segunda-feira, janeiro 07, 2013

Now and then.

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Now: 
«Sem direito à propriedade, nenhum outro direito existe.» (Janeiro, 2013)

Then:

«Há qualquer coisa de estranho numa ética que se baseia exclusivamente na propriedade de si próprio.» (Agosto, 2010)

«O conceito de "self-ownership" não se enquadra no direito natural porque não obriga cada indivíduo a contribuir para o Bem Comum.» (Agosto, 2010)

«Seremos donos de nós próprios (self-ownership)? Rothbard afirma que sim, eu afirmo que não.» (Agosto, 2010)

***

Gosto muito de ver as pessoas repensarem as suas posições (sobretudo em assuntos tão importantes). E posso, finalmente, sentir que a enorme discussão que tive com o Joaquim serviu para alguma coisa.

Não posso no entanto dizer que concorde com a elaboração randiana da ideia a que o Joaquim adere (baseada na ideia de esforço e produção - algo que convida, naturalmente, a críticas como a da Zazie na caixa de comentários).

Talvez daqui a dois anos. Mais vale tarde que nunca.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Bater no ceguinho (III)

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Há uma coisa que me confunde muito. Depois deste artigo de opinião do Henrique Raposo, alguma direita liberal apressou-se a lançar foguetes e a apontar as inconsistências do PCP (p.e., aqui e aqui, n'O Insurgente). Não deixa de ser curioso que mais depressa atacam o PCP do que se desmarcam da política do actual governo PSD/CDS. Do ponto de vista estratégico, é estranho: atacar quem está na lama, e escapar-se a apontar as falhas mais do que óbvias de quem está no poder. Até faz parecer que a direita liberal, por omissão, até gosta do governo. Mas se calhar sou eu que percebo pouco da poda. Ou tenho princípios. Não sei bem, já.

terça-feira, janeiro 01, 2013

Assim se vê

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É um pouco sintomático que o "caso" Artur Baptista da Silva tenha tido, de modo geral, mais cobertura na imprensa e na blogosfera do que: 1) a privatização da ANA; 2) a injecção de capital no Banif; 3) Cavaco a promulgar o OE. Prioridades.

Ah, e bom 2013.

sábado, dezembro 29, 2012

O conhecimento tem problemas (II): Duhem e Quine

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Uma das relações mais faladas dentro da Economia é a relação de causalidade: um aumento da massa monetária causa um aumento do nível de preços, um aumento de impostos causa o abrandamento da actividade económica, uma diminuição da actividade económica causa perdas de bem-estar, etc. 

O modus operandi metodológico da economia neoclássica para chegar a estas conclusões é relativamente simples, e não sendo o propósito deste post discorrer sobre as vicissitudes da tal metodologia, convém notar o seguinte: o resultado permite-nos atribuir, com um dado grau de confiança, uma dada percentagem da variação de uma "causa" num "efeito" — i.e., que por cada euro que se aumenta em investimento público, temos X euros de aumento no PIB.

Este isolar da relação de causalidade é um dos pontos mais importantes dentro de toda a framework neoclássica. Afinal, se não é possível estabelecer estas relações simples, estamos perante um esvaziar de propósito: se não se consegue dizer que "para baixar a inflação tem que se aumentar as taxas de juro", se se deixam de poder fazer as "recomendações de política", muito bom economista deste mundo deixa de ter razão de existir.

Chegou então a altura de olhar para aqueles dois senhores que refiro no título: Pierre Duhem e Willard V. O. Quine. Apesar de nunca terem trabalhado juntos — quando Duhem morre, Quine era ainda um jovem de 8 anos —, é-lhes atribuída conjuntamente o desenvolvimento de uma certa tese dentro da Filosofia da Ciência. A página que provavelmente melhor explica a dada tese é a da Stanford Encyclopedia of Philosophy. Long story short: é impossível testar, isoladamente, uma dada hipótese científica — sendo, contudo, possível testar um sistema (enquanto conjunto de hipóteses). Quine refere-se a este reducionismo como um dos "dois dogmas do empirismo": uma dada frase, um postulado empírico, por si só, não pode ser confirmado ou refutado, visto tal implicar assumir a validade das assumpções que estão por detrás do dado postulado.

Isto pode parecer um ponto algo estranho. Mas, deixem-me tentar pôr isto assim: (quase) todos os testes econométricos são parvos. Afinal de contas, não podemos testar se a hipótese X é ou não rejeitada. Só podemos testar se o sistema é ou não rejeitado. E isto são coisas bem diferentes, com implicações bastante profundas.

Visto de um ponto de vista mais prático: não podemos assumir apenas que por cada euro que se aumenta em investimento público, temos X euros de aumento no PIB. Convém também assumir como verdade tudo o que está para trás. E o que está por detrás? Bem, todas as outras variáveis consideradas ao mesmo tempo, e todas as outras variáveis "esquecidas" pelo modelo; e que o comportamento das variáveis é i.i.d.; e que o problema da indução não existe. E por aí além.

Mas voltaremos a isto noutra data.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

Privatização da ANA

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Arquivar a notícia em #monopóliosprivados. Convém também ler, no Ordem Natural: Há privatizar e privatizar:

Da mesma forma, privatizar as empresas do Estado é óptimo, mas não chega. Mais importante é abrir, sem restrições nenhumas, a competição nos sectores que hoje são monopolizados por empresas públicas. Um monopólio com capital privado não deixa de ser de alguma forma estatal. E em geral, é pior. 

O conhecimento tem problemas

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De há uns tempos para cá, conforme vou tendo tempo livre, tenho andado a pensar sobre os problemas do conhecimento, especialmente no tocante à Economia. E uma das coisas que mais  confusão me faz é a mistura que há entre a questão da origem do conhecimento e o modo como o conhecimento é justificado.

O primeiro problema é um problema quase de "genealogia". Imaginemos: se o J. F. Nash teve a ideia do equilíbrio de Nash enquanto olhava para uns pombos (acho que no filme era assim, já não sei, mas a ideia passa), isso quer dizer que o equilíbrio de Nash tem uma base empírica? I.e., será que o conhecimento que Nash criou teve origem na observação dos ditos pombos, ou de outra coisa? Ou a origem não é a observação? Será um produto apenas da sua mente?

O segundo problema é ligeiramente diferente: admitamos, arguendo, que o Nash de facto teve a ideia a olhar para uma série de pombos, que os pombos o inspiraram a explicar que, através da eliminação iterada de estratégias estritamente dominantes, o resultado do "jogo" é um equilíbrio de Nash. No entanto, isso não quer dizer que isso seja verdade. Qual é a justificação para isto acontecer assim? E será que a justificação aqui é empírica?

Este problema, esta confusão aqui simplificada em termos crus e fazendo uso da base da teoria dos jogos, pode parecer simples, assim exposto. Pode até não representar muito. Mas, atente-se: quando um economista pega numa base de dados qualquer, faz um modelo de regressão, estima uns estimadores, ajusta as variáveis, controla para homocedasticidade, vieses, etc, e chega a um dado resultado, diz-nos que coisa assim assim acontece porque assado assado. Ok, certo: o "conhecimento" que saiu dali teve origem empírica; observaram tantos e tantos preços, sabem qual é a elasticidade. Mas como é que sabemos que aquilo que ali está é verdade? Como é que sabemos que o que ali está não passa de um exercício intelectual? Como é que justificamos, por exemplo, que aquele conhecimento é válido?

Isto é precisamente aquilo que me tem andando a chatear nos últimos tempos. Quando chegar a alguma resposta, ponho por aqui. Por agora, ficam as perguntas.


Tu ne cede malis sed contra audentior ito

1 comentário:
Parece que agora também paro por aqui. Não obstante escrever para o Instituto Ludwig von Mises Portugal e para o Movimento Libertário — algo que não vai deixar de acontecer, note-se —, mas sinto igualmente necessidade de fazer outro tipo de participações, sobre outros assuntos. Nem só de liberalismo vivo eu.

Obviamente, quero agradecer o convite do Rui; escrever no Ordem Natural é de facto uma espécie de honra. Foi por aqui que fiquei a conhecer muitos e bons argumentos para a posição anarco-capitalista. Salvo erro, até foi aqui que tive o meu primeiro contacto com o Hoppe, veja-se lá.

Convém também explicar: não sou anarquista; mas também já não sou um minarquista. O Rothbard tentou o termo "nonarchist", antes de ter usado/cunhado o "anarco-capitalista"; curiosamente, deve ser  das poucas vezes que ele preferiu a posição "middle of the road", como ele próprio a caracteriza.

Por cá, hei de escrever sobre o que me vier à cabeça. Isso provavelmente significa que vão apanhar com as misturas das duas áreas que me andam a interessar: Economia e Epistemologia. Eventualmente, hão de apanhar com passagens de texto dos interessantíssimos livros que leio. Eventualmente, links de boas músicas — eu, melómano, me assumo. O que aparecer, portanto.

A gente vê-mo-nos.

Publicidade Institucional.

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A partir de hoje o Ordem Natural passa a contar com a colaboração do Lourenço Vales.

Podem encontrá-lo também aqui e aqui.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Para que servem os liberais?

2 comentários:
«devem ser utilizados recursos públicos para monitorizar os blogs? Não quero ainda dar uma resposta definitiva, e não sei se estarei sequer, mesmo no fim desta série, em condições de a dar.»


Próximo episódio: devem ser utilizados recursos públicos para perseguir e torturar cidadãos quando apetecer?

Não quero ainda dar uma resposta definitiva e não sei se estarei sequer em condições de a dar.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Bater no ceguinho (parte II: a cassete)

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A única "cassete" mais repetida que a do PCP é a dos que gozam com a mesma. E que gozo que dá ridicularizar um partido que mantém o seu discurso de ano para ano, de década para década, de eleição para eleição.

Esta história da cassete sempre me causou alguma confusão. Até finalmente perceber o porquê da famosa cassete comunista causar tanta gargalhada entre os moderados. É tão simples como isto: de tanta subserviência a um status quo partidário que muda de discurso como quem muda de roupa interior, com a flexibilidade própria de um acrobata ou de uma prostituta, os críticos da cassete são, na verdade, críticos de algo muito mais fundamental e importante: princípios. 

Num mundo cada vez mais cínico, em que o discurso político se encontra despido de qualquer ideia basilar ou valor moral, é natural que um partido que se recusa a alterar os seus princípios conforme a maré eleitoral exige se preste ao ridículo.

Por mim, ficava satisfeito se começassem a acusar os liberais de terem uma cassete. Era um óptimo sinal de que aderiam a princípios e que não os abandonavam à primeira oportunidade. A realidade, porém, é diferente.

O problema da cassete comunista não é ser cassete: é ser comunista. É de resto o mesmíssmo problema do discurso (e da prática) dos outros partidos, que apesar das manobras acrobáticas, não são menos comunistas que o PCP. São só mais arrivistas.

Bater no ceguinho

1 comentário:
Dia sim dia não observamos na blogosfera de direita a curiosa actividade de bater no ceguinho. O ceguinho, neste caso, é o PCP e os comunistas em geral. Podemos questionar-nos sobre as intenções sub-reptícias desta actividade, não porque elas tenham alguma importância, mas porque têm imensa piada. À partida, a intenção que mais sentido faz para mim é, no fundo, assobiar para o lado. Isto é, apontando o dedo à presa fácil do PCP a direita portuguesa (liberais e não liberais) escusam-se o transtorno de lidar com a desgraça que é a direita partidária portuguesa, sobretudo quando esta forma governo. É, na essência, um exercício patético, mas uma patetice compreensível.

Mas convém entender sobretudo o porquê do PCP ser um "ceguinho" em que a direita blogosférica zurze tão cobardamente. 

O PCP é um partido sem futuro há pelo menos vinte anos. Apesar dos seus símbolos manterem uma aura atractiva para o jovem descerebrado (redundância, redundância), a sua ideologia está, para todos os efeitos, morta para sempre. Pouca ou nenhuma responsabilidade, de resto, lhe pode ser imputada pelos protestos cada vez mais descontrolados que se têm vindo a observar. Os protestos não são o produto de agitação da extrema-esquerda; são o produto de impostos monstruosos, regulações censórias e nepotismos vários a que o Estado - governado quase ininterruptamente por maiorias absolutas de PS/PSD/CDS-PP - submeteu e submete a população; são o produto da miséria e da desordem gerada por um Estado que tudo quer consumir e controlar. E esse Estado não é, em quase nada, responsabilidade do PCP. 

Poderíamos porém pensar que o programa do PCP, apesar de inofensivo na prática, fosse tão chocantemente agressivo e destrutivo se posto em prática que merecesse uma especial atenção. Mas nem sequer é o caso. É certo que podemos criticar o PCP por propor impostos altos sobre os ricos, regulações ridículas sobre tudo o que mexe e não mexe, proteccionismos vários, favoritismos lorpas, etc. Mas importa sublinhar que essas propostas não diferem em nada das práticas do PSD, do PS e do CDS. Nós temos impostos altos sobre os ricos; temos regulações ridículas sobre tudo o que mexe e não mexe, temos proteccionismos vários e favoritismos lorpas. Temos isso tudo e muito mais. E não é ao Partido Comunista que devemos agradecer o comunismo do Estado português.

Atacar o PCP, no entanto, é um exercício seguro. Não se arrisca nada em bater no ceguinho comunista. Lembrar as monstruosidades do comunismo global cai sempre bem e arrecada frequentemente aplausos, por mais remota que seja possibilidade dessas monstruosidades se materializarem aqui e por mais irrelevante que seja mencioná-las uma vez mais. 

Entretanto, sob um parcial silêncio comprometido, a social-democracia, a idolatria pan-europeia, o estado social "responsável" do mainstream vai empurrando milhares (milhões?) para a miséria ou para o estrangeiro, destruindo o que resta da nossa capacidade produtiva e do nosso capital, de forma a alimentar os inúmeros parasitismos inamovíveis que existem na nossa sociedade desde o 25 de Abril.

É, como se costuma dizer, uma questão de critério. Ou da sua ausência.

terça-feira, novembro 27, 2012

Rude Awakening

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O Carlos Guimarães Pinto saiu do Insurgente depois de fazer umas citações ao lado de umas fotografias, que constatavam o óbvio: que liberais no governo significa, sobretudo, o governo nos liberais. O liberalismo, como se sabe, é um luxo da oposição, que não imagina as responsabilidades concretas da governação e a necessidade de equilíbrio e compromisso.

O barrete serviu, aparentemente, e agora podemos encontrá-lo, a solo, aqui. É o preço que se paga por ter uma espinha e uma consciência. Mas como se costuma dizer, mais vale só que mal acompanhado

segunda-feira, novembro 26, 2012

O porquê da História ser irrelevante em discussões sobre Teoria Política e Economia.

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«The subject matter of all historical sciences is the past. They cannot teach us anything which would be valid for all human actions, that is, for the future too. The study of history makes a man wise and judicious. But it does not by itself provide any knowledge and skill which could be utilized for handling concrete tasks. 

The natural sciences too deal with past events. Every experience is an experience of something passed away; there is no experience of future happenings. But the experience to which the natural sciences owe all their success is the experience of the experiment in which the individual elements of change can be observed in isolation. The facts amassed in this way can be used for induction, a peculiar procedure of inference which has given pragmatic evidence of its expediency, although its satisfactory epistemological characterization is still an unsolved problem. 

The experience with which the sciences of human action have to deal is always an experience of complex phenomena. No laboratory experiments can be performed with regard to human action. We are never in a position to observe the change in one element only, all other conditions of the event remaining unchanged. Historical experience as an experience of complex phenomena does not provide us with facts in the sense in which the natural sciences employ this term to signify isolated events tested in experiments. The information conveyed by historical experience cannot be used as building material for the construction of theories and the prediction of future events. Every historical experience is open to various interpretations, and is in fact interpreted in different ways. (...) 

Complex phenomena in the production of which various causal chains are interlaced cannot test any theory. Such phenomena, on the contrary, become intelligible only through an interpretation in terms of theories previously developed from other sources. In the case of natural phenomena the interpretation of an event must not be at variance with the theories satisfactorily verified by experiments. In the case of historical events there is no such restriction. Commentators would be free to resort to quite arbitrary explanations. Where there is something to explain, the human mind has never been at a loss to invent ad hoc some imaginary theories, lacking any logical justification. 

In the field of human history a limitation similar to that which the experimentally tested theories enjoin upon the attempts to interpret and elucidate individual physical, chemical, and physiological events is provided by praxeology. Praxeology is a theoretical and systematic, not a historical, science. Its scope is human action as such, irrespective of all environmental, accidental, and individual circumstances of the concrete acts. Its cognition is purely formal and general without reference to the material content and the particular features of the actual case. It aims at knowledge valid for all instances in which the conditions exactly correspond to those implied in its assumptions and inferences. Its statements and propositions are not derived from experience. They are, like those of logic and mathematics, a priori. They are not subject to verification or falsification on the ground of experience and facts. They are both logically and temporally antecedent to any comprehension of historical facts. They are a necessary requirement of any intellectual grasp of historical events. Without them we should not be able to see in the course of events anything else than kaleidoscopic change and chaotic muddle

Mises, Human Action, p. 30-32

domingo, outubro 21, 2012

A mentalidade anti-capitalista portuguesa: um exemplo.

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Há muitos anos que moro ao pé da primeira das pastelarias Aquarius que abriu no país. Conheço, por isso, o patrão desde os tempos em que estava ele atrás do balcão a servir os clientes. Hoje, o senhor (com uma idade claramente avançada) já não serve os clientes atrás do balcão. No entanto, é sempre o primeiro a chegar e procede, depois da sua visita inicial ao estabelecimento-mãe, para uma visita pelos outros situados em Lisboa. Pelo que me contou uma vez um empregado (também ele já veterano, de vida e de emprego na pastelaria), o patrão faz a ronda mais do que uma vez por dia, para se assegurar de que todas as lojas estão a funcionar como devem. 

Este zelo, que é visto como um excesso, é prontamente criticado ou incompreendido por várias pessoas - elas mesmas clientes do estabelecimento. Junte-se isto ao facto de andar com o mesmo carro há vários anos (um bom carro, mas um carro velho), de não se lhe conhecerem grandes ou longos férias, e a personagem é vilificada e/ou ridicularizada como uma personagem cartoonesca. Já ouvi de tudo: que "é agarrado ao dinheiro", que "não deixa os empregados em paz", "que não aproveita o sucesso que tem" e todas as variações possíveis desta canção popular. 

Isto vem a que propósito? Vem a propósito da mentalidade portuguesa em relação ao empreendedorismo e aos patrões. É um exemplo sintomático de como os portugueses não entendem e, por isso, desdenham e demonizam a função do patrão e do empreendedor. Não lhes ocorre pensar que é precisamente pelo zelo constante, e pela preferência por não esbanjar o dinheiro num carro novo todos os anos, que o homem mantém e expande a sua empresa, providenciando um óptimo serviço. Não entendem que o sucesso que ele, alegadamente, não aproveita, é o resultado do seu trabalho, do seu empenho e da sua moderação. 

Se não fossem homens destes, o país estaria bem pior do que está. Infelizmente tudo o que todos os governos fizeram e fazem é antagonizar estas pessoas e forçá-las a ser empreendedoras noutro sítio; ou a fechar o negócio, juntar o dinheiro e ir gastá-lo em bens de consumo. Isto, com o consentimento e o aplauso do cidadão comum, que claramente vive num mundo complexo demais para a sua cabeça simplória.

terça-feira, setembro 18, 2012

Uma análise custo-benefício das análises custo-benefício das tropelias de um governo que não é, nem nunca foi, liberal.

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Desde que este governo tomou posse  algo de sinistro se apoderou dos liberais e tudo passou, de repente, a uma análise custo-benefício dos nadas que o governo tem encenado. Nestas tísicas e cínicas contas há algo que convida a mais do mesmo, em vez de apontar para uma solução duradoura que só pode ser encontrada numa mudança de paradigma.

As criaturas que se têm ocupado a discutir percentagens perderam o fio à meada. Para rejeitar os clamores de "justiça social" da rua dominada por sentimentos de esquerda, esquecem-se que é mesmo disso que se trata: de justiça. E que nenhuma pode ser encontrada nesta dança de pontos percentuais.

Além de descartarem o potencial incendiário dos sentimentos de injustiça - que presentemente são todos aproveitados pelos vendedores de banha da cobra socialista, com efeitos devastadores, como se pode ver; perdem também de vista o objectivo central de libertar a sociedade civil do monstro estatal.

As discussões sobre os efeitos destes arranjos cosméticos são um exercício fútil e revelam uma certa amoralidade que mortifica quem pela primeira vez tem contacto com o ponto de vista liberal.

domingo, setembro 16, 2012

Manifs, alternativas, ponto da situação, etc.

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Descobri tarde o slogan da Manif deste Sábado, e devo dizer que excede a estupidez habitual. "Que se lixe a Troika, Queremos as nossas Vidas" não é apenas vácuo e absurdo, é toda uma nova forma de não dizer nada e uma muito estranha forma de não utilizar os profissionais de marketing que por certo são simpatizantes do Bloco de Esquerda e estão dispostos a trabalhar dia e noite para inventar vacuidades do género, que não dizendo muito mais, poderiam soar melhor. Mas adiante.

Qual o propósito da manifestação? À partida, e dada a táctica referida de «tomar as ruas e as praças das cidades», seria uma versão civil de um pronunciamento militar - com o mesmo objectivo: fazer cair o governo do dia. O propósito não é expresso abertamente, claro. Mas se há um, é este - e há que apreciar a boa intenção. 

O problema da manifestação é que esse não é o seu único propósito. Os manifestantes não querem apenas fazer cair o governo. Querem substituí-lo por outro. Aí reside toda a sua tragédia. Passos Coelho não é um Sith Lord, nem Vitor Gaspar (apesar da sua voz monocórdica) é o Darth Vader. Eles não nos querem mal, e querem apenas ligeiramente melhorar as suas próprias vidas e dos amigos à custa de quem trabalha. Realmente preocupante é serem executantes "responsáveis" e "moderados" da vil arte de governar. É serem produtos dos partidos e das universidades. E acharem que é possível encontrar um equilíbrio duradouro no saque contínuo de quem produz alguma coisa e na distribuição da pilhagem por quem não produz coisa alguma. Não se trata só de ajudar os amigos e viver à conta dos outros. Eles, infelizmente, não são apenas vigaristas. Acreditam mesmo no sistema, no roubo como forma de vida, na redistribuição como justiça. É a filosofia da distribuição do mal pelas aldeias. E o principal problema é que o povo acredita exactamente no mesmo. Daí decorre que qualquer governo eleito que venha substituir o presente, não fará (como nenhum nunca fez) nada de diferente.
 
Partindo do princípio dúbio de que existe algures em Portugal pessoas que, simultaneamente, queiram pastorear a carneirada pátria, conheçam a raíz dos problemas nacionais e estejam dispostos fazer (ou mais precisamente, a desfazer) o necessário para os resolver, quem votaria nelas? Que triste alma se prestaria a dizer a verdade à populaça? E quem, da populaça, se prestaria a votar numa criatura assim? E se por um acaso feliz e improvável as tais pessoas estivessem em posição de desmantelar o monstro estatal, quanto tempo durariam até que novas manifestações estivessem na rua com novos slogans risíveis?

A tragédia portuguesa (ou mais precisamente, a tragédia democrática) reside na impossibilidade de eleger alguém que diga a verdade sobre o país. Que repudie a dívida e baixe os impostos, mas simultaneamente despeça milhares de funcionários públicos, acabe com benefícios sociais, parcerias público-privadas, fundações, empresas públicas, etc. Seria assassinado no segundo dia de mandato.

É o chamado pau de dois bicos ou a pescadinha de rabo na boca. A populaça quer um Estado paternal. Tal Estado só é possível recorrendo à dívida externa (porque um tal Estado não permite que o país produza o necessário para satisfazer as aspirações materiais do povo). A dívida, para poder ser continuada (como tem de ser num tal cenário), lá vai tendo de ser paga. E para ser paga é necessário mais impostos, sobre mais coisas e mais gente.

Sucede, pois, que a situação é insolúvel. Outro governo não fará certamente nada de aberrantemente diferente, simplesmente porque não pode. Pode fazê-lo sem ser tão asquerosamente pedante como Passos Coelho, o que talvez cause menos hostilidade e lhe dê mais algum tempo. Mas não será uma solução. Não será sequer um paliativo. Será, exactamente, nada. 

O povo quer o que quer. E o que o povo quer é irrealizável. O que virá a seguir não será bonito. Será inevitável.

sexta-feira, setembro 14, 2012

As boas notícias possíveis.

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O governo vai prodigiosamente continuando o legado dos seus predecessores democráticos, asfixiando a economia para o benefício dos amigos e conhecidos? A populaça agita-se um tanto ou quanto desmioladamente (para variar)? A oposição grasna sem alternativas (ou com alternativas piores)? O tempo é de crise, senão de luto? 

Certo, certo. Mas nem tudo está perdido. Nestes tempos negros as boas notícias tendem a passar despercebidas. Não deixemos, pois, que passem.

Um estudo feito pela Faculdade de Economia do Porto, por exemplo, dá conta que a economia paralela no ano de 2011 passou dos 25%. Paremos um momento para pensar no que isto significa: um quinto da riqueza produzida no país em 2011 escapou, incólume, à voracidade estatal. A razão? Simples: com os aumentos verificados na carga fiscal o incentivo à fuga torna-se mais atraente. Mais: há boas razões para suspeitar que, caso não fossem feitas fora da lei, grande parte destas transacções não se teria dado em primeiro lugar. E não falo de bens ou serviços cuja venda e compra o Estado proíbe (maioritariamente, droga e prostituição). 

Falo de transacções de bens ou serviços que o Estado, permitindo, desencoraja com a sua desmedida gula pelo dinheiro alheio; transacções que não chegam a acontecer porque para trabalhar para os outros mais vale estar quieto. A fuga aos impostos permite, precisamente, que alguns portugueses não estejam tão quietos como a taxa de desemprego faria crer; permite acrescentar uns cobres no final do mês para que a miséria do costume não seja tão miserável como costuma ser.

E se em 2011 a economia paralela ultrapassou os 25% - com uma carga fiscal menor - o que esperar para este ano senão o aumento da fuga aos impostos?

Mais do que as manifestações populares sem qualquer fio idelógico condutor e sem alternativas dignas de nome, a fuga aos impostos constitui uma verdadeira forma de protesto e uma efectiva reinvindicação de direitos (o direito a manter o próprio dinheiro, em vez do direito ao dinheiro dos outros - motivação maioritária entre os manifestantes). E ao contrário das manifestações, que não diferem na prática de um festival de verão sem concertos, esta forma de protesto envolve um risco muito real e traz, naturalmente, um benefício muito directo e imediato.

Dada a situação precária do país, a ganância do governo e a estupidez dos deputados podemos esperar um aumento ainda maior da fuga aos impostos em 2012 e 2013. É certo que se trata de uma via impossível para muita gente. Mas com o tempo (e com a destruição promovida pelo país político), o país real vai-se libertando aos poucos das garras, e que remédio tem senão libertar-se. Há-de chegar a altura em que os benefícios de viver fora da lei, à revelia do Estado, serão maiores que os custos. E esse momento parece estar cada vez mais perto.

São as boas notícias possíveis.

terça-feira, junho 05, 2012

Mais super ultra mega liberalismo.

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«The fact is that the government, like a highwayman, says to a man: "Your money, or your life." And many, if not most, taxes are paid under the compulsion of that threat The government does not, indeed, waylay a man in a lonely place, spring upon him from the roadside, and, holding a pistol to his head, proceed to rifle his pockets. But the robbery is none the less a robbery on that account; and it is far more dastardly and shameful..» (p. 17)

Lysander Spooner, No Treason: The Constitution of No Authority (1870)

Parece que Lysander Spooner está finalmente desactualizado.

domingo, junho 03, 2012

A única democracia no Médio Oriente.

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«And if a stranger sojourn with thee in your land, ye shall not do him wrong. The stranger that sojourneth with you shall be unto you as the home-born among you, and thou shalt love him as thyself; for ye were strangers in the land of Egypt: I am the LORD your God.» 

Leviticus, 19:33-34

Ao que parece a citação acima já não se aplica. E quem os lembra disso arrisca-se a sofrer o mesmo destino. Parece que a obsessão com o Holocausto não serviu de muito. Só, talvez, para o repetirem. Desta vez sendo eles os carrascos.