terça-feira, junho 07, 2011

Em defensa dos abstencionistas pragmáticos.

4 comentários:
Entre os abstencionistas, existem os ideológicos e os pragmáticos. Os abstencionistas ideológicos não votam por quatro ordens de razões, que podem ser combinadas ou mantidas em separado: 1) nenhum dos partidos concorrentes representa as visões do eleitor; 2) o prospecto de influenciar o resultado da eleição ou as políticas do governo eleito é pouco ou nenhum; 3) ser-se contra o sistema democrático em si; 4) apesar de não ser contra o sistema democrático, o eleitor não aprova o sistema democrático tal como ele existe no momento da eleição (esta categoria inclui os que estão desiludidos com os partidos e com os políticos e que, por isso, não votam)). Os abstencionistas pragmáticos são os que simplesmente não querem saber das eleições para nada, aqueles a quem os políticos e a política não lhes aquece nem arrefece. Embora seja um abstencionista ideológico (tipo 1-2-3), pretendo defender a posição do abstencionista pragmático.

Existem várias razões para o fazer, de resto. É este tipo de abstencionista que é mais vilificado e desprezado pelas mentes brilhantes que nos pastoreiam; é sobretudo a este que as críticas dos sabujos democráticos se referem quando acusam os abstencionistas de não se interessarem pelo processo político, pelos destinos da nação ou pelo bem do povo - dependendo de ser do centro, da direita ou da esquerda. Além disso, e embora não haja sondagens sobre isso, tendo a acreditar que a grande maioria da abstenção se inclua neste grupo, e não no grupo dos abstencionistas ideológicos.

O primeiro facto positivo a notar sobre os abstencionistas pragmáticos é que, apesar dos anos e anos de propaganda escolar e mediática oficial a que foram sujeitos, estes verdadeiros heróis nacionais não foram infectados pela reverência servil pelo sistema eleitoral, nem se deixaram iludir sobre a “importância” da coisa. Este suposto egoísmo e falta de “espírito de cidadania”, que tantas náuseas causam sobretudo aos esquerdistas, é de facto de aplaudir. Dado que o espectro político da nossa democracia vai da democracia social à social democracia passando aqui e ali pela nacionalização dos meios de produção, a decisão de não participar em eleições, mesmo que seja apenas porque não quer saber disso para nada, significa que estas pessoas preferem viver a sua vidinha quotidiana, fazerem aquilo que lhes apetece, em vez de sancionar e escolher uma forma qualquer de socialismo que os partidos lhes queiram impingir. Se, como dizia o Mencken, uma eleição é um leilão prévio de bens a serem roubados no futuro (e dado que só temos partidos socialistas), não participar nas eleições, mesmo que por razões triviais e mundanas, significa não colocar as mãos na sujeira.

Implícito na decisão de não votar e fazer a sua vida como se nada se passasse está o facto de que cada um dos abstencionistas pragmáticos considera a sua vida pessoal e as coisas miudinhas que a animam mais importante do que o teatro da “mudança das moscas” e a insistência em não ser incomodado pela manutenção da porcaria. Ao contrário dos exemplares cidadãos que se arrogam o direito de ter algo a dizer sobre a vida dos outros ao participar no processo político, com os abstencionistas pragmáticos não há essa presunção: pelo contrário, se há alguma filosofia subjacente à atitude, ela é a do “cada um sabe de si e Deus sabe de todos”. É uma atitude anárquica e completamente do contra.

Outra maravilha, esta um pouco colateral, é que os abstencionistas pragmáticos enchem os políticos e os seus cãezinhos mediáticos de medo. A atitude abstencionista declara aos políticos que a sua farsa vã e a sua ilusão de grandeza não passam disso mesmo, e que a sua legitimidade é na verdade usurpada. Quando 41% da população decide ficar em casa, sabemos que o papaguear dos idiotas úteis está a perder o seu efeito entre a populaça, que esta se torna a cada ano mais iconoclasta e menos reverente.

A maravilhosa percentagem da abstenção nestas eleições é o triunfo da vida e da liberdade individual sobre o lamaçal da política, e cada abstencionista pragmático é um anarquista em potência.

Subscrevo.

Sem comentários:
«Quando as escolhas são apenas de votar na esquerda ou na extrema-esquerda. Quando ainda por cima a extrema-esquerda parece revelar mais bom senso sobre assuntos importantes que a restante esquerda parlamentar eu não posso ter outra opção que não seja ficar em casa, recuso-me a legitimar a solução governativa (esperada) que saiu das eleições e muito menos iria legitimar a triste oposição que calhou a este governo. Não sei dos restantes milhares de portugueses que optaram por não votar quantos pensam como eu mas sei que não sou o único e sei que são cada vez mais – do grande número de abstencionistas que conheço pessoalmente a grande maioria não se identifica com a esquerda ou extrema-esquerda. Apenas mais um sinal da morte (lenta) anunciada da 3ª República, os políticos que continuem a justificar a sua legitimidade através da meteorologia, mas não metam palavras na boca dos 41% que conscientemente disseram “nenhum de vocês vale uns minutos do meu tempo”.»

Nuno Branco, aqui.

segunda-feira, maio 30, 2011

RE: O Estado Natural da Escravatura.

3 comentários:

1- O ideário político ancap faz-se, especialmente, contra os fundamentos do Estado Moderno. Apenas no contexto de um estado moderno podemos observar as tendências democratizantes e socialistas que tanto o blogue do Rui como o meu atacam.

Não é verdade que o anarco-capitalismo seja especialmente contra o Estado Moderno (ou seja, contra a democracia mais do que contra outras formas de Estado – embora uma má leitura do Hans-Hermann Hoppe sobre o assunto possa fazer pensar que sim). A verdade é que o anarco-capitalismo salienta que todas as formas de Estado violam o direito natural à propriedade sobre o próprio corpo e sobre recursos apropriados ou contratualmente adquiridos e que são desvios da ordem natural de produção e transacção – acontece, simplesmente, que 1) vivemos numa era democrática e, logo, é mais urgente atacar a democracia do que outras formas de Estado; e 2) a monarquia é menos parasítica e menos afastada do ideal ancap de privatização total. No entanto, a monarquia sofre dos mesmos problemas inerentes a qualquer Estado, apenas num grau inferior e menos destrutivo do que os governos democráticos.

2- A origem da escravatura é anterior à fundação deste- logo, do ponto de vista histórico, temos de ver os fundamentos desta instituição a uma luz diferente daquela causada pelas consequências da acção do Estado pós-revolucionário.

Tendo em conta o comentário acima (de que o anarco-capitalismo não é especialmente anti-democrático, mas sim anti-estado e, por ser anti-estado, tem de considerar a democracia pior desse ponto de vista, dado que permite maior poder e mais arbitrariedade no uso dele), este ponto não é válido.

3- Assim sendo, podemos considerar que, num Estado Natural - pegando em Hobbes - a escravatura seria possível.

Mais uma vez, um argumento que parte da premissa do primeiro ponto e, logo, sendo a premissa enviesada e em larga medida falsa, por muito que seja deduzível dela, não é válido. De qualquer das formas, não fica claro o que se entende aqui por escravatura. Porque se pensarmos que a escravatura envolvia formas de cooperação (entre donos de escravos, por exemplo) então a escravatura como tal, segundo Hobbes, não poderia existir num “estado de natureza”. E, antecipando o ponto seguinte, o ideal ancap não é um retorno ao “estado de natureza” - é uma refutação desse conceito. Ou seja, é a tentativa de provar que pode existir cooperação sem Estado. Assim sendo, é possível dizerem: “mas nesse caso, é então possível haver escravatura – que implica formas de cooperação – num mundo ancap”. Já lá vamos.

4- Como? Os valores Liberdade, Propriedade, e Paz podem facilmente devorar-se. Numa sociedade onde não existam imperativos morais além destes um homem pode escolher escravizar-se para pagar uma dívida ou porque, simplesmente, não aguenta a pressão de ser uma adulto responsável. Da mesma maneira que dispões do seu corpo de forma irrestrita - aborto, suicídio assistido, etc. - não existe garantia nenhuma, dada por ancap nenhum, que um caso destes não pudesse acontecer. É apenas uma forma livre - Liberdade - de dispor do que é seu - Propriedade - para não perturbar a ordem social vigente na dita comunidade – Paz.

É neste ponto que surge mais uma vez a mistificação, propositada ou acidental, daquilo que os ancaps propõem. Nenhum ancap propõe que uma sociedade sem Estado deva ter apenas esses três “imperativos morais” - dado que tal é impossível. Sem imperativos morais anteriores, digamos bíblicos, esses três não existiriam ou fariam sentido. Por outro lado, é perfeitamente possível que uma associação de proprietários imponha imperativos morais absolutos rígidos (imaginem um grupo de proprietários católicos, por exemplo) – claramente, neste grupo, seria impossível dispôr da sua propriedade de forma irrestrita (a diferença em relação ao Estado, é que essas restrições seriam voluntariamente reconhecidas e os proprietários submeteriam-se a elas de livre vontade). Falando em vontade, eu não acredito na possibilidade de “escravatura voluntária” - e que eu saiba só o Walter Block defende a sua possibilidade – porque só é possível vender e comprar algo físico e escasso. A “vontade” ou “livre-arbítrio” não preenche os requisitos. Por outro lado, é possível que – para pagar uma dívida ou, o caso que o Walter Block oferece, para obter dinheiro para salvar o filho com uma doença rara – um homem possa fazer um contrato que pareça escravatura. Porém, isso não será escravatura por duas razões (e aqui argumento também contra o Walter Block). Em primeiro lugar, pelo facto de ser celebrada por contrato entre o “escravo” e o “dono” - e dado que a propriedade não formula contratos com o proprietário, estamos perante um caso não de escravatura, mas de uma forma particular de serviço (que pode implicar não ser pago, ou ser chicoteado, mas ainda assim não se trata de escravatura – afinal, existem estágios não remunerados e existem igualmente pessoas masoquistas). E em segundo lugar, um tal contrato (que implica longa ou indefinida duração) teria de ter, necessariamente, uma “exit clause” - uma estipulação prévia que permita a ambas as partes salvaguardarem-se. Porque não é possível vender o livre arbítrio e existe sempre a possibilidade de ambas as partes querem pôr termo ao contrato. Ou seja, embora uma definição muito pouco rigorosa de escravatura possa sugerir que esta possa existir numa sociedade ancap, a verdadeira escravatura não existiria legalmente.

Sobre os tradicionalistas não se conformarem e se tornarem contrarrevolucionários, acho óptimo (embora eu tivesse a ideia contrária). Ainda assim, isso corrobora a minha afirmação de que, para defenderem o tradicionalismo, devem, face à revolução, tornar-se revolucionários (embora na direcção contrária e apenas como reacção à revolução).

Sobre o jusnaturalismo, fico então à espera.

Sobre a “barreira”: isso implicaria que liberais-democratas, hayekianos e democratas-cristãos têm apenas um valor – o status quo. Ora, tal não é verdade. Verdade é que se prendem à defesa do status quo (como se fosse o único valor) por ser a única forma de sustentarem as suas teorias internamente contraditórias e de lhes darem a aparência de coerência. Não me parece que se o status quo mudasse agora para um mundo ancap eles se tornassem ancaps só porque o status quo mudou – embora, pela defesa que eles fazem do status quo como tal, devessem a bem da coerência fazê-lo (mas a “coerência lógica não é necessária para anti-racionalistas”).

quinta-feira, maio 26, 2011

RE: contrarrevolução

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Manuel, agora já nos estamos (mais ou menos) a entender. Um exemplo que corrobora a sua observação é, por exemplo, a passagem de um sistema monárquico para um sistema democrático... dentro da monarquia (Inglaterra, por exemplo). Isso para mim é um exemplo de ruptura reformista, digamos. Um exemplo de mudança revolucionária (sem verdadeira ruptura) será talvez o 25 de Abril. Isso, porém, não põe de parte a minha crítica ao excerto, só o exclui a si e à sua posição da minha crítica (porque, de facto, esta sua nova perspectiva afasta-se muito do "a tradição é antiga porque é boa, e é boa porque é antiga, e por aí adiante".

Sobre o personalismo/individualismo eu não lhe estava a descobrir a careca, nem achei que estava. Estava simplesmente a gozar consigo, porque claramente aquilo de que me acusava no texto era apenas por ser eu (o seu oponente) a usar o termo "indivíduo", não exactamente porque o uso da palavra fosse motivo para um argumento sério. Não era, e continua a não ser, uma crítica válida - seja quais forem as voltas que dê. É só uma forma de descartar o meu argumento sem o refutar.

Quanto a usar a mesma crítica para o tradicionalismo que para o conservadorismo, não é bem verdade e não precisa de me chamar a atenção que eu sei o que escrevo (mas aparentemente o Manuel também sabe o que eu escrevo, e fico contente por ainda se lembrar desse texto). O que eu disse, de resto, é que o tradicionalismo, quando chega a hora da acção, tem de se decidir por uma das suas premissas (evitar a ruptura ou defender valores absolutos). E critiquei o facto de, muitas vezes, preferirem evitar a ruptura (reformista ou revolucionária), e critiquei-o utilizando os mesmos argumentos (porque a posição é a mesma). O que não quer dizer que seja o seu caso, e esta nova resposta prova que não é. Mas isso quer dizer que o excerto citado não era uma pérola assim tão grande.

Achei muita piada a dizer que só existe UMA diferença entre um conservador do status quo e um anarquista jusnaturalista como eu. Gostava que elaborasse, para me rir mais um bocadinho.

Duas outras coisas que também gostava que me explicasse: 1) porque é "natural" manter a escravatura numa ordem natural; e 2) desde quando é que os ancaps dizem que o Direito Natural se lê nas estrelas e é o que parece "natural" a cada um. 

Isto, a meu ver, trata-se mais uma vez de cheap shots a passar por argumentos que não lhe apetece ter ou para os quais não vê nenhuma saída a não ser a concordância (que a mim não me incomoda, mas a si parece incomodar) - é outro exemplo do caso "indivíduo/pessoa". Agora, é legítimo não lhe apetecer. Apenas não é muito honesto declará-lo desta forma.

Mas admito que a culpa seja minha. Fui eu que me meti consigo. Mas é que já estava cansado de esperar pela resposta distributivista.

segunda-feira, maio 23, 2011

As instituições do presente não são boas por existirem, existem por serem boas (ou uma qualquer outra variação do soundbite do "porque sim")

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Ora bem, mas se o tradicionalista age "contrarevolucionariamente" depois de uma revolução então não estará a «romper com os antecedentes morais que são o fundamento de uma dada sociedade» (a nova, revolucionária?) - ou seja, não estará a engajar numa actividade de ruptura, em vez de continuidade? É óbvio que sim. Mas se sim, então a continuidade não é um valor em si. Pelo contrário, reconhecendo que é possível desviarmo-nos dos valores tradicionais (e observando a sociedade presente, temos de admitir que sim) então a continuidade não é solução e a ruptura surge como o único caminho.

E se «As instituições do passado não são boas por serem antigas, mas são antigas por serem boas» devemos então, por exemplo, reinstaurar a escravatura, uma das instituições mais antigas da humanidade? Afinal, se é uma instituição antiga, então é porque é boa, porque se não fosse boa, não era antiga (e assim sucessivamente até o cérebro ter congelado e parado de pensar). Esta é a grande teoria da prática dos valores morais tradicionais?

Deveria ser óbvio que a posição sobre ruptura ou continuidade para alguém que acredita em valores tradicionais (e acho que podemos dizer que, com isto, referimo-nos ao direito natural e à moral religiosa) não é, nem pode ser, uma posição fixa (sempre pela ruptura ou sempre pela continuidade). Pelo contrário, dependendo do estado das coisas, um "tradicionalista moral" deve defender a continuidade (caso os valores tradicionais sejam observados) ou defender a ruptura (caso não sejam). É tão simples como isso.

PS: ler Marx não é um problema. Problema é levá-lo a sério quando se tem mais de quinze anos.

domingo, maio 22, 2011

Bater no ceguinho

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Só para não perder o hábito e o treino, decidi chatear o Manuel Rezende outra vez - comentando o excerto que ele designa como uma "pérola" (os negritos são do Manuel). Ora vejamos:

«A atitude tradicionalista distingue-se da conservadora por não ser hostil às inovações políticas, sociais, individuais ou grupais. Enquanto o espírito conservador tem uma atitude que se caracteriza pela deliberação em manter a ordem social, política ou económica existente, o espírito tradicionalista é aberto à mudança e pugna frequentemente pela mudança. A mudança, porém, deve realizar-se sem romper com os antecedentes morais que são o fundamento de uma dada sociedade. O tradicionalismo reage normalmente de forma negativa às revoluções, em especial aquelas que pretendem fazer tábua rasa do passado e do fundamento moral que constituiu uma dada sociedade.»

Mas se uma revolução suceder (como a "revolução democrática"), tendo por isso rompido os valores morais tradicionais (ou, diremos, o direito natural), então o tradicionalista encontra-se entre a espada e a parede – e ou se torna conservador (defende o produto da revolução, o novo status quo) ou se torna, em nome dos valores tradicionais, num revolucionário, necessariamente interessado em romper com os valores presentes (não tradicionais) de uma dada sociedade.

«Para o tradicionalista, deve ser a história, e não as nossas predilecções doutrinárias, o melhor guia na determinação dos regimes políticos. Se uma dada instituição, como a Instituição Real por exemplo, foi derrubada, é decerto contraproducente tentar voltar atrás e reerguê-la tal como existia, mas deverá ser observado se a função que essa instituição desempenhava encontrou um substituto capaz.»

Porém, a única forma de conceber, quanto mais conseguir, um substituto capaz em vez de ressuscitar um cadáver é fazendo-o, diremos, à revelia da História – e com isto quero dizer, com teoria. A única forma de fazê-lo é, pois, analisar a História do ponto de vista de uma teoria, seja consciente ou insconsciente, correcta ou errada – é discernindo relações de causalidade. Ou seja, é a História à luz de “predilecções doutrinárias”. Simplesmente não existe outra forma.

quarta-feira, maio 04, 2011

Breve comentário

2 comentários:

O mercado fornece aquilo que é procurado - ou seja: o que os consumidores mais desejam é também aquilo que gera mais lucro, criando pois o incentivo para o fornecer. Se a grande maioria dos consumidores são imorais, hedonistas, etc, então o mercado irá fornecer em grande medida produtos imorais e hedonistas. 

Por outras palavras, o processo do mercado é neutro quanto às motivações e desejos dos consumidores. A única coisa necessária para que o mercado forneça aquilo que é moralmente saudável é, go figure, mudar a moralidade das pessoas. Admito que seja um processo complexo e demorado. Mas há-de ser melhor do que abolir pela violência o meio pelo qual a grande maioria das pessoas obtém os requisitos necessários para que que possam fazer qualquer escolha moral (comida, roupa, abrigo, etc.).

Adenda: essa solução de abolir o mercado por causa das escolhas moralmente erradas da maioria dos seus participantes, implica que a opção moral certa não é suficientemente persuasiva para ser adoptada - e logo, que é necessário acabar com os meios porque se é incapaz ou se acha impossível alterar (para o bem) os fins. É uma posição totalmente derrotista.

terça-feira, maio 03, 2011

A teoria ouroboros e as perguntas sinceras.

10 comentários:
(uma espécie de resposta a estas perguntas)

É difícil responder porque faz perguntas que não fazem sentido na framework do anarco-capitalismo, ou pelo menos do anarco-capitalismo que eu exponho. As perguntas não são, por isso, justamente direccionadas a Rothbard e a Hoppe porque utilizam termos e premissas que os austro-anarquistas não aceitam (como teóricos económicos e como teóricos éticos-políticos). Mas se não é possível respondê-las a partir do anarco-capitalismo, é pelo menos possível comentá-las.

Primeiro, os discípulos de Mises que são anarquistas (Rothbard e Hoppe, maioritariamene), são-no em conflito com a visão política do mesmo Mises. São apenas discípulos no que toca à teoria económica e praxeológica – que incorporam na sua outra filosofia política anarquista, oposta à perspectiva “liberal clássica” de Mises.

Depois o Nuno escreve «Liberdade, pois, quanto a quê ou a quem? Dirão, se estou certo, que falamos da liberdade quanto ao Estado ou a qualquer outro organismo de regulamentação da economia.» Está, infelizmente, errado.

De forma nenhuma as preocupações de Rothbard ou Hoppe como anarquistas, se limitam à interferência em assuntos económicos. São teorias de ética-política, não de cataláctica. mas como a praxeologia, origem da cataláctica, oferece também insights fundamentais para qualquer teoria política que são igualmene importantes para a cataláctica - além de que a grande maioria de ancaps são economistas ou têm um entendimento de economia acima da média - existe essa tendência desinformada ou maldosa, conforme os casos, de descartar os ancaps acusando-os de materialismo explícito ou implícito (que além de não ser verdade, é de alguma forma difícil de acreditar dada a existência de inúmeros ancaps religiosos - e logo filosoficamente não-materialistas). Mas, como lhe digo, a teoria praxeológica é, em certo sentido, a exacta refutação do materialismo. Podemos, claro, conversar sobre isto.

Quanto à “defesa nacional”. Hoppe tem vários ensaios sobre o assunto (que expandem e clarificam, além de sistematizarem, as propostas originais de Rothbard quanto à natureza da produção de segurança e a forma como, também na produção desse bem, a propriedade privada, a competição e a divisão do trabalho, são os objectivamente melhores meios para satisfazer a necessidade de “defesa nacional”.

Já lhe aconselhei leituras. Volto a aconselhá-las, porque o último parágrafo denota que, embora aconselhado, o Nuno resolveu não aceitar o conselho.

E não, o austro-libertarianismo não é um ouroboros.

segunda-feira, maio 02, 2011

RE: distributivismo, capitalismo, etc. (II)

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Sabemos que o desespero é grande quando vemos direitistas dos quatro costados citar Marx. Tudo, afinal, serve para criticar o “capitalismo selvagem”. Enfim.

Atentemos nesta frase: «Onde impera o personalismo católico queremos pessoas, não indivíduos.» Isto pode significar duas coisas: ou o Manuel está propositadamente a querer empatar a conversa, ou acredita que o meu argumento não poderia ser feito se, em vez de “indivíduo”, eu escrevesse “pessoa”. Ambas as hipóteses são absurdas. Mas como o Manuel é uma pessoa inteligente, posso apenas concluir que está elegantemente a empatar lançando apenas uma farpa. Passemos, então, à frente.


«A principal inovação do capitalismo foi inventar a guerra de classes. Isto começou obviamente devido à sua inerente fixação pelo lucro » Mais uma vez, fica-se sem saber o que se entende por capitalismo. O que eu entendo é: um sistema de propriedade privada, de divisão do trabalho e especialização em estado relativamente avançado. Ou seja, se existe “fixação” ela já estava presente para ter gerado o estado “avançado” onde antes era apenas atrasado, simplesmente agora, presumivelmente, é condenável porque um patrão manda em dez mil, em vez de dez, empregados. Mais uma vez: absurdo.

Mais: não existe qualquer fixação pelo lucro, apenas no sentido em que qualquer pessoa (reparem, pessoa) quer o melhor para si e para a sua família. Poupar, investir, empregar são acções geradas pela procura de lucro, não só monetário, como psicológico. E de novo, estas características estavam igualmente presentes no passado, apenas não havia ideias ou fórmulas para aplicar as poupanças da forma tão produtiva como posteriormente. Mas se o Manuel e companhia pretendem uma sociedade onde as pessoas (reparem, pessoas) não procuram o lucro monetário, mas apenas o bem do próximo, então de facto devem contentar-se em citar Marx e levantar o punho em protesto.

(um aparte: mesmo quando se pratica um acto altruísta, a razão para o fazer não é rejeitar o lucro pessoal em nome do bem estar alheio. Pelo contrário, o bem estar alheio constitui o lucro do altruísta, ou pelo menos constitui um lucro psicológico superior ao seu próprio lucro monetário. Além disso, num hipotético mundo onde não exista escolha entre servir-se a si mesmo ou ao próximo, a escolha moral deixa de ter qualquer significado ou valor.)

Voltando às classes. Depende do conceito de classe. Podemos falar de níveis de riqueza – e nesse sentido o capitalismo não criou as classes. Os monarcas, imperadores, etc. sempre foram de uma classe diferente da do resto da população (muito mais do que os capitalistas alguma vez foram ou serão). E o conflito de classes era perene, sendo que monarcas e imperadores, que o Manuel – pelo que sei – admira, dado que a riqueza dos monarcas e imperadores era confiscada aos não-monarcas. Logo, o capitalismo não criou a luta de classes.

Será, então, uma questão de castas? Não, porque os capitalistas não são uma posição de nascimento, são pelo contrário uma classe a que é possível aceder através de poupança, investimento e boa previsão do estado futuro da procura e oferta no mercado. Logo, o capitalismo, pelo contrário atenuou – em vez de criar ou intensificar – a luta de classes. Não só porque é possível a uma pessoa (reparem, pessoa) que nasça pobre tornar-se capitalista, mas porque ao actuar como capitalista, a pessoa (reparem, pessoa) levanta o nível de vida dos não-capitalistas, em vez de, como os monarcas que o Manuel admira, confiscar a riqueza alheia.

«Esta mediocridade de homem, este semi-letrado arrogante que não goza de 20% da liberdade do seu antepassado de há seiscentos anos atrás, tem a barriga cheia e as vacinas em dia. Que bom. Quando as tem

Manuel, o que precisa de entender é que é possível ser letrado, mais livre que há seiscentos anos atrás e ter a barriga cheia e as vacinas em dia. Sabe como? Através, adivinhe, do sistema capitalista. O Manuel vive na ilusão de que o sistema capitalista necessita do Estado para existir. E das duas uma: ou o Manuel define o capitalismo até ao ponto em que significa tudo aquilo de que não gosta do sociedade moderna (e aí convido-o a juntar-se ao BE) ou então aceita a definição de que o capitalismo é um sistema de propriedade privada (e da disposição livre da mesma) e logo está permanentemente e por definição em conflito com a própria ideia de Estado (monopolista territorial de lei e ordem, com o poder de expropriar a propriedade alheia).

Quanto ao suposto problema do “longo prazo” que os austríacos supostamente não tratam, aconselho-o a ler o Rothbard ou o Hoppe (ou até não-austríacos como David Friedman). E até existem dois exemplos, muito privados e medievais, de como o longo prazo é tido em conta (muito mais do que sob um Estado): a lei mercante e o sistema de lei competitivo da Islândia.

«Se a vontade é o elemento preponderante num contrato, e um homem pode contratualizar sobre o mesmo bem várias vezes na sua vida, quem nos diz qual das suas vontades deve ser atendida, senão a limitação do livre-arbítrio? » Ou o Manuel não entende o que é um contrato e os seus termos (coisa que eu não acredito), ou então está apenas a mandar o barro à parede a ver se pega. O exemplo do casamento, então, é particularmente ridículo – porque, naturalmente, dependendo do sistema legal a que a pessoa (reparem, pessoa) subscreve, da comunidade em que está inserido, etc., o resultado será muito diferente. No caso do Manuel, que provavelmente escolheria uma teocracia católica, evidentemente nem haveria segundo casamento. O Manuel devia pensar era nos não-católicos, que também têm o direito de viver e seguir as suas regras religiosas, ou mesmo não-religiosas (chocante, eu sei).

Existem juristas entre os austríacos. Mas isso nada tem a ver com nada. Resta-me concluir que o Manuel não compreende as implicações mais profundas do anarco-capitalismo, que em nada consistem em abolir uma decisão última em termos legais ou a autoridade em si (eu, e os anarquistas mais à direita, tendemos a acreditar que resultará num fortalecer da autoridade e da legalidade).

E já agora, acho que só os left-libertarians e os hayekianos é que acreditam numa natural coordenação das vontades. Precisamente por isso é que é necessário a definição e respeito pelas fronteiras da propriedade privada, não só porque é o que é justo, mas porque é o único sistema que evita conflitos interpessoais, precisamente pela natural propensão para o conflito de vontades. Ou seja, essa crítica não é dirigida a mim nem à minha vertente de anarquismo.

Um último ponto: o Manuel esquivou-se à pergunta fundamental. Que é a de como atingir o ideal distributivista. Eu digo que só pode ser conseguido com a expropriação sistemática da propriedade alheia e a imposição de poder (ou seja, a usurpação de autoridade).

sábado, abril 30, 2011

A ler:

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Elogio da revolta, por Pedro Bandeira.

RE: distributivismo, capitalismo, etc. (I)

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Não sei onde é que o Manuel leu a minha acusação de preguiça ou o meu amor incondicional por John Galts. No meu texo é que não foi, e desafio-o a citar-me (coisa que, dada a impossibilidade de provar o que disse através de citações, obviamente não faz). Basta dizer que não usei a palavra, o conceito ou sinónimos de preguiça nem os atribuí de forma alguma ao Manuel, aos seus colegas ou a católicos em geral; e digo, para quem não souber, que não gosto particularmente da filosofia (política e a outra) da Ayn Rand, e muito menos da sua idealização fútil do empresário-herói e da “minoria mais oprimida” (big business). Mas adiante.

Volto então a reiterar duas posições que são indissociáveis da minha, mais geral, posição sobre a ordem social. Primeiro, que é perfeitamente possível (embora improvável) que uma ordem natural (também chamada “sociedade de lei privada” ou “anarco-capitalismo”) gere um mundo perfeitamente distributivista. O que é necessário é entender que um tal mundo não poderia sustentar a corrente população mundial. Mas é possível que as escolhas voluntárias dos indivíduos (ou, para não embarcarmos em discussões semânticas fúteis, pessoas) deixadas em paz e em liberdade para disporem dos seus recursos gere uma tal sociedade e uma tal diminuição da população mundial. E que, embora seja defensor da industrialização (demoníaca, claro), não sou a favor de industrialização forçada (por meio do Estado e da violência).

Segundo, a escola austríaca é primeiramente uma escola de pensamento económico, mas o trabalho de Mises, de Rothbard e de Hoppe inclui também uma vertente não cataláctica (do estudo da acção enquanto tal, e não apenas do estudo dos fenómenos económicos). Mas é até curioso que o Manuel acuse os austríacos (sempre bastante cuidadosos na sua interdisciplinaridade e sublinhando sempre a limitação dos seus estudos) quando a sua recém-adquirida filosofia política é, em si, uma tentativa de aplicação do catolicismo ao reino (integrado mas contido e separado) da política e da economia. Como pessoa religiosa, tendo a ser crítico desta sobre-interpretação dos assuntos divinos para decidir e opinar assuntos que são essencialmente científicos (economia e política), embora, como disse, integrados na moral religiosa, como tudo o resto na vida. Acho que essa sobre-interpretação é não só errónea como prejudicial à vivência da religião em si. Mas por muito que tente fugir a este estigma, é difícil quando se discute com distributivistas, porque é precisamente isto em que consiste a sua filosofia e atitude. Se existe uma economia católica, porque não arquitectura católica? Ou será que as catedrais foram construídas com um conhecimento exterior aos ensinamentos da Igreja, sem no entanto constituirem uma afronta aos mesmos? Tudo isto para dizer que a acusação do Manuel de que a escola austríaca opina, sob a sua lupa limitada, sobre tudo e mais alguma coisa é, além de falsa, ridícula vinda de quem estabelece para si critérios que, no fundo, consistem naquilo de que acusam os outros.

Quanto às “refutações” dos meus argumentos temo bem que a má representação do que eu escrevi continue. Ora vejamos:

Eu nunca escrevi que não existem formas de acção e cooperação além da obtenção de lucro monetário (embora, praxeologicamente, toda a acção procure obter “lucro” – ou seja, obter um resultado mais satisfatório do ponto de vista do actor - que pode ser, e na grande maioria dos casos é, puramente psicológico e moral, e não monetário). Apenas escrevi, e volto a escrever, que a única forma de haver cooperação entre milhões de pessoas é através do mercado – dado, precisamente, o personalismo que o Manuel usa como objecto de arremesso contra tudo o que não lhe agrade. O que o Manuel entende por sociedade acapitalista não se sabe o que seja, porque aparentemente a palavra capitalista serve, como para os esquerdistas, para descredibilizar tudo e o seu contrário. Pedia-lhe, pois, que definisse capitalismo nos seus termos para eu poder discutir seriamente sem ser acusado de escrever coisas que efectivamente não escrevi.

No segundo ponto, mais uma vez, não sei a que se refere como “pensamento capitalista”, nem eu sugeri aquilo que penso que está a dizer que sugeri. Por isso, peço outra vez clarificações.

Quanto ao uso do Estado por parte de “grandes capitalistas” para invadir a propriedade de “pequenos capitalistas”, o Manuel já devia saber a minha opinião, dado que sou anarquista. Naturalmente, considero ilegítimo, condenável e repulsivo. Mas, e mais uma vez, nem toda a industrialização foi assim conseguida nem é necessário que assim seja. É apenas o processo natural de intensificação da divisão do trabalho e o processo pelo qual as pessoas escapam à miséria. Quanto aos “preços baixos” de que fala, o Manuel devia aprender o que é “produtividade marginal” para não se embaraçar publicamente com esse tipo de argumentos. E ainda, o “controlo sobre a própria alimentação”, é uma obsessão que eu não entendo. A forma mais simples e “económica” (uma palavra herética, parece) de um pintor, de um escritor ou de um carpinteiro obterem alimentos não é produzindo-os eles mesmos, mas trocando o seu trabalho por um meio de troca (dinheiro) e voltando a trocá-lo por alimentos – não só porque, se fossem eles a produzi-los, não teriam tanta variedade ou qualidade; mas além disso, seguindo o raciocínio até à sua consequência lógica, não haveria pintores, escritores ou carpinteiros, dado que seriam obrigados a ser agricultores. Se alguma coisa permitiu o avanço moral, cultural e material da humanidade foi o facto da maior produtividade do trabalho permitir uma maior especialização fora da agricultura (ou seja, fora dos meios de subsistência em si mesmos) – razão pela qual sociedades primeiramente agriculturais não geram grandes poetas ou grandes compositores.

Quanto aos argumentos “materialistas” dos “austríacos” - se o Manuel tivesse lido as primeiras cem ou cento e cinquenta páginas do Human Action sabia certamente que estava a dizer uma parvoice de todo o tamanho.

Mas acho especialmente engraçada a interpretação enviesada que liga a industrialização (em si, e não os meios estatistas pela qual, muito possivelmente, foi feita) aos males morais da humanidade. Quem o lê pensa certamente que eu sou um fervoroso defensor de doenças venéreas e do divórcio. Ou da democracia. A isto chama-se, em bom português, pure nonsense. O Hans-Hermann Hoppe explica a proliferação desses comportamentos em grande detalhe no Democracy: The God that Failed – e recorre, como tem de recorrer, ao facto inegável da “preferência temporal” e dos factores que influenciaram o seu aumento geral (não a industrialização e a intensificação do mercado, que são pelo contrário factores de diminuição de preferência temporal, mas o crescimento do estatismo – que se explica, naturalmente, não porque obtivemos automóveis ou papel higiénico, mas porque a opinião pública foi infectada por pensamentos socializantes, incluindo os do “pensamento social católico”).

Mais uma vez, quanto às “coisas patrocinadas pelo Estado”, digo o mesmo: é uma falácia lógica dizer que o facto do Estado ser um mal, e patrocinar certos avanços tecnológicos, que os avanços tecnológicos são maus e que não poderiam ter surgido de outra forma. Como diria o Hoppe, o facto de macacos andarem de bicicleta não significa que só os macacos andem de bicicleta.

Depois o Manuel volta à tal coisa que eu não sei o que será mas que a escola austríaca supostamente “preconiza”: a mentalidade capitalista. Clarificação, clarificação.

E por fim, gostava de saber que propósito foi esse que criou “a internet e a bomba atómica”, e volto a chamar a atenção para a falácia lógica em que o Manuel incorre (embora a internet tenha sido o produto do exército americano, a sua disseminação e função social foi o produto de indivíduos, perdão, pessoas privadas).

O meu desaparecimento da blogosfera? Só em férias ou aos sábados.

segunda-feira, abril 18, 2011

Comprar o que é português (II)

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Já não é uma surpresa ver coisas escritas no Insurgente que envergonhem (defesa de agressão militar ou apelar ao voto no PSD, por exemplo) mas geralmente não tratam propriamente de questões económicas. Mas este disparate do “comprar português” causou-me especial comichão mental. Se o texto da Elisabete já não era propriamente bom, as respostas aos comentários críticos são ainda piores. Por um lado surgem claramente as definições errónea de termos como “acção racional no mercado” ou “competitividade”; por outro, a tentativa da Elisabete defender a causa representando mal aquilo que a causa pretende torna a sua defesa dela, na realidade, uma defesa de algo completamente distinto.

Começemos pelo princípio. O consumidor é racional nas suas escolhas? A Elisabete diz que sim, mas o que ela entende por racional não se refere à racionalidade presente em qualquer escolha (comercial ou não) mas ao conteúdo particular da escolha. O consumidor é racional na medida em que qualquer escolha (no mercado ou não) implica um fim que se pretende atingir e uma análise dos dos meios para o conseguir – essa procura de um fim e essa análise dos meios é feita pelo meio da razão. Logo, o indivíduo enquanto consumidor é racional. Isto não implica, porém, que a análise não seja falaciosa ou errónea nem que o fim seja, em si, inteligente ou justificável. A Elisabete, porém, diz que sim. Por exemplo: «acredito ser economicamente impossível “pessoas voluntariamente serem proteccionistas”, pois isso implicaria fazer reiteradas escolhas irracionais»». Porém, ser proteccionista consiste em preferir comprar o que é produzido num determinado país em vez de o que é produzido noutro – geralmente, implica preferir também o mais caro e o inferior nacional ao mais barato e ao superior internacional. Essa escolha, sendo originada por uma análise do preço, da qualidade e da componente emocional que liga a pessoa ao país de origem, é não irracional mas profundamente racional. Significa simplesmente que o custo monetário e de qualidade é subjectivamente inferior ao custo emocional de consumir produtos estrangeiros na mente do consumidor. E isso significa, tal como a causa “560”, ser “voluntariamente proteccionista” - sem ser irracional. Ser racional, no entanto, não põe de parte a possibilidade de ser estúpido, ignorante ou mal informado. E um proteccionista é sempre um pouco das três coisas – apesar de ser praxeologicamente sempre racional. E essa escolha, ao contrário do que a Elisabete diz, não implica ficar sempre prejudicado. Pelo contrário, preferir comprar nacional e caro ao estrangeiro e barato, em si não implica prejuízo. Claramente um nacionalista considera o lucro emocional da sua escolha superior ao custo monetário da mesma. Logo, não fica prejudicado. Fica, necessariamente, beneficiado. Existem benefícios além dos monetários. Noutro comentário a Elisabete diz que o seu post pretendia demonstrar precisamente que o “homo economicus” não existe e que existem considerações exteriores às simplesmente económicas. O seu comentário de que alguém voluntariamente proteccionista fique sempre prejudicado diz exactamente o contrário, como mostrei acima.

Outro ponto muito curto: a Elisabete diz que a tal tendencia voluntariamente proteccionista nunca teria um número muito extenso de fanáticos. Mas quase oitenta mil pessoas subscreveram a coisa no facebook. Se isso não é uma legião de pessoas mal informadas (voluntariamente proteccionistas), não sei o que será.

Mas se a Elisabete pretendia de facto negar o “homo economicus” ao defender a causa “560”, então mostra ainda mais confusão mental. Porque os argumentos da causa são tudo menos emocionais ou culturais. Não se apela à compra do que é português por ser português, por cultura, por amor ao país ou outra consideração não-económica. Apela-se por razões puramente económicas, como criar emprego e dinamizar empresas. O objectivo é expresso abertamente, e consiste em ajudar a economia portuguesa a sair da lama. E estando no plano económico, podemos analisar a coisa nesse prisma. E a verdade é que, embora as intenções sejam boas, os meios são completamente inadequados para os fins, como quase toda a gente que comentou o post percebeu e explicou (vantagem comparativa e tal e coiso).

Outro problema: a definição de competitividade e de produtos competitivos. A Elisabete diz que “uma “mentalidade compre 560″ só é racional enquanto os produtos portugueses forem competitivos”. Ora, voltamos ao problema de que mesmo preferir coisas mais caras e de menos qualidade por razões emocionais não é em si irracional – e logo, é competitivo na mesma, a partir do momento em que alguém racionalmente prefere os custos monetários aos custos emocionais, etc. Uma empresa ou produto competitivo é simplesmente uma empresa ou produto que gera lucro – ou seja, que alguém voluntariamente compra. Logo, é possível que um consumidor prefira e sustente – por razões puramente emocionais – uma empresa portuguesa que venda caro e de má qualidade em detrimento de uma estrangeira que venda a mesma coisa mais barata e de mais qualidade. Ou seja, é igualmente competitiva.

Dito isto, é perfeitamente legítimo (e racional) preferir por razões emocionais o caro ao barato e a qualidade inferior à qualidade superior. Mas acontece que as razões da causa “560” não são emocionais. São económicas. E se o objectivo é melhorar as condições económicas do país, então a causa é absurda, porque os meios escolhidos não geram o fim pretendido, pelo contrário. Um liberal, por isso, deveria tentar educar os coitados que acreditam naquela forma peculiar de proteccionismo, em vez de insistir na asneira e acrescentar mais umas à lista como a Elisabete faz.

domingo, abril 17, 2011

sábado, abril 16, 2011

Comprar o que é Português.

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Por um lado a Elsabete tem razão: a proposta não advoga medidas legais para obrigar ninguém a comprar produtos fabricados nacionalmente. E por outro também não advoga que se compre tudo português. Mas por exemplo, existem problemas com esta frase: «prevê-se que se escolham produtos portugueses mas apenas enquanto forem competitivos; e aceitar “pagar mais uns cêntimos” é preferir português desde que o custo dessa preferência seja mínimo.» Ora, claramente a preferência por produtos portugueses é subjectiva, logo o custo de preferir o "português ao estrangeiro" também o é, seja uns cêntimos ou milhares de euros. Alguém decididamente nacionalista não quererá saber do preço monetário se o preço emocional ou ideológico for mais pesado - e uma preferência pelo "produto nacional" de facto implica esse tipo preço.

É evidente que, sendo voluntário, não existem objecções morais ou éticas a fazer a essa escolha. Nesse patamar de escolha, é como preferir produtos kosher - por exemplo. Mas a portugalidade não é uma religião e o preferir português não é uma obrigação religiosa. Em última instância, o "preferir português" faz tanto sentido como preferir "os produtos feitos na minha rua". Ou seja: é uma preferência geograficamente arbitrária e, temo bem, anti-civilizacional. Até porque os argumentos do emprego e do dinamismo das empresas são, numa palavra, uma bela treta. Possivelmente, o que cá produzimos poderia ser produzido com menos custos e mais qualidade noutros sítios - ou seja, são empregos que não deveriam existir e empresas que não deviam ser dinamizadas. 

Mas não há forma de saber sem a manutenção e o funcionamento do mercado - e a implicação da campanha é que é melhor comprar cá seja qual for a condição (traduzindo: o mercado - e a alocação de recursos escassos - que se lixe). Se essa mentalidade estivesse inculcada nas cabeças dos primeiros seres humanos, nunca teria a humanidade saído da cepa torta - já que nenhum mercado teria surgido e nenhuma divisão do trabalho teria sido possível. A única forma de um país - por exemplo, Portugal - não viver numa miséria abjecta é se a população desse país se especializar numas coisas e trocá-las por bens e serviços em que outras populações se especializem.

A campanha até pode não advogar uma auto-suficiência nacional, mas a sua conclusão lógica é essa. E, como diz o AA no comentário, "O proteccionismo pode não estar na legislação, mas se é a “lei da terra”, então os resultados económicos vão ser os mesmos. Se toda a gente decidir partilhar tudo, isso até pode não estar na constituição, pode ser totalmente voluntário, mas o comunismo passa a ser “lei da terra”, e cada um e toda a gente ficará mais pobre. Se as pessoas decidirem voluntariamente comprar caro para vender barato, pode não ser obrigatório, mas fica cada um e toda a gente mais pobre.» Naturalmente, o Estado não deveria impor a ninguém que compre produtos estrangeiros ou só compre produtos nacionais.

Mas isso não torna a ideia menos perniciosa e menos anti-civilização. Porque não, já agora, "prefira Química portuguesa" ou "prefira matemática nacional"? Não será justo argumentar contra estas patranhas da mesma forma que se deve argumenta contra a patranha do "comprar o que é nacional"?

Mais: levado à sua consequência lógica, comprar o que é português implica que, mesmo produzindo em Portugal, as empresas portuguesas não deveriam comprar máquinas fabricadas por estrangeiros mesmo para produzir em território nacional (porque isso não ajuda a produção de bens capitais portugueses, logo não cria emprego, etc.). E aí sim, e rapidamente, toda a gente entenderia a estupidez da coisa. O facto de não ser individualmente irracional - no sentido tautológico de que toda a acção é racional - não implica que do ponto de vista da alocação de recursos, comprar só o que é português não seja uma estupidez. Implica que alguém convenceu esta pobre gente (ou eles se convenceram a si mesmos) da racionalidade de fazer essa escolha essencialmente absurda e ineficiente. A escolha de um indivíduo se suicidar pode ser racional no sentido em que foi um curso de acção livremente escolhido, mas isso não implica que o acto em si não seja estúpido. E é óbvio que quem prefere comprar nacional apenas não entende a implicação de que, ao fazê-lo, está a tornar-se a si e ao país mais pobre. Se entendesse, essa preferência rapidamente desvaneceria. Felizmente, os portugueses - mesmo não entendendo nada de economia - sabem que preferem ser prósperos com produtos estrangeiros do que miseráveis e "orgulhosamente sós".

PS: outra coisa má do movimento no Facebook, e que eu não entendo é o "pedir sempre factura". O que dá ainda mais a ideia de que tudo isto foi patrocinado pelo Estado. Quem é que pagou aquela campanha promocional? Cheira a Estado. Mas mesmo que não seja, o que se disse acima é igualmente válido.

quarta-feira, abril 13, 2011

Há privatizar e há privatizar.

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Estamos na eminência de ver privatizados muitos (senão todos, embora duvide muito) dos tentáculos empresariais do Estado e devemos à partida aplaudir a coisa. Mas não nos devemos entusiasmar demasiado. Devemos, como em tudo o que diz respeito ao Estado e ao FMI, ficar de pé atrás. Porque há privatizações e depois há "privatizações". Se por um lado é benéfico que o Estado se livre destes tentáculos directamente, nada impede que os não mantenha de forma indirecta. Afinal, muitas destas "empresas" usufruem de privilégios e monopólios oferecidos e garantidos pelo Estado, e a simples privatização do capital (por exemplo da EDP ou dos transportes públicos) não forma nem chega para formar um mercado livre. O caso dos CTT é paradigmático. Por muito que privatizem a coisa, a verdade é que nenhuma outra empresa pode concorrer no mercado principal dos CTT. Ou seja, mesmo com capital totalmente privado podemos esperar que estes privilégios e monopólios se mantenham intactos, porque o principal objectivo do FMI é cortar nas despesas e no "peso" directo do Estado na economia, não exactamente e por si abolir regulações. Claro que, se o fizer é óptimo. Mas, talvez pela minha disposição pessimista e desconfiada, tenho muitas dúvidas. 

Convém sempre lembrar que privatizar é só uma das faces da moeda. A outra face é abolir os privilégios monopolísticos. Se alguém dissesse agora que o mecanismo de cobrança de impostos ou que a polícia seriam totalmente privatizados, não haveria razão nenhuma para aplaudir a coisa (caso isto fosse mesmo possível, o que é duvidoso). Afinal, quem é que quer ser roubado ou controlado eficientemente?  Da mesma forma, privatizar as empresas do Estado é óptimo, mas não chega. Mais importante é abrir, sem restrições nenhumas, a competição nos sectores que hoje são monopolizados por empresas públicas. Um monopólio com capital privado não deixa de ser de alguma forma estatal. E em geral, é pior. A Reserva Federal Americana é o melhor exemplo.

segunda-feira, abril 11, 2011

Distributivismo II: conflito de interesses entre assalariados e capitalistas , degeneração moral e a prática da teoria distributivista.

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Belloc afirma que ao contrário de pequenas empresas que contratam poucos trabalhadores localmente, as grandes empresas que contratam “legiões de proletários” (para usar o vocabulário marxista, apesar de tudo adequado) criam um fundamental conflito de interesses entre o patrão e os trabalhadores. O marxismo é aqui chamado porque os distributivistas, sem saberem, subscrevem uma das premissas dele: que é a do conflito irreconciliável. Mas ao contrário destes os seguidores de Chesterton e Belloc não acreditam que o caminho seja “para a frente” (isto é, para a realização inevitável do socialismo) mas para trás: um retorno ao sistema corporativo medieval.

Como no texto anterior salientei, é na prática impossível estabelecer o ponto numérico a partir do qual o contrato entre patrões e trabalhadores se torna exploração. Não nego nem condeno que pessoalmente os distributivistas prefiram relações localistas e pessoais a relações comerciais de grande escala e impessoais. Mas daí até que as segundas se distingam pela exploração das primeiras vai um salto (de fé, talvez) muito, muito grande. E em falso.

Tendo já trabalhado para uma multinacional e para pequenas empresas sei bem o que a casa gasta em ambos os casos. Mas na minha experiência não passei a ser menos indivíduo por trabalhar para um patrão invisível, internacional e múltiplo. Da mesma forma que o bem da empresa significa o bem dos trabalhadores nas pequenas empresas, significa exactamente o mesmo numa grande. Que a grande maioria das pessoas não seja capaz de o ver num caso e seja no outro, demonstra não o conflito de interesses no caso da grande empresa, mas a miopia filosófica do homem comum, incapaz de pensamento abstracto. Na verdade, o sucesso da pequena empresa significa o sucesso dos trabalhadores dessa empresa, na exacta medida em que dessa forma o empresário pode investir os fundos para aumentar a produtividade marginal de cada trabalhador – processo pelo qual pequenas empresas se tornam, muitas vezes, grandes.

O facto de um grupo de pessoas ter controlo sobre meios de produção e outro grupo que não tenha só cria um conflito a partir do momento em que aqueles que controlam os meios de produção não os colocam em uso produtivo, mas pelo contrário consomem o seu capital. Uma das maravilhas do capitalismo é, precisamente, que a procura de lucros por parte daqueles que controlam os meios de produção significa a possibilidade daqueles que os não controlam de obter salários, de consumir os produtos fabricados com esses meios alheios e, se forem poupados, se tornarem também eles capitalistas e proprietários.

E também não é verdade que a existência de grandes empresas apague do mapa todas as empresas médias, pequenas ou ínfimas – ou que limite por si só a entrada de outros empresários capazes de oferecer mais ou melhor ou ambos. Enquanto não existir entraves institucionais à acumulação de capital e ao investimento, o meio pelo qual os empresários lucram é ao oferecer os produtos desejados pelos consumidores e existirá sempre a pressão para que aqueles que controlam os meios de produção lhes dêem o uso mais produtivo, demonstrado pelas escolhas dos consumidores no mercado (isto é, pelo que é mais ou menos lucrativo).

Os distributivistas também gostam de menosprezar essa característica humana, do consumo, mas sucede que ela está na origem de toda a produção (material ou espiritual) e protestar contra o lucro é, em si, protestar contra a vontade de quem compra e vende – ou seja, protestar o livre arbítrio de indivíduos no uso da sua propriedade. Que o conteúdo dessas escolhas seja do desagrado dos distributivistas em nada condena o sistema de lucros e perdas. Condena sim o conteúdo ideológico e moral das cabeças dos indivíduos.

A miopia que tende a ver conflito de interesses onde na verdade existe harmonia deve-se também ao outro ponto muito importante que devemos mencionar, que é o conteúdo ideológico (muitas vezes inconsciente) dos trabalhadores e dos patrões. Se há algo que podemos agradecer aos marxistas (e digo agradecer ironicamente) é ter semeado nas cabeças de proletários, capitalistas e (valha-nos Deus) distributivistas, essa ideia do conflito irreconciliável entre capitalistas e trabalhadores.

Esse conteúdo ideológico é também responsável pela preocupação legítima dos distributivistas (e tradicionalistas em geral) que é a degeneração moral que o mundo moderno gerou. Mas essa degeneração não é um produto da industrialização e das grandes empresas. É um produto da democracia, do estado social e, em última instância, da intervenção do estado nas escolhas voluntárias dos indivíduos. O progresso tecnológico é, em si, neutro – e o que lhe confere o carácter moral ou imoral é o conteúdo ideológico das cabeças de quem o usa. Os distributivistas, claro, acreditam que o problema verdadeiro é a “grandeza”, o “volume” e o “número”.

E qual é a solução dos distributivistas? Naturalmente, se o problema é a grandeza, e não o conteúdo ideológico e moral das cabeças humanas, a solução não passa pela educação, mas em última instância, só pode ser o uso da força (do estado ou de outro organismo qualquer que actue como um) que destrua as grandes empresas e as divida em pequenas e que redistribua a propriedade que uns têm a mais para aqueles que têm a menos, de forma a ficarmos todos pequenos proprietários e (supõe-se) tementes a Deus. O critério, naturalmente, é arbitrário. E sem um controlo permanente e uma purga constante dos mais inteligentes e mais dotados, rapidamente estes se tornarão novos grandes capitalistas e estabelecerão de novo grandes empresas que produzam industrialmente.

No essencial, pois, o distributivismo requer a redistirbuição contínua (tal como o socialismo vintage ou a social-democracia), dado que num mundo livre, a natural desigualdade entre seres humanos gerará, claro, desigualdades de rendimento e de posse de propriedade produtiva. E dado que o mercado é o que sucede na ausência de intervenção violenta, uma nova industrialização surgirá. Claro que, no entretanto, teremos perdido várias vidas dada a regressão económica e a diminuição da produtividade necessária e inerente a um tal esquema. Um resultado que nenhum católico (aliás, que ninguém metalmente são) pode considerar como bom.

Distributivismo e o trabalho assalariado (essa invenção do demónio).

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Eu gosto muito do Manuel Rezende mas não compreendo de todo, e de resto acho infeliz, a sua recente rejeição dos mais básicos ensinamentos da ciência económica como exemplificada neste texto que ele citou no seu novo blog (dedicado ele mesmo a uma rejeição desses mesmos ensinamentos).

Aparentemente, se um proprietário contrata um trabalhador falamos de dois homens livres que entraram livremente num contrato mutualmente vantajoso. Mas se, por um acaso, vários proprietários (sob a forma de uma empresa de capital aberto ou corporação) contratam vários trabalhadores, já não falamos de indivíduos que procuram melhorar as suas condições de vida entrando em contrato, mas de... exploração.

A partir de que número, gostava eu de perguntar, os proprietários deixam de ser apenas proprietários para ser exploradores? E a partir de que número os trabalhadores passam a ser explorados? Certamente que existe um ponto objectivo a partir do qual as pessoas que trabalham por salários deixam de ser indivíduos com almas e capazes de decidir sobre a sua própria vida e passam a ser pobres coitados oprimidos. Se não existe, é porque não existe também qualquer fundamento ético ou económico para preferir o “pequeno” ao “grande”, o “reduzido” ao “numeroso”. Trata-se apenas de retórica, ou de teimosia, ou de ambas.

Os distributivistas, tenho a impressão, tendem a acreditar erroneamente que a ordem económica feudal e corporativa (no sentido medieval) constituia um sistema fundado no catolicismo e que o advento do capitalismo industrial (com as temíveis grandes concentrações de capital) constituiu um afastamento dele. Que o sistema de pequenos proprietários e pequenos ofícios era, por assim dizer, a ordem natural das coisas – e que qualquer desvio desse modelo é, naturalmente, uma heresia e uma infelicidade para a civilização.

O facto, porém, é que grandes concentrações de capital já existiam nos tempos medievais: apenas não havia inventividade para transformar os fundos poupados em investimentos lucrativos e de grande escala. Esse grande salto, em vez de ser uma maldição como os distributivistas supõem, foi uma definitiva benção para a humanidade e sobretudo para os assalariados. Pela primeira vez foi possível evitar a armadilha maltusiana e multiplicar o número de pessoas no planeta com meios de subsistência; aumentar o nível de vida, não só em grau, mas em género (introduzindo luxos que os ricos de outrora não puderam sonhar mas de que os pobres de hoje podem usufruir); foi possível libertar parte do tempo que pais, mães e filhos teriam de trabalhar para conseguirem uma parte ínfima do que num mundo industrial têm para poderem usufruir e cultivar o meio familiar, as artes, a cultura e a religião; foi possível diminuir a mortalidade infantil e aumentar a resistência perante a doença. Todas estas coisas foram possíveis, e possíveis apenas, devido ao sistema industrial e à divisão do trabalho que os distributivistas vilificam e desprezam.

No entanto, o crescimento da população (que houve, também, noutros momentos da história antes da revolução industrial) teria necessariamente de criar uma classe sem terra, dado que a terra é limitada. Mas onde antes essa camada populacional estaria condenada a morrer de fome (não só por não ter terra, mas porque a produtividade das pequenas propriedades não chegava para os alimentar), o capitalismo e a industrialização, ao criar postos de trabalho para gente sem capital e sem terra e ao aumentar massivamente a capacidade produtiva de cada trabalhador permitiu que essa gente sobrevivesse e eventualmente prosperasse. Não consigo ver de que forma um católico pode negar que o “crescei e multiplicai-vos” ordenado pela Bíblia seja permitido pelo capitalismo como nunca foi por nenhum outro sistema de organização económica. E logo, que o capitalismo não é apenas compatível, mas é preferível, de um ponto de vista bíblico, a qualquer outra forma de organização.

Os distributivistas, como os mutualistas, gostam de salientar que o êxodo rural foi, em muitas instâncias, um movimento involuntário – isto é, forçado por decreto governamental. E, como tal, ilegítimo e coercivo. Em parte, estão correctos. Mas de forma nenhuma justifica as conclusões (fundamentalmente semelhantes) que uns e outros tiram, embora uns à direita e outros à esquerda. Embora, em alguns casos a história tenha decorrido assim, não foi sempre e em todo o lado assim, e nem é necessário que seja. Por um lado, os salários nas cidades industriais eram bastante superiores à remuneração conseguida pela venda de produtos agrícolas (além de que, em muitos casos, se tratava na essência de agricultura de subsistência). Mas isso em si não justifica a expulsão pela força e o confisco de terra, evidentemente. O que os distributivistas e os mutualistas parecem implicitamente aceitar (infectados, uns, pela visão católica da pobreza; e outros pela visão socialista da mesma) é que os assalariados são sempre uma classe movida pelas “forças da história” ou outro nonsense do género, em vez de serem apenas indivíduos movidos pela vontade de melhorarem as suas condições de vida. E desde a revolução industrial o meio pelo qual as pessoas mais pobres podiam fazê-lo, era deixar a agricultura e encontrar trabalho no mundo industrial por, choquem-se, salários.

Na verdade, sem a industrialização e sem trabalho assalariado, seria impossível o Manuel e os seus colegas exporem as suas ideias ou eu expor as minhas, pois não existiriam computadores ou internet. Mas não só, o mais provável era que nem sequer estivessemos vivos. E a estarmos vivos, seríamos atavicamente pobres – a menos, claro, que fizéssemos parte da nobreza (nesse caso, seríamos um pouco mais ricos que, digamos, um cidadão da Mauritânia).

quarta-feira, abril 06, 2011

O caso para o pessimismo.

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A demissão de Sócrates criou o vácuo e chamou a direita portuguesa à acção. Quem esperava a liberlalização ou pelo menos a “dessocialização” do regime, só o poderia fazer com uma dose cavalar de ilusão e fé. Porque fundamentalmente a direita tem tantas soluções como a esquerda. Se a extrema-esquerda promete veementemente arrastar o país para um novo (mas clássico) lamaçal, a direita e a esquerda moderada que no essencial partilham o espartilho social-democrata não podem prometer senão paliativos que consistem em não sair do lamaçal presente. Do status quo do regime dependem a cabeça e a bolsa das figuras políticas proeminentes e respeitáveis. Mais: depende a classe média em peso.

É absurdo pensar que uns e outros (PSD e CDS) farão alguma coisa que lhes diminua a popularidade ou lhes afecte a carteira e a carreira. Como esperar que confessem que o caminho que tão convictamente trilharam e recomendaram era na verdade uma promoção pessoal sem consequência e o cavar lento da sepultura do país? Como esperar honestamente que digam a verdade e que actuem em conformidade?

Por outras palavras, só é possível a ilusão da direita a quem se dispõe a acreditar na ilusão esquerdista por excelência: a de que se pode mudar, para melhor, em democracia.

Imaginem o “liberal” Passos Coelho a discursar aos portugueses e a dizer a verdade: que é preciso cortar na mama; que o modelo “tendencialmente gratuíto” é, além de insustentável, uma mentira perpetrada pela rotatividade partidária do regime para seu próprio proveito; que as empresas públicas e as parcerias público-privadas, que as obras públicas, que o subsídio de desemprego e o RSI perpetuam, em vez de atenuarem, a miséria. E por aí fora. Ia o povo todo votar no PCP e no BE. O povo não está preparado para estar uns passos à frente do Zimbabué. A expectativa é grande demais e a perspectiva da queda causa tonturas.

Alguém seriamente espera que, mesmo compreendendo o problema (o que já de si é duvidoso), o PSD ou o CDS se suicidem eleitoralmente a bem do país, da verdade e da moral? Que ameaçem pôr na rua os seus boys e prejudiquem os seus parceiros privados que vivem, como o povo, à espera de uma esmola estatal? Que peçam responsabilidades, políticas e legais, aos seus antepassados políticos que ainda por aí andam a lucrar com a sujeira?

Se alguém acredita ainda nessa infantilidade, trata-se certamente de um caso clínico para o qual existem estabelecimentos especializados. Pois mais valia acreditar no pai natal e rezar para que este lhes traga uma ajuda externa a custo zero que permita perpetuar a brilhante fantasia social-democrata. Mas para isso é preciso chegar ao natal – o que não é possível prometer em si sem uma dose de fé ou de narcóticos.

Daí decorre que o problema é insolúvel em democracia. O problema maior reside no facto de que, além de mentir e insistir na mentira, o regime democrático acabou com a independência de quem poderia fazer alguma coisa e convenceu essa gente também das propriedades mágicas do Estado. A sociedade portuguesa está de mão estendida, e não existe já punho fechado que bata com força na mesa e imponha o fim do socialismo democrático.

E se a solução não está em Portugal, onde está? No FMI, na UE? Também eles têm feudos pessoais para proteger e um modelo igualmente insustentável. E é impensável que venham fazer alguma coisa além de perpetuar a iniquidade e a mentira com paliativos.

Chegou a hora de aceitar o que sempre foi inevitável: a falência democrática, o caos social e a miséria abjecta. E, conscientemente, pensar em emigrar.

terça-feira, março 29, 2011

Grande Entrevista

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do Hoppe.

O novo conservadorismo jacobino.

2 comentários:
Os conservadores antigos (ou clássicos) eram terminantemente reaccionários, o que significa anti-revolucionários. A violência e o caos que as revoluções trazem era particularmente desprezada pelos antigos conservadores como disruptiva e contraproducente; sendo um ideal de continuidade, o conservadorismo não podia tolerar a destruição (moral e material) que todas as revoluções necessariamente trazem . Daí decorria a sua atitude perante a guerra. A guerra, e sobretudo a guerra ideologicamente motivada, era puramente o domínio da esquerda, do jacobinismo e, depois, do socialismo. O seu objectivo era contrário e incompatível com o desejo conservador de mudança gradual, livre e pacífica.

Embora o ideal de continuidade possa em si ser discutido e provado como fundamentalmente inválido, era pelo menos possível atribuir aos conservadores antigos um módico de coerência e, mais, de razão. De facto, a mudança que interessa para uma ordem livre e pacífica é necessariamente gradual – a mudança ideológica – e nenhuma quantidade de violência pode inculcar uma ideia numa cabeça convencida do seu contrário. Os conservadores contribuiram, por isso, com algumas ideias fundamentais para a filosofia liberal-libertária ao purgarem-na desde cedo de alianças com revolucionários e libertinos, para quem a violência política não constitui um problema, antes uma solução.

Os novos conservadores são toda uma outra história: mantendo a retórica do gradualismo e da continuidade, tornaram-se de alguma forma em puros militaristas e amantes da guerra. Em que sentido, pois, são os novos conservadores contra-revolucionários? O ponto de distinção parece ser apenas este: se a revolução for feita por meios populares é condenável; se for feita por um Estado então é particularmente aplaudível (mas só, claro, se esse Estado for do seu agrado).

O que são, senão revoluções trazidas de fora, as guerras levadas a cabo pelos Estados Unidos? Nas suas intenções como nas suas consequências, as guerras americanas são revolucionárias. O objectivo é o golpe de Estado, a mudança política forçada, e as suas consequências são a destruição da propriedade alheia e o caos bélico (neste caso militar). Como os revolucionários esquerdistas, os conservadores apelam e defendem a revolução permanente, que no contexto actual se traduz na invasão e subjugação de populações pobres e primitivas. E naturalmente, os conservadores favorecem também alianças ou tréguas com ditadores tão maus ou piores como aqueles que pretendem destruir, por conveniência, tal como os humanitários esquerdistas da revolução “libertavam” um povo fazendo alianças com outros “libertadores”. Existem ditadores e ditadores, e os para os conservadores os amigos da casa nunca são tão maus comos os inimigos. Afinal, se eles fossem assim tão maus, não eram nossos aliados. É uma lógica, no mínimo, tresloucada. Sobretudo para criaturas que professam, em geral, duros sentimentos morais e, até, religiosos. Essa moral absoluta só não transparece, ou pelo menos parece, na sua visão política do mundo.

Convém neste ponto então perguntar o que torna a revolução estatista tão melhor do que a revolução popular, para que os conservadores sejam fervorosamente a favor de uma e terminantemente contra outra?

Analisando uma e outra, encontra-se pouco mérito em ambas, mas há pelo menos uma particularidade da revolução/guerra popular que é preferível à revolução/guerra estatista. Numa revolução estatista, o Estado rouba a sua população, que posteriormente procederá a ser alistada (muitas vezes sem escolha) no exército que levará a revolução ao seu destino, por definição fora do território sobre o qual, supostamente, terá jurisdição. A superioridade da revolução popular consiste no facto do seu financiamento e colaboração serem estritamente voluntários. E, é possível, mesmo que o financiamento seja de alguma forma produto de roubo e da violência do crime organizado, pelo menos a participação bem sucedida terá necessariamente de ser voluntária. Um grupo de revolucionários que escravize pessoas para a sua causa teria, por um lado, massiva desobediência e, ao mesmo tempo, a ameaça permanente de ser apanhada pelo Estado, dada a desobediência e inconformidade. Os revolucionários estatistas, porém, não têm de temer desobediência porque a opinião respeitada está no seu bolso, e porque não existe nenhuma entidade que declare ilegal a sua escravatura, como existe o Estado para ilegalizar a escravatura privada.

Os conservadores abandonaram, por isso, não só a coerência mas aquilo que fundamentalmente os distinguia dos revolucionários e da esquerda. Também eles têm agora uma visão do mundo que requer a força das armas para ser mantida e/ou criada. O que lhes resta? Os escrúpulos morais falsos contra a prostituição e as drogas? Quando matar e pilhar é, dentro de certas condições arbitrárias, aceitável?

quinta-feira, março 24, 2011

Desabafo.

2 comentários:
Aconteceu, infelizmente, passar hoje por esta outra demonstração de toleima e mau gosto. O ensino superior parece que só lhes ensinou a pedir e a protestar. Querem menos propinas e mais bolsas; querem ser compreendidos e acarinhados. Porque o amor é livre e os direitos ilimitados; e o povo unido faz mesmo muito ruído.

Porcos e homens.

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No dia seguinte à demissão de Sócrates - o homem que, acreditando na direita blogosférica, era o único entrave à saída da crise e à criação do reino dos céus na terra - podemos ver como tudo mudou: parece que o PSD se prepara para, e citando o Zé Mário Branco, nos "enrabar com passaporte de Coelho" (perdoem-me a expressão). De facto, a direita andou a festejar com muita, muita razão. A mim faz-me lembrar o final do Animal Farm, às tantas já não se distinguem os porcos dos homens.

quarta-feira, março 23, 2011

Não é bom sinal...

1 comentário:
... quando a direita (monárquica ainda por cima) vai para rua festejar, numa noite de semana, como se fossem hippies. Como se a demissão de um palhaço (e a antecipação da eleição de outro) justificasse qualquer festa... Será que vão enrolar uma bandeira do PSD e fumá-la?

Anti-capitalismo capitalista?

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Esta disputa semântica é um pouco idiota e, temo bem, uma espécie de marketing de esquerda para suavizar aquilo que não requer suavização porque é perfeitamente legítimo, além de introduzir quase sempre premissas mutualistas e esquerdistas à socapa. Em primeiro lugar, é uma espécie de admissão de derrota abandonarmos a palavra capitalismo. No mundo anglo-saxónico a apropriação da palavra liberalismo já foi completa e não creio que devamos ficar contentes com o facto; oferecer de graça a palavra capitalismo parece-me inútil e prejudicial.

Se por um lado é verdade que muita gente (a maioria) identifica o presente sistema com a palavra capitalismo, também é verdade que aquilo a que essa maioria se opõe não é apenas ao status quo corporativo, mas também à ideia de capitalismo livre (ou selvagem). A sua condenação do capitalismo é, pois, não apenas no que à sua parte involuntária e à sua conexão com o Estado diz respeito, mas também à sua parte totalmente voluntária e desligada do Estado. A ideia de mercado livre sem intervenção estatal é tão horrorosa para os opositores do capitalismo como é a sua vertente imperialista e corporativista. Em geral, as pessoas com esta visão tendem a acreditar que a não-intervenção do Estado no sistema capitalista leva ao presente sistema, que é uma espécie de evolução natural do capitalismo livre. 

Mais: os proponentes desta derrota semântica tendem a acreditar erroneamente que o mercado livre acabaria com todas as formas de autoridade e traria uma espécie de igualitarismo natural. Esta aproximação perigosa do esquerdismo e do igualitarismo não favorece em nada o nosso objectivo. Prometer um tal mundo pode ajudar a angariar algumas mentes de esquerda, mas a que custo? Se não acreditam na desigualdade natural entre seres humanos, em autoridade voluntariamente reconhecida, para quê tê-los do nosso lado?

Por isso é inútil abandonar a palavra capitalismo. Útil é insistir sempre que o status quo não é capitalista, e que a nossa defesa do capitalismo implica um Estado muito limitado ou, de preferência, inexistente.

Além disso, existe sempre uma espécie de ligação ao mutualismo que me parece perniciosa entre os left-libertarians, já que a diferença do mutualismo em relação ao anarco-capitalismo standard parece-me particularmente horrenda e destrutiva. A concessão da palavra capitalismo ao "lado mau da força" é um erro, e um meio de sancionar por um lado a interpretação errónea do que é o capitalismo e por outro os erros teóricos brutais do mutualismo.

Direito Natural

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«The Biblical anarchy does not assert iself in the negation of the norm as such but in non-compliance with man-made law. The charismatic person revolts against a non-moral legalistic society, whose ends and objectives often collide with the basic tenets of a natural, living morality. He refuses to obey an external authority and to accept the dicta of a society that is guided by a highly technical, though magical, civilization. (...) The source of law is the mahazeh, the prophetic vision, not the royal decree. The charismatic person discovers the ethos himself. As a free personality, he goes out to meet the moral law with his full collected being; he chances to find it in himself and to cousciously adopt it. He is not overpowered by an unforeseen element. There is a free act on his part in dedicating himself to a universal, natural morality

R. Joseph B. Soloveitchik, The Emergence of Ethical Man (2005)

terça-feira, março 22, 2011

A irrelevância do intervencionismo militar para a libertação dos povos.

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O Gabriel tem muita razão no que diz. É de facto curioso observar como os neoconservadores reagem wilsonianamente e revelam o seu utilitarismo bacoco (ver nos comentários do post linkado). Mas há algo ainda mais ridículo, que é a crença subreptícia ou subliminar de que as tais intervenções por parte dos "Estados bons" são um meio adequado para derrotar os "Estados maus" e "libertar" a população. Esta crença é a crença mais geral do "might makes right", uma sanção do estatismo em si como meio para a paz e a liberdade (paradoxalmente, não para a prosperidade, já que de uma forma ou de outra os neoconservadores favorecem mais ou menos a economia de mercado - não há, porém, qualquer razão para o fazerem: se os impostos nacionais servem para bombardear pessoas que nem sequer votam nas nossas eleições, porque não servirá para alimentar as pessoas com fome, alojar as pessoas sem casa, aqui e lá fora?).

Essa crença na capacidade na intervenção militar estrangeira para destruir um regime opressivo e ajudar à construção de regimes democráticos (que os neocons tendem a acreditar serem o equivalente de liberdade), deve-se, a meu ver, ao facto de ignorarem o insight La Boétie/Hume sobre a natureza dos regimes políticos e a derradeira fundação sobre a qual se erguem. Hume, que escreve muito bem, abre o seu ensaio Of the First Principles of Government assim: «Nothing appears more surprising to those who consider human affairs with a philosophical eye, than the easiness with which the many are governed by the few; and the implicit submission, with which men resign their own sentiments and passions to those of their rulers. When we enquire by what means this wonder is effected, we shall find, that, as Force is always on the side of the governed, the governors have nothing to support them but opinion. It is therefore, on opinion only that government is founded; and this maxim extends to the most despotic and military governments, as well as to the most free and most popular

Tendo isto em mente, é fácil de entender que uma intervenção militar destinada a libertar um povo é profundamente irrelevante, em qualquer circunstância. Se o povo estiver convencido já da iniquidade do regime, a sua queda está iminente e não requer nenhuma intervenção militar estrangeira (e uma transição pacífica é, mesmo para os neoconservadores, pelo menos em teoria, melhor do que uma transição violenta). Na pior das hipóteses, a intervenção estrangeira ajuda a legitimar o tirano, que pode então agir como defensor da nação. Mas se o povo não estiver suficientemente convencido da iniquidade do regime, então a força estrangeira não só falhará como acabará obrigatoriamente por legitimar o tirano e a sua tirania. Se antes da intervenção a maioria dos governados defende o governante, então qualquer tentativa estrangeira de "substituir" (e geralmente isto significa assassinar) o tirano resulta em novos convertidos à causa do tirano, ou então e no mínimo, serve para fortalecer a crença no tirano naqueles que já a possuíam.

E é evidente que, se for bem sucedida, a intervenção estrangeira apenas leva ao tipo de regime que a maioria está disposta a aceitar. E assim, é sempre possível substituir um tirano que não agrada aos intervencionistas por um que mais lhes agrade. Não é de excluir a possibilidade de algumas cabeças estarem bem cientes destas conclusões, mas estarem também confortáveis e contentes com os resultados. Porque, pelo menos, passa a ser o nosso "son of a bitch"

quarta-feira, março 16, 2011

Dizer Já Basta a Sócrates não basta...

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Por isso decidi fazer a minha versão (e a de todos os que acham que a social democracia dos partidos à direita é tão imoral e destrutiva como a social democracia dos partidos à esquerda).

Pela demissão do Primeiro-Ministro e do Governo pelos actos imorais e pelo dano causado ao país e ao povo! Pela demissão antecipada dos futuros Primeiros-Ministros e Governos (incluindo, perdoem o radicalismo, os do PSD) pelos actos imorais e pelo dano que inevitavelmente hão-de causar ao país e ao povo!

segunda-feira, março 14, 2011

O caso para o pessimismo a curto e médio prazo quanto à Geração (à) Rasca.

3 comentários:
Acho que esta visão (e visões similares) da manifestação de sábado e dos macaquinhos que a encetaram é demasiado ingénua. Segundo tais visões, as razões dos manifestantes são duas, uma positiva e uma negativa: a positiva é que os manifestantes revelam cansaço do sistema partidário e revolta contra o regime (alguma direita quis ver descontentamento particular com a administração-Sócrates, mas é obviamente muito mais que isso). A negativa foi que as soluções que propõem são, de uma forma ou outra, mais do mesmo – fantasias socialistas de um mundo de recursos ilimitados.

Eu simplesmente não creio que estas duas razões possam ser separadas, e que haja qualquer sinal positivo nelas. Acho que são apenas as duas faces do objectivo comum da manifestação – recriar aquilo que na cabeça deles foi o 25 de Abril, em que o povo sai à rua, o poder cai, e um novo poder que lhes dá tudo de mão beijada, como deu aos seus pais, triunfa. Claro que antes havia uma guerra, e logo um princípio legítimo contra o qual lutar – hoje, nem isso; a geração rasca quer apenas, e numa palavra, mama.

O seu descontentamento com o presente sistema não é meramente preocupado com a liberdade. Na questão das propinas, nos recibos verdes ou no desemprego, a sua revolta baseia-se no facto de que os governantes não lhes dão o suficiente, não têm ajudas que cheguem. Eles não pretendem acabar com a classe parasítica, pretendem fazer parte dela. A insustentabilidade do modelo, de resto, nunca lhes passa pela cabeça. Mas pior que isso: acham justiça na redistribuição sistemática.

O que está fundamentalmente errado na visão optimista da coisa, é considerarem o descontentamento com um regime, só por si, algo benéfico. Mas se a revolta pretende instaurar um sistema igualmente colectivista, o descontentamento e a revolta são inúteis para o causa da liberdade. Podem até gerar algo pior do que existe, um cenário historicamente possível e com alguns exemplos lusitanos. Pessoalmente, não gosto de revoltas e caos só por si. E detesto, sobretudo, quando depois da desordem e dos gritos, estivermos de novo e ainda no caminho para a servidão.

sábado, março 12, 2011

Fantasias socialistas da geração à rasca.

4 comentários:
Ver a horrenda manifestação de hoje acaba com as ilusões que qualquer liberal gosta de ter sobre o país em que vive e sobre as novas gerações da gente que o povoa: estes meninos estão obviamente dominados pela visão de um mundo em que os bens não são escassos e em que todas as amenidades da vida são passíveis de distribuição, assim queira o Estado tirar dinheiro a alguns para lhes dar a eles. Os pais e os professores pintaram-lhes certamente um mundo de ilimitados direitos, e os meninos - coitados - acreditaram não só na justiça da redistribuição sistemática, mas - o que é mais estranho - na sua praticabilidade. Agora é tarde para abandonarem a fantasia por seu próprio pé e viver no mundo real. Infelizmente a realidade não é sensível às expectativas dos meninos e meninas e está prestes a bater-lhes à porta.

A mentalidade socialista está, pois, tão entranhada nas cabeças das pessoas da minha geração como estava nas da geração passada. Se isto não prenuncia nada de bom, pelo menos dá-nos uma ideia do que esperar no futuro próximo.

quinta-feira, março 10, 2011

Impostos e Justiça

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«If taxes are theft, then, from the point of view of justice, there should be no taxes and no tax policy at all. Every discussion about the goals of tax policy and tax reform is a discussion among thieves or advocates of theft, who do not care about justice. They care about theft. There is debate and dispute among them about who should be taxed and how high and what is to be done with the taxes, i.e., who should get how much of the stolen loot. But all thieves and all beneficiaries of theft tend to agree on one thing: the greater the amount of loot and the lower the cost of collecting it, the better are things for them. In fact, this is what all Western democracies practice today: to choose tax rates and forms of taxation, which maximize tax revenue. All current discussions about tax reform, in France, in Germany, in the US and elsewhere: discussions about whether certain forms of taxes such as wealth and inheritance taxes should be introduced or abolished, whether income should be taxed progressively or proportionally, whether capital gains should be taxed as income or not, whether or not indirect taxes such as the VAT should be substituted for direct taxes, etc. etc., and whether the rates of these taxes then should be raised or cut – they are never discussions about justice. They are not motivated by any principled opposition to taxation, but by the desire to make taxation more efficient, i.e., to maximize tax revenue

Hans-Hermann Hoppe, aqui.