensões. E toda a gente precisa de comer. Se for à custa dos contribuintes sabe ainda melhor. E se se puder revestir esse desejo com uma aura de direito ao dinheiro dos outros e dever desses outros ao "apoio à arte", é ouro sobre azul.
Eu culpo o capitalismo por criar meios de fazer filmes acessíveis aos cineastas portugueses que, mesmo necessitados de subsídios, ainda vão pegando na câmara e carregando no rec (e pouco mais que isso, como pode confirmar quem já viu um filme português).
quarta-feira, maio 02, 2012
O segundo post sobre o Pingo Doce.
É absolutamente fantástica, no sentido de ser irreal, a forma como a esquerda olha para o "caso Pingo Doce". Uma coisa é certa: o epíteto de esquerda caviar nunca fez tanto sentido.
A título de exemplo, o quanto a esquerda caviar se importa com as pessoas mais pobres (que constituiram a maioria dos que acorreram aos supermercados Pingo Doce para aproveitar a promoção), pode ser visto na forma como o Sérgio, com a educação própria da tradição intelectual em que se insere, os descreve: «a horda de zombies consumistas», que «não chegarão a perceber que parte daquilo que compraram não era absolutamente necessário e por isso viverão felizes na ignorância dos estúpidos.»
Esta certeza sobre o que é absolutamente necessário aos outros (outros esses que, não sabendo, vivem na "ignorância dos estúpidos") é, de resto, aquilo que define a esquerda em geral, e esta estirpe mimada e arrogante em particular. Mas é triste confirmar a sua cegueira quando ela se traduz tão visivelmente na total ausência de compaixão e decência pelo próximo. No fervor ideológico esquecem-se do fundamental: que não é o desinteresse das massas pelo Dia do Trabalhador, nem são as intenções potencialmente maléficas da empresa, nem o relativo caos que a situação proporcionou. O fundamental é que uns bons milhares de pessoas terão um mês ligeiramente melhor e mais desafogado num ano extremamente difícil.
Nestes momentos percebe-se que é irrelevante dar lições de economia a pessoas assim, porque o que lhes falta é muito mais significativo e não é susceptível de ser aprendido.
PS: De notar também é a ululante imbecilidade dos bovinos que nos pastoreiam, nomeadamente a da ministra Assunção Cristas, sempre na crista da onda estatista, que agora tem «planos para evitar promoções inesperadas». Aqui vemos como a direita se junta à esquerda no desprezo pelos mais pobres.
O post sobre o Pingo Doce.
Poucas vezes se notou tanto a proclamada "cassete" como neste primeiro de Maio em que o Pingo Doce decidiu melhorar a vida dos portugueses (dos que puderam comprar bens essenciais a 50% do preço e dos que trabalharam, recebendo o triplo e ainda um dia de folga). Isto, que qualquer pessoa com um cérebro e algum sentido de decência deveria aplaudir, foi assim retratado pela esquerda: «o grupo Jerónimo Martins aproveitou a crise social que assola o país para, numa manobra populista criada para dividir consumidores e trabalhadores, afrontar os direitos dos trabalhadores.
As filas de espera que marcaram o dia, com dezenas de pessoas a queixarem-se de não serem atendidas, foram rapidamente invadidas por pequenos comerciantes que, ironicamente, vêm as suas margens esmagadas pelo mesmo grupo de distribuição ao qual ocorreram hoje para encher a sua mercearia ou pequena loja.
O sindicato do Comércio acusou hoje o grupo Jerónimo Martins de “dumping”, vendendo abaixo do preço de custo para esmagar a concorrência.».
A falta de sensibilidade e vergonha na cara desta gente, que se proclama a toda a oportunidade defensora dos mais desfavorecidos, não deixa de surpreender.
Aqui ficam testemunhos de agradecimento feitos pelos próprios consumidores, encontrados no Insurgente, e que mostram bem a disparidade entre a realidade e as cabeças do progresso:
«A todos os que por aqui desdenham desta iniciativa,e que enaltacem o dia dia do trabalhador,gostava que se lembrassem do MILHÃO de desempregados para quem esta iniciativa do PD vai fazer com que pelo menos o mês de Maio seja um pouco melhor.
eu estive lá! no PINGO DOCE em Valadares VNG! foi simplesmente bombástico! o meu bem haja ao PINGO DOCE e a todos os funcionários que estiveram a trabalhar! Obgda Senhor Jerónimo Martins!
fico muito feliz por saber que existem muitas famílias que podem dar este mês aos filhos aquilo que secalhar nao podem dar no resto do ano, e que têm um mês muito mais descansado ! porque a promoção apenas englobava bens essenciais!! secalhar as pessoas qe estão descontentes, sao pessoas que nunca passarao por dificuldades
Acho que como consumidora devo expressar a minha opinião e AGRADECER ao PINGO DOCE pela promoção que fez hoje, posso dizer que fiz as compras em pouco mais de 2h e poupei 90€ o que significa que ganhei 45€ por hora. Para além disso só comprei produtos essenciais, que me enchem a despensa e me dá para o mês todo.
eu achei a iniciativa do pingo doce mto nobre! as pessoas e q n sabem o q e viver em sociedade nem sequer sabem o civismo dai as confusoes q exitiram… pq se as pessoas soubessem o q e isso saberiam q chega para todos!!!! e os q falam mal!!! q nao gostaram da iniciativa e pq provavelmente n sabem o q e passar necessidade e nao saber o q fazer para n faltar comida a quem depende de nos!!»
PS: Sobre o dumping, pensei honestamente que já ninguém levava a questão a sério. Mas pelos vistos, estava enganado.Dois textos interessantes sobre assunto: um de Thomas Dilorenzo e outro de Burton Folsom.
terça-feira, abril 24, 2012
Celebrar o quê?
O 25 de Abril é uma data complexa para a direita e mais ainda para a direita liberal. Uma data que assinala o fim de um regime tradicionalista, católico e colonial - isto é, de direita - e o início, para todos os efeitos, de um regime abertamente progressista, democrático e laico - isto é, de esquerda. Alguma confusão e algum exagero são, pois, praticamente impossíveis de evitar - como se pode comprovar por este texto do Ricardo Campelo de Magalhães.
Começando pelo princípio, o mais importante é isto: o 25 de Abril não foi uma revolução. Foi um pronunciamento militar, com um objectivo simples e directo: terminar a guerra colonial. Pura e simplesmente, e como se tinha podido observar pelo curto periodo marcelista, o regime não estava disposto a existir sem as colónias e, portanto, acabar a guerra incluia também o fim do regime. No 25 de Abril os militares, e nem sequer todos os militares, impuseram-se ao poder e este, com uma única excepção espúria, não se mexeu no sentido de preservar a si mesmo. O povo veio para a rua quando era já seguro, as balas não utilizadas deram lugar aos cravos, e em vinte e quatro horas um regime com quase meio século havia capitulado sem um pio.
Também importante: Salazar, e menos ainda Marcelo, não eram fascistas, nem o regime fora alguma vez fascista – e muito menos totalitário. Mesmo no cume da popularidade de Mussolini, em que o regime ensaiou algumas características estéticas do fascismo italiano, a verdade é que este nunca existiu em Portugal - a não ser que se defina fascismo como uma forma geral de despotismo de direita. O que existia em Portugal era um regime clerical e levemente corporativista (mas apenas no sentido usado para designar uma parceria do Estado com certos grupos económicos, não no sentido fascista italiano – não ser pelas manobras estéticas acima mencionadas). À parte a pobreza abjecta em que o cidadão comum vivia e, finalmente, a estupidez da guerra colonial (para defender uma colonização largamente inexistente), o regime não era especialmente duro para com o cidadão apolítico, ou até com a oposição de direita (e ainda mais a partir de Marcelo). Fundamentalmente, o regime limitava-se a reprimir como podia os opositores políticos que não ameaçavam apenas o regime mas toda a ordem social: os comunistas e, depois, todos os extremismos de esquerda que o revivalismo marxista gerou e que, em Portugal, se manifestou sobretudo numa oposição à guerra colonial similar à oposição americana à guerra do Vietname.
De resto, uma vez derrubado o regime, não havia grandes planos sobre o que se devia seguir, sobretudo da parte de quem fizera o pronunciamento. O MFA tinha um plano tão vácuo como as cabeças que o tinham originado e, verdadeiramente, só o PC tinha um plano definido sobre o que desejava fazer e sobre que regime nos desejava impor. Esse plano incluía, de facto, estabelecer em Portugal uma ditadura de tipo soviético. O PCP, com a colaboração de algum povo, ocupou o Estado e os tentáculos, nacionalizou os “monopólios” e os “latifúndios” e intimidou, pela mão dos sindicatos, algumas empresas. Mas o comunismo nunca foi uma ameaça real: tirando as classes baixas de Lisboa, o sul do Tejo e o Alentejo, o resto do país era tão ou mais hostil ao PCP do que tinha sido ao Salazarismo. A efectiva instauração do comunismo teria dividido o país – algo que nem mesmo o PCP desejava – e incluía transformar o exército numa força de repressão dos portugueses, como tinha sido uma força de repressão em África, e atirar o país para uma guerra civil, algo que só Otelo e poucos outros sequer ponderavam fazer. Os ataques generalizados às sedes do PCP no Norte e as manifestações dos moderados contra a extrema-esquerda em Lisboa, mostravam o carácter surreal do plano do PCP e o seu inevitável falhanço.
Daí a dizer que, se tal tivesse por milagre sucedido, seria «tão tirânico como o antecessor» vai, porém, uma grande distância. A tirania, se assim podemos chamar ao tradicionalismo seminarista de Salazar, não teria comparação possível com um presuntivo comunismo, este sim totalitário.
Finalmente, haverá alguma razão para se comemorar o 25 de Novembro? Também não. Há, de resto, ainda menos para comemorar do que o 25 de Abril. O 25 de Abril pelo menos acabou com a guerra e, apesar de tudo, não é possível imputar-lhe grande responsabilidade na prepotência que se seguiu, a não ser que se acredite na fantasia que a esquerda prega da "festa de Abril". O 25 de Novembro foi a definitiva (e, repita-se, inevitável) derrota das ilusões do PCP, mas não desfez quase nada do que o PCP tinha feito no período infame do PREC. As nacionalizações foram transformadas em privatizações de novo, mas os “latifúndios” não foram divididos como deveriam ter sido pelos seus legítimos ocupantes; os “monopólios” industriais voltaram também a mãos privadas, excepto que se trataram de novas mãos (dos arrivistas do momento, que se apoderaram do que puderam) e continuaram inviáveis. De resto, apesar da supostamente triunfante vitória de Novembro, Portugal transitou para uma social-democracia completamente dominada pela esquerda e, mais tarde, por uma direita que não se distingue da esquerda a não ser na retórica. Em geral, o 25 de Abril e o 25 de Novembro não transformaram o país: o corporativismo tradicional do salazarismo foi substituído pelo corporativismo do PS e do PSD, vinte vezes mais entrincheirado do que o anterior.
No conjunto, não se recomenda. A esquerda transformou o 25 de Abril num mito, decididamente de mau gosto, sobretudo porque serve para comemorar o PREC. A direita criou para si esse outro mito, o do 25 de Novembro, que inaugurou o socialismo democrático e que era o inevitável – e o inevitável não é necessariamente digno de celebração, sobretudo quando foi o que foi e é o que se vê.
quarta-feira, abril 11, 2012
Proibir e taxar: as únicas ideias do governo liberal do PSD
Fumar no carro com crianças vai ser proibido e Governo quer taxa de segurança alimentar para os supermercados.
Mais uma vez obrigado a todos os liberais que votaram e convenceram outros a votar neste liberalíssimo governo. Todos os dias temos provas de como valeu, e vale, a pena, apoiar o PSD.
segunda-feira, abril 09, 2012
Saudáveis à força
O governo prepara-se para perpetrar outro ataque contra os fumadores. Neste caso, para "diminuir a oferta". Isto junta-se aos impostos ridiculamente pesados, aos absurdos e paternalistas avisos nos maços e à proibição quase geral de se fumar em lugares públicos.
Isto demonstra duas coisas. A primeira é que, tal como nos outros assuntos, o governo também não é liberal no que à liberdade do uso do nosso corpo diz respeito. A segunda é que o governo está cheio de gente estúpida.
Diminuir a oferta, inclui diminuir a quantidade gigantesca de impostos pagos sobre o tabaco, o que não contribui para a tarefa de "equilibrar as contas pelo lado da receita" (que não é um bom princípio, diga-se, mas que é o princípio que o próprio governo procura, pelo menos em teoria, concluir).
Depois se o que o secretário de estado diz é verdade (o que é duvidoso, dado que quase todos os dados sobre os malefícios do tabaco são sobretudo propaganda) sobre 40% das mortes antes dos 70 anos são devido ao tabagismo, isso significaria que um aumento no número de fumadores seria a melhor coisa para as contas públicas que podia acontecer ao governo. O dinheiro que se poupava em reformas por morte prematura dava para equilibrar as contas também pelo lado da despesa.
No fundo, trata-se de nos tornar saudáveis à força, seja qual for o meio escolhido para o fazer. Todo este moralismo higiénico é nojento, tal como é nojenta a vontade de taxar tudo o que mexe. E é tudo menos liberal.
Uma coisa é clara: este governo não se distingue em nada de nenhum que o precedeu.
domingo, março 18, 2012
domingo, fevereiro 26, 2012
Sobre a nação e o nacionalismo.
"While
the State is a pernicious and coercive collectivist concept, the
"nation" may be and generally is voluntary. The nation
properly refers, not to the State, but to the entire web of culture,
values, traditions, religion, and language in which the individuals
of a society are raised. It is almost embarrassingly banal to
emphasize that point, but apparently many libertarians aggressively
overlook the obvious. Let us never forget the great libertarian
Randolph Bourne's analysis of the crucial distinction between "the
nation" (the land, the culture, the terrain, the people) and
"the State" (the coercive apparatus of bureaucrats and
politicians), and of his important conclusion that one may be a true
patriot of one's nation or country while – and even for that very
reason – opposing the State that rules over it."
Murray
Rothbard, National self-determination.
(O
excerto acima foi citado pelo Filipe Faria no Facebook, e este texto
era para ser um comentário, mas acabou por ser grande demais, daí
ser publicado aqui.)
Indo
directo ao assunto, o primeiro problema que tenho com a ideia de que
a nação é um conceito fundamentalmente voluntário é que,
frequentemente, a cultura, os valores, as tradições, e até a
religião e a linguagem, não sendo indissociáveis, são até certo
ponto (e por vezes bastante) influenciados pelo Estado que preside à tal nação e pelas suas actividades passadas. E o
próprio conceito de nação tal como existe não existiria, ou pelo
menos seria bastante diferente, sem a influência desse Estado e dessas actividades. Tal
como existe hoje, o conjunto de valores e tradições que constituem
a cultura nacional são em grande parte um reflexo e não podem ser
totalmente separados (sem desaparecerem total ou parcialmente) da
existência do Estado.
O
exemplo português, com os seus séculos de história e de
subsequente “identidade nacional”, serve de ilustração. Até
que ponto a nossa identidade nacional não está presa às
actividades estatais que forjaram parte dessa cultura e identidade, e
sem as quais a nossa cultura (ou seja, das pessoas que habitam o
território dominado pelo Estado português) seria outra, distinta?
Que
cultura e que história, de facto, nos une, como portugueses, do
Norte ao Sul? Que partilham os algarvios com os minhotos, mais do que
com outras localidades espanholas, a não ser a história, feita
pelas acções tomadas pelo Estado e que, como tal e só por isso,
englobam toda a nação? O que distingue a nação, pois, é desde o
início o que as decisões que os estadistas tomaram desde o momento
em que, pela força, claro, tomaram o território e incluíram as
populações que aí habitavam nessa nação.
Até
a religião e a língua, que certamente ocupam um lugar distinto e
continuariam a exercer uma influência exterior ao Estado na cultura,
não podem ser totalmente dissociadas do Estado. Sem a expulsão dos
muçulmanos, por exemplo, não teríamos um Portugal diferente, ou
haveria sequer Portugal? Teríamos todos, do Norte ao Sul, a mesma
língua, a mesma religião e os mesmos costumes de hoje?
Isto
leva-me ao segundo ponto: que é a do patriotismo, ou nacionalismo –
ou seja, o orgulho em ser de uma determinada nacionalidade. Nunca
entendi como alguém se pode orgulhar de uma arbitrariedade como ter
nascido num lugar da terra em vez de noutro. E, claro, é possível,
natural e benéfico gostar-se do lugar onde se vive, das gentes que
partilham connosco esse lugar, e das formas de vida que se pratica.
Mas
isso só muito dificilmente se traduz em, ou pode ser referido como,
nacionalismo. Um português que viva em Lisboa ou no Porto, é muito
mais lisboeta ou portuense do que português. Precisamente porque ser
português não significa nada, a não ser a língua e a história,
que se deve ao facto de um Estado ter forçado os nossos antepassados
a pertencer à mesma comunidade.
A
nação não é uma comunidade, no estrito sentido do termo, porque
engloba territórios que, naturalmente, não pertenceriam à mesma, a
não ser pela insistência do Estado. Sobretudo nos séculos
passados, em que a comunicação entre partes remotas de um país era
extremamente difícil senão mesmo nula, a comunhão de interesses e
costumes é um produto sobretudo artificial. Isto num país
relativamente pequeno como o nosso – quanto maior o país, a nação,
maior a disparidade entre a cultura dos vários sítios englobados
pela nação, e mais absurda e perniciosa se torna a invenção de
uma identidade comum onde ela, de facto, não existe.
Na
prática, claro, esta identidade nacional tem consequências e
influência na forma como pensamos e agimos e naquilo em que
acreditamos. Mas isso está longe de querer dizer que seja uma boa
influência e que gere boas consequências.
E
certamente que outros factores têm muito mais influência na nossa
formação do que a identidade nacional: a família que temos, os
amigos que arranjamos, os livros que lemos, a música que ouvimos, os
cafés e lojas que frequentamos, os vizinhos que temos. Em tempos
passados estas influências seriam ainda mais circunscritas pelo
lugar que habitamos. E hoje, existindo a internet, apesar de
continuarmos até certo ponto dependentes da comunidade onde vivemos,
e nunca deixaremos de estar, a identificação com a nação e as
suas fronteiras artificiais torna-se ainda mais espúria.
A
nação, e o nacionalismo, são portanto uma farsa. E, geralmente,
uma farsa perigosa, porque de alguma forma implica uma identificação
com um determinado grupo de pessoas – com os quais não temos
necessariamente interesses em comum – e uma distinção de outro
determinado grupo de pessoas – com os quais não temos
necessariamente interesses em conflito.
Claro
que o comunitarismo, à falta de melhor palavra que signifique a
identificação e o orgulho em pertencer a uma comunidade,
necessariamente pequena e territorialmente limitada, pode também
tornar-se perigoso pela mesma razão. Mas, em primeiro lugar,
torna-se difícil, por ser muito mais obviamente absurdo, por
exemplo, convencer a comunidade de Alfama que são a suprema raça ou
que a comunidade do Bairro Alto é maléfica.
Depois,
mesmo que se consiga convencer um bairro que o bairro vizinho é o
inimigo mortal, a proporção do conflito e da destruição será
muito menor.
E,
além disso, pelo menos a identificação não será totalmente
despropositada, porque terá de facto interesses comuns facilmente
identificáveis, e o orgulho não será totalmente fundado numa
arbitrariedade, já que em grande parte, qualquer pessoa pertencente
a uma comunidade, contribui para a sua formação e manutenção de
várias formas, algo que não acontece no que a uma nação diz
respeito.
terça-feira, janeiro 24, 2012
O pragmatismo desconstruído.
Na monarquia pragmática do Samuel, o Rei, não tendo poder (como não o tem o Presidente), tem autoridade (semelhante à de um Presidente perante o parlamento e o governo democraticamente eleito).
Até aqui, a superioridade do Rei é óbvia: tem fortuna própria (e com própria quero dizer: tem privilégios pessoais, não funcionais, ao contrário do Presidente, do Primeiro Ministro e dos restantes políticos) e logo não é, à partida, sujeito a pressões (financeiras e políticas) como os políticos (que adquirem o privilégio de viver à custa dos contribuintes pela arte da demagogia e por tempo limitado); isto significa que o Rei não terá o incentivo de se aproveitar da sua posição para enriquecer, adquirir estatuto ou ambos (já que, ambas as coisas, lhe são garantidas a título vitalício). De modo que o Rei não saqueará o país a todo o gás porque pode fazê-lo, de forma mais económica e menos destrutiva, ao longo de uma vida. Por isso, Rei-1, Presidente-0.
Isto, claro, é Hoppe 101.
Mas a monarquia constitucional não se fica por aqui. Já que, como o Samuel nos informa, a autoridade do Rei (tal como a do Presidente numa República) «está limitada ao estrito respeito pela constituição, que emana da Assembleia, que por sua vez emana do povo.» Aqui a fotografia começa a ficar desfocada: afinal, de que serve a autoridade independente do Rei se ela está limitada à constituição? Sendo a constituição produto do parlamento (e logo, dos partidos) não significa isto que a independência do Rei está limitada ao não-independente parlamento?
Ou seja: o Rei, independente de pressões, tem somente autoridade para fazer cumprir as directivas de um documento desenhado pelo parlamento e que este pode alterar mais ou menos a qualquer altura. A sua independência, pois, serve apenas para confirmar a vontade popular (supondo que ela está representada nas acções dos parlamentares).
Se o importante em política é limitar o poder de quem manda, então o Rei numa monarquia constitucional não serve. Em monarquia constitucional, quem limita o poder é... o próprio poder - isto é, o parlamento: ao desenhar a constituição e, possivelmente, convencer o Rei da sua suprema função como árbitro num jogo em que as regras foram feitas pelos jogadores. Em Espanha, em Inglaterra ou na Bélgica, o resultado está à vista.
Mesmo assim, admito que seria preferível ter um homem simpático como o D. Duarte a chatear-nos de vez em quando na televisão do que o arrivista-mor de Boliqueime. O pior é que o homem de Boliqueime poderia, e pôde, chegar a Primeiro Ministro, com ou sem D. Duarte, e fazer estragos que nenhum Rei constitucional poderia evitar ou limitar.
A monarquia constitucional não passa, pois, de um arranjo cosmético. Não admira que o Rei e a família real sirvam fundamentalmente para ornamentar as páginas das revistas de sociedade e lembrar aos plebeus que o mau gosto também ocorre em seres de sangue azul.
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