domingo, agosto 11, 2013

Oh a cegueira ideológica de ser contra a redistribuição de riqueza.

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Sempre que escrevo sobre vouchers acabo invariavelmente por ser criticado por, alegadamente, preferir a inacção ao gradualismo, em nome da pureza ideológica. Mais uma vez devo explicar que não é disso que se trata, ou pelo menos não totalmente.

Trata-se, isso sim, de considerar que os vouchers não são um passo gradual numa boa direcção. No sentido em que só uma ingenuidade tremenda poderá considerar que o estabelecimento do cheque-ensino em Portugal não estará «enquadrado nos mesmos incentivos monolíticos da política autárquica do betão, da planificação curricular definida centralmente, da aprendizagem acomodada ao laxismo no desempenho, e da perpetuação do ensino obrigatório alargado, com vista em criar “carne para canhão” uniforme». Há, portanto, e como se verifica frequentemente, quem acredite no pai natal ou no governo liberal.

Mas se o cheque-ensino é um avanço no sentido de uma sociedade mais liberal, não percebo como é que ainda não pudemos observar a defesa liberal do cheque-transporte, do cheque-férias, do cheque-[inserir qualquer bem a que os pobres têm menos ou pior acesso que os ricos]. Afinal, os pobres não têm carro próprio, andam de transportes públicos. Não têm “liberdade de escolha” no seu meio de transporte. Esta ignomínia socialista poderia ser definitivamente atenuada, “liberalizada” if you will, se os contribuintes fossem espremidos para providenciar cheques-transporte para os pobres poderem escolher o meio de transporte que consideram mais do seu agrado. Ou, por exemplo, os pobres não têm “liberdade de escolha” em relação às suas férias, sendo obrigados a frequentar a praia de Carcavelos em vez do Vale do Lobo, ou a ficar hospedados no parque de campismo municipal, em vez de no Four Seasons. É um ultraje que o Estado não forneça os meios financeiros, através do dinheiro extorquido em impostos, para providenciar “liberdade de escolha” aos pobres nas suas férias. And so on and so forth.

Para não falar do irreversível moral hazard que a medida potencia. Imagine-se o cenário: família de classe média, que em Portugal é uma classe remediada, razoavelmente responsável que se nega alguns parcos luxos para poder providenciar uma escolaridade diferenciada aos filhos. Este cenário, como é evidente, desaparecerá quase por completo (excepto nos pais “ideologicamente cegos”, claro). O cheque-ensino servirá, no fundo, para desresponsabilizar ainda mais as famílias sobre a questão de quem deve, na verdade, financiar a escolaridade dos petizes que trouxeram ao mundo, financiando o supérfluo.

Mas tudo isto é secundário. O que realmente é preocupante é ver liberais a falar em “liberdade de escolha” sobre aquilo que é essencialmente um esquema governamental de redistribuição, em nada diferente do que já existe e em alguns aspectos bem pior. O que algumas pessoas chamam de cegueira ideológica é apenas aquele velho e obsoleto costume de ter princípios. E, mesmo em nome de uma alegada eficiência, eu não os consigo abandonar.

quinta-feira, agosto 08, 2013

Anos demais na escola.

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Felizmente nem todos os liberais portugueses são socialistas. Alguns, como o Carlos Guimarães Pinto, são capazes de perceber que os vouchers, ou cheques-ensino, representam na realidade a nacionalização a prazo de todas as escolas que ainda vão tendo, mais ou menos, dentro do possível, algo de privado.

Os vouchers são uma manifestação particularmente torpe de duas das ideias mais perniciosas que já surgiram (e infelizmente se inculcaram) nas cabeças modernas: a do "Estado eficiente" e a da necessidade de escolaridade formal para todo e qualquer mamífero da espécie humana. 

Constituindo, como constituem, a total cooptação do sistema de ensino pelo Estado os vouchers garantem o derradeiro divórcio entre escolaridade e educação. Esse divórcio, claro está, não é nenhuma surpresa. A partir do momento em que um Estado estabelece escolas públicas, desenha um currículo, define um número de anos obrigatório para os petizes frequentarem as escolas e interfere de inúmeras outras maneiras no sistema de ensino, escolaridade e educação começam a descrever uma relação de proporcionalidade inversa. Com a nacionalização do pouco de privado que ainda existe no domínio do ensino, a relação de proporcionalidade inversa tornar-se-á total (daí a popularidade, e sucesso, do homeschooling e unschooling e qualquer outra variação que seja independente do sistema de escolaridade tradicional que está quase totalmente subordinado ao Estado). 

A ênfase na expressão "liberdade de escolha" é particularmente risível e demonstra o carácter surreal da coisa. É que a liberdade de escolha dos beneficiários dos vouchers é simultaneamente a ausência de escolha por parte de quem paga os vouchers. Isto os seus defensores parecem esquecer.

A crença nos vouchers só faz, portanto, sentido se se acreditar simultaneamente que a escolaridade é um direito universal e que esse direito deve ser financiado pelos contribuintes. Que esta crença exista entre criaturas que se dizem liberais reflecte bem o nível de decomposição mental em que se encontram. Provavelmente passaram anos demais na escola.


Leitura complementar:









segunda-feira, julho 22, 2013

Acreditar no Pai Natal (II)

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(No seguimento deste post, como está bom de imaginar pelo título)

Não deixa de ser engraçado que o liberalismo (ou este liberalismo) seja caracterizado pela iniciativa privada, coordenação e cooperação pacífica entre indivíduos, empreendedores no centro da actividade económica, menos Estado e mais privado, etc etc etc; e, no entanto, o que é que parece que é preciso para demonstrar na prática a alternativa liberal? Um governo liberal.

Não admira que o liberalismo não triunfe em Portugal: parece que as pessoas que estão na frente de luta por esta ideologia não passem de «a bunch of socialists» (não é por acaso que esta expressão surge da boca de Mises naquele contexto).


Acreditar no Pai Natal.

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Ricardo G. Francisco, no Insurgente.

segunda-feira, julho 08, 2013

A situação nacional explicada às crianças: o direito ao chupa chupa.

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Como uma esposa anúncia um divórcio, Paulo Portas anunciou a sua demissão. O primeiro ministro não lhe dava atenção, recusava-se a ver comédias românticas e a comprar-lhe gelado Ben & Jerry's, sabor Chubby Hubby. O casamento tornara-se insustentável. 

Em nome da estabilidade da família, Passos Coelho, de joelhos, implorou: prometeu ouvi-lo com mais frequência, sobretudo sobre assuntos de economia doméstica, fazer o jantar duas vezes por semana e pôr as meias para lavar (e comprar-lhe gelado - imperativo, com este calor). Portas voltou atrás, e mostrou quem, de facto, usa as calças.

Um casamento exige um equilíbrio ténue, e uma coligação é uma espécie de casamento. Certo: é um casamento que consiste no saque constante da riqueza dos contribuintes, na distribuição e destruição dessa riqueza e no impedimento, por lei, de certas formas de a produzir. Mas é uma espécie de casamento ainda assim.

Sendo um casamento por conveniência (sozinhos não tinham dinheiro para alugar casa - por causa da lei das rendas/ sozinhos não tinham votos suficientes para formar governo), a coisa mais tarde ou mais cedo azeda. Não porque tenham ideias opostas sobre o que fazer para o jantar ou sobre aumentar impostos vs. reduzir despesa: os conflictos são mais comezinhos. São conflictos, digamos, emocionais. Se por emocionais nos referirmos à promoção pessoal através do Estado. 

O casamento, porém, continua. O ressentimento, também.

A populaça, a imprensa e os blogues assistem a isto, manifestam-se, mostram ultraje moral ou comentam a situação com consternação.

Não é caso para tanto. Isto, este lodo, esta novela ridícula, é o corolário da democracia. Um sistema de saque institucionalizado, de socialismo mandatório e irrevogável. Irrevogável ao ponto de, elegendo um ou outro candidato, casado ou solteiro, havendo ou não sexo intra ou extra matrimonial, o resultado é sempre o mesmo. 

Não adianta discutir se o presidente deve dar a guarda dos filhos à mãe ou ao pai, ou dá-los para adopção e esperar que surja um pai ou uma mãe decentes para as crianças. 

As crianças serão agredidas e violadas  por qualquer pai e qualquer mãe que este sistema lhes ofereça. Se fazem birra, dá-se um chupa chupa, um game boy ou um subsídio, e acalmam. No fundo este é o mundo em que nasceram e o mundo em que acreditam. Levar porrada e depois receber um chupa chupa é a sua forma de vida.

Em breve, acabar-se-á o orçamento para chupa chupas. Só restará a porrada. Mas sendo crianças, o que é que vão fazer, além de bater com o pé e berrar? Nunca lhes passará pela cabeça que possam adquirir chupa chupas sem ajuda, pelo próprio esforço. Acham, aliás, que têm direito ao chupa chupa.

Contra isto, nada a fazer. É convocar eleições antecipadas e repetir o processo. Ou esperar pelas próximas e repetir o processo. É absolutamente indiferente. O país vai falir, com casamento, sem casamento, com homem solteiro ou em união de facto.

A falência é um destino, não é um problema. O problema é a ideologia cretina que nos destina à falência. Até deixarem de ser democratas, as crianças continuarão a levar porrada (outras, mais sabidas, arrecadam e distribuem os chupa chupas pelos amigos).

A novela prossegue dentro de momentos.

segunda-feira, junho 17, 2013

Com uma "direita" assim, quem é que precisa da "esquerda"?

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Às vezes as pessoas aborrecem-se comigo por eu me recusar a alinhar com etiquetas políticas: recuso-me a dizer que sou de direita, apesar de nitidamente não ser de esquerda; não digo que sou anarquista, mesmo tendo um saudável (e gigante) preconceito contra o Estado; e, graças à proliferação de alguma "direita 'liberal'", cada vez menos ouso dizer que sou liberal. Não que os princípios deixem de lá estar, mas é que me aborrece sinceramente a identificação com algumas pessoas — é muito mais saudável diz que não sou socialista. No fundo, acho que acabo por seguir uma via negativa no que toca a estes assuntos: é muito melhor dizer o que é que eu não sou do que aquilo que sou.

Mas esta minha relutância tem razões de ser. Às vezes esqueço-me dessas razões, e volto aos velhos hábitos de bradar aos sete ventos que sou liberal, e quando me acusam de ser de direita eu esqueço-me de negar; mas o universo é perverso e volta a lembrar-me que o acaso não existe — e que não é por acaso que acho que deva negar essa associação à direita. O acontecimento mais recente é mesmo o último post da Ana Rodrigues Bidarra no Estado Sentido. Não que o post per se seja lamentável: pelo contrário, parece-me relativamente bem estruturado e bem escrito. Mas parece-me um excelente exemplo porque é que o liberalismo deve ao máximo evitar as confusões com a direita. Permitam-me então apresentar alguns pontos que exemplificam a minha relutância:

1. A direita a favor do status quo

A certo ponto do post, encontramos a seguinte passagem: «Quanto ao Estado, entendo-o indispensável para a continuação das sociedades como as conhecemos e para a necessária manutenção do status quo.» Apesar de não ser explícito o que é a autora entende por status quo, parece-me difícil encontrar algo nele que valha a pena manter. Serão os altos níveis de taxação? Será um contingente militar completamente desvirtuado das necessidades do país? Serão as leis laborais? As restrições à competição, que são especialmente prementes em sectores nevrálgicos  da Economia? A captura de órgãos do Estado? A mentalidade rentista? Os subsídios que destroem agricultura, indústria e comercio? O domínio estatal na Educação, Saúde, Justiça, etc? O completo desprezo pelo esforço e mérito? A perseguição implícita ao sucesso? 

E julgo que a Ana Rodrigues Bidarra concordará, pelo menos em alguns pontos, que as coisas não estão bem. Mas o ponto é que o status quo, "the present state of affairs", é, mais coisa menos coisa, o que eu descrevi.  Que o Estado deva ou não existir é uma discussão extremamente interessante e que eu gosto muito de ter. Mas, por favor: se se faz mesmo questão que um Estado exista, então que ele seja usado não para manter o que existe só pela razão de que é o que existe (uma espécie de conservadorismo bacoco, o "conservadorismozinho") mas sim para tentar corrigir o que está mal. E sim, isto é uma conclusão fantástica (e óbvia), mas às vezes tenho a impressão que as pessoas se esquecem.

2. O pessimismo antropológico e o argumento ao realismo

A Ana Rodrigues Bidarra é uma Hobbesiana, pessimista relativamente à natureza do Homem, e acha que «há que partir de uma base elementar de observação e ser-se realista.» Este é provavelmente o meu argumento preferido de alguma direita (mas não é exclusivo dela, atenção), e que parece-me que pode ser estruturado genericamente da seguinte maneira: fazendo-se uso de cherry picking e definições dúbias (por falta de definição concreta), chega-se a uma conclusão definida a priori; e faz-se uma protecção contra eventuais contra-observações dizendo que convém "ser-se realista" (estando subentendido que conclusões que contradigam o postulado inicial sejam irrealistas, o que é um dos piores insultos que se pode fazer a um argumento). 

Permitam-me não ser científico ou filosófico e apontar algo que me foi relembrado por um amigo. Fazendo uso da sabedoria popular, sabemos que «a ocasião faz o ladrão». O que eu quero dizer com isto é que me faz tanta confusão a noção do Homem como lobo do Homem como a do bondoso selvagem que é corrompido pela sociedade (ou socialização); a noção de que o Homem é bom ou mau por natureza. E isto não acontece por eu acreditar que as noções de bem ou de mal não existam ou que sejam circunstanciais — pelo contrário. Apenas acho que o que torna o Homem bom ou mau são as suas acções, a escolha, aquilo que ele faz; e, bom, se queremos ser realistas e usar da observação, sou capaz de passar aqui horas a fio a apontar casos e casos de Homens que foram simultaneamente bons ou maus; aliás, sou capaz de dizer (mas não me levem muito a sério) que ao longo da vida, o Homem consegue ser bom e mau, não havendo uma qualquer predisposição generalizada partilhada por todos os Homens para ser mais bom do que mau (ou vice versa). 

E isto não teria muito que ver com a história da Direita/Esquerda se não fosse este um dos principais argumentos/crenças na qual se apoia muito da boa (e má!) gente que polula a direita portuguesa, liberal, não-liberal, e anti-liberal.  E eu que nem sequer gosto muito de Filosofia, fico chateado com o critério muito selectivo com que as pessoas olham para a realidade para fazer "Filosofia" — na verdade, esse tal critério muito selectivo é um processo psicológico muito conhecido que se chama viés da confirmação (confirmation bias, não sei se esta é a tradução correcta).

3. A direita com o propósito governativo

Todo o post é feito com o propósito de tentar justificar a existência de um "Governo de Direita". O que só dá mais razão para me querer afastar da direita. O Rui A. sintetiza muito bem esse ponto, quando diz que: "o liberalismo não é uma filosofia do governo e do estado, mas sobre o governo e o estado. Não serve para governar, mas para impor regras e travões ao governo. Donde, por mais que procure, não encontrará nunca um liberal na política partidária." A conclusão que me parece relativamente óbvia a conclusão que a associação entre a direita ("esta direita", aliás), e o liberalismo deve ser recusada e repudiada. 

No fundo, a diferença entre "esta direita" e a esquerda não é muita. Não estão particularmente interessados em mudar o que quer que seja, até porque não há nada de especialmente errado na presente situação; manter o status quo convém porque lhes é favorável, não porque é bom. E, com uma direita destas, quem é que precisa da esquerda?

sábado, junho 15, 2013

Filosofia e Economia (II)

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«I started studying economics during my second undergraduate year. I recall I made the choice since I wanted a subject that would be both intellectually rigorous and socially relevant. But the early experience was somewhat shocking.
Based on everyday experience, I knew that I am not an expected utility maximizer, and I knew that the economy out there was far from perfectly competitive, and I thought I knew many other facts about society and human behaviour that those models that were taught to us appeared to distort so shamelessly. So I wondered what to make of economics, whether this is good science after all, and how on earth I could judge whether it is.» 
[Uskali Mäki, Erasmus Journal for Philosophy and Economics, Volume 1, Issue 1, Autumn 2008, pp. 124-146.]

terça-feira, maio 28, 2013

Filosofia e Economia

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«Back in 1982, a brief but brusque exchange, touching on the relations between Philosophy and Economics, took place between James Tobin, the liberal, Nobel Laureate, Yale economist, and Robert Nozick, the conservative Harvard philosopher. In the course of a debate … Tobin exclaimed at Nozick: “There's nothing more dangerous than a philosopher who's learned a little bit of economics.” To which Nozick immediately responded: “Unless it's an economist who hasn't learned any philosophy.”»
[Hutchison 1996, p. 187]

segunda-feira, maio 27, 2013

Hipóteses sobre a relação entre a Economia e a Ética.

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Apesar do consenso científico moderno de que a economia constitui uma ciência fundamentalmente positiva e, portanto, livre de julgamentos normativos, o estudo dos fenómenos económicos esteve nos seus primórdios intimamente ligado à investigação de temas éticos. Esta intimidade não será porventura um acaso. Por exemplo, observamos que aderentes de diferentes escolas de pensamento económico tendem a demonstrar também respectivas diferenças nas tendências políticas.

Ao derivar diferentes consequências de certas políticas económicas as várias escolas de pensamento moldam a posição que o aderente de uma particular escola terá sobre essas mesmas políticas. Que os Keynesianos favoreçam em geral medidas intervencionistas e os Austríacos favoreçam um mercado sem intervenção poderá ser derivado das respectivas análises apontarem que uma ou outra abordagem é mais favorável, não do ponto de vista dos julgamentos de valor dos teóricos em particular, mas do ponto de vista dos participantes na economia de mercado enquanto participantes.

Apesar de tanto os keynesianos como os austríacos considerarem a economia como uma ciência positiva desligada de quaisquer julgamentos de valor, podemos claramente observar que esta ciência positiva tem na realidade uma ligação, seja ela qual for, a julgamentos éticos. E se não é de todo possível afirmar peremptoriamente que a aderência a uma particular escola de pensamento económico ou filosófico derive determinantemente numa defesa de determinada ideologia, também não é possível negar que uma tal relação existe frequentemente entre a ciência descritiva e a filosofia normativa.

Não é de estranhar que assim seja, não só pela componente histórica acima mencionada. Os fenómenos estudados pela economia têm duas características fundamentais radicalmente distintas daquelas pertencentes aos fenómenos estudados por todas as outras ciências positivas: em primeiro lugar, não são fenómenos naturais (como na biologia) ou meramente mentais (como na psicologia), são produtos da acção humana que, necessariamente, ocorrem no espaço e no tempo; e em segundo lugar, ao tratarem uma realidade material afectada por escolhas humanas, os fenómenos estudados pela economia comportam em si também e necessariamente uma componente interpessoal.

Ao tratar das consequências da acção humana, a economia tem de ter em conta inúmeros conceitos tratados pela filosofia moral e assumir a existência de vários conceitos jurídicos. Em particular, o livre arbítrio e a categoria de propriedade.

A acção é o uso de meios para atingir fins. E é inconcebível tratar o conceito de acção sem assumir previamente que os seres humanos têm livre arbítrio para escolher entre acção e inacção, entre vários cursos de acção, entre vários métodos usados para um determinado curso de acção, e entre os meios a utilizar para concretizar uma determinada acção. O conceito de livre arbítrio é, pois, a fundação sobre a qual a teoria económica pode ser construída, e sem a qual nenhuma pode ser edificada.

Similarmente, o livre arbítrio constitui a origem de qualquer filosofia moral. É da possibilidade de escolher entre o bem e o mal, o moral e o imoral que tais conceitos ganham sentido. Uma criatura sem capacidade de escolha não pode ser moralmente responsabilizada.

O categoria filosófica do livre-arbítrio estará, pois, na origem de ambas as disciplinas.

Da mesma forma, a categoria legal de propriedade é absolutamente central para o estudo da economia. Ao estudar qualquer fenómeno de transacção entre dois indivíduos, estuda-se a transacção de propriedade entre dois proprietários. Sem essa categoria inerente, não haveria transacção de todo. Toda a actividade económica (na realidade, toda a acção humana) pressupõe propriedade, nem que seja sobre o próprio corpo. E à medida que a análise se vai tornando mais complexa (de um indivíduo só até à introdução de outros elementos e de troca-directa até a uma economia monetária), o conceito de propriedade vai crescendo de uma categoria meramente factual (quem controla um determinado recurso num particular momento) para uma categoria legal (quem é o legítimo dono de um determinado recurso).

Dado que os conceitos basilares da teoria económica e da filosofia moral são os mesmos não é de estranhar que exista, ainda que não esclarecida ou assumida, alguma ligação entre a ideologia política (em si uma extensão da filosofia moral) e a teoria económica que se professa. Um tema importantíssimo com muito ainda por explorar.

terça-feira, maio 21, 2013

Liberalismo: para a Esquerda ou para a Direita?

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Comecemos por conceder que a questão de saber se o liberalismo é uma ideologia de esquerda ou de direita é, como o Lourenço bem disse, algo fútil. Afinal, e voltando a parafrasear o meu colega de blog, o que realmente deveria interessar a um liberal/libertário é a aderência ao Non-agression Principle e o reconhecimento dos direitos de propriedade privada que dão sentido a esse princípio. 

No entanto, e mantendo que se trata de um exercício fundamentalmente fútil, não quer isso dizer que na sua órbita não se situem assuntos mais interessantes. A dicotomia Esquerda/Direita pode ser limitativa e anacrónica, sobretudo em termos estritamente políticos. Sobre esses termos já se disse que o único ponto que deve importar a um liberal é a estrita aderência ao princípio de propriedade privada, sendo que qualquer aumento dessa aderência é uma melhoria e qualquer diminuição um detrimento. No entanto, há mais a dizer sobre o assunto.

Se é certo que o liberalismo oitocentista se sentava à esquerda no parlamento e que lutou contra os privilégios de classe defendidos pelos elementos mais conservadores, não é possível ignorar dois acidentes históricos, um anterior ao liberalismo “à esquerda” e outro posterior, que põem em perspectiva a narrativa usual.

O Filipe Faria diz-nos que: «Do ponto de vista moral, o liberal considera que todos os homens são formalmente iguais e que no indivíduo e só nele reside a soberania última. Daí a crença liberal em “direitos”, sejam eles “humanos”, de propriedade ou de libertação. Esta foi uma revolução igualitária contra a autoridade da tradição». Não sei com que liberais anda o Filipe a falar, mas desconfio que nenhum considerará que os homens são “formalmente iguais”, tendo isso nada que ver com a igualdade perante a lei ou com a soberania última que devem usufruir. O que é manifestamente errado na afirmação do Filipe não é, porém, esta “rasteira” intelectual: é sim o assumir que a crença em direitos constitui uma revolução igualitária contra a tradição. Porque a tradição é precisamente onde o liberalismo foi encontrar a ideia de direitos, especificamente ao Direito Natural. O Direito Natural, como o Filipe saberá, não é originário de um secto revolucionário, mas da tradição racionalista religiosa, em especial da tradição católica. Podemos ir até mais longe e datar a ideia de direitos individuais, e da centralidade do indivíduo, aos Dez Mandamentos. 

Que o absolutismo tenha sido bem sucedido em remover a tradição bíblica e o Direito Natural da vida política, e é este o acidente que colocou o liberalismo à esquerda dos conservadores, não torna o liberalismo uma ideia revolucionária, porque a verdade é que, com a excepção da defesa do sufrágio universal por erro de cálculo, os liberais procuravam um retorno aos princípios éticos da idade medieval, ao direito natural e à Bíblia. 

O segundo acidente, posterior, que definitivamente afasta o liberalismo da esquerda pode ser resumido a duas palavras: Karl Marx. A influência que este homem, seja ou não por misticismo mais que por outra razão, mantem ainda sobre aqueles que se designam à esquerda afasta qualquer possibilidade do liberalismo ser aí emparelhado. Se o âmago do liberalismo está nos direitos de propriedade privada e tem como origem a tradição jusnaturalista, então nada na Esquerda pode ser correctamente colocado ao lado do liberalismo. Para o bem ou para o mal, a Esquerda é desde Marx uma força pelo relativismo moral. Característica que, por curioso que seja, partilham com os conservadores (como explico aqui). 

No que diz respeito aos partidos, e visto que um partido liberal é uma contradição em termos, podemos concluir sem grandes rodeios que só existem partidos de Esquerda, todos lutando por uma ou outra faceta do socialismo, e frequentemente realizando ambas. 

Descrito em termos clubísticos: o liberalismo é a verdadeira Direita. A Direita da “tradição”, como exposta pelo Filipe Faria é, comicamente, apenas um abraçar do relativismo moral que alimenta a Esquerda, cuja única tradição identificável é a defesa do status quo contra princípios éticos inalteráveis. O sapato está no outro pé, como dizem os ingleses. O pé esquerdo, permitam-me acrescentar.

segunda-feira, maio 20, 2013

Liberalismo e os partidos (da esquerda à direita)

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Ultimamente, pel'O Insurgente tem-se debatido muito as questões do liberalismo e do seu posicionamento num espectro partidário a la eixo uni-dimensional (i.e., se é de esquerda, direita, nenhum, ambos, etc). O último post desta série foi da autoria do Rui Albuquerque, mas tudo começou com um texto do Filipe Faria. Tudo isto serve para lançar o mote a uma discussão de que eu gosto muito — a posição do liberalismo dentro do jogo partidário — e que eu já abordei um pouco noutras ocasiões (vide aqui e aqui). 

No meio disto, cruzei-me (através do blog Bleeding Heart Libertarians) com um "estudo" do Montreal Economic Institute que fala de uma questão que será importante para um liberal: em termos práticos, quem é que mais contribui para o aumento do Estado? A conclusão é engraçada, e penso que é facilmente reproduzível num ambiente fora do âmbito estudado: na verdade, ser de esquerda ou direita não interessa para muito — o Estado vai expandir-se na mesma. Na verdade, e na análise do "estudo" (que é um pouco anedótica, daí ser um "estudo"), até são os partidos de esquerda que menos contribuem (alguns até diminuem) o peso do Estado.

O Jacob Levy, no post do BHL, acerta em cheio num ponto importante:

Libertarians often get taken in by words from conservatives, and many avow that we should prefer conservative government because conservatives at least occasionally talk about cutting the size of the state. But talk is all that it is. They do sometimes cut benefits to the poor– and because such benefits are justifiable under some theories, sometimes libertarians seem to emphasize cutting them with a little too much enthusiasm. But completely unjustifiable spending, spending that redistributes upward and that keeps crony firms alive and that overspends on defense and so on, is spending, too.

A discussão se o liberalismo é de esquerda ou de direita é um bocado fútil. A primeira questão é que, no discurso corrente (seja o da opinião pública ou até mesmo algum discurso académico), ambos os termos servem para conotar uma apreciação positiva ou negativa (imaginem o Jerónimo de Sousa a dizer "O Cunhal era um homem de esquerda" ou "O PS é um partido de direita"), mas raramente algo concreto sobre a acção em si; são termos que contêm uma apreciação e não referentes a um set de valores. A segunda questão é que, mesmo que a referência que a palavra "direita"/"esquerda" pudesse fazer fosse mais ou menos precisa e/ou livre de um julgamento de valor básico, de nada adianta: um termo tão vasto pode, simplesmente, embarcar um neo-nazismo fraquinho do PNR como um  conjunto de pessoas liberais (i.e., ambos são, supostamente, de direita). O que interessa realmente é, p.e.,  saber se uma dada ideia ou decisão adere ao NAP; ou, ainda, saber se respeita os direitos de propriedade privada.

Claro que podemos fazer uma coisa muito interessante que é, de cada vez que falamos de direita, definir claramente o que é que queremos dizer com isso (que acaba por ser um pouco isso que o Filipe Faria faz no seu post). Mas isso é quase como querer inventar uma linguagem privada, o que nos levaria para outras questões igualmente interessantes, mas algo distantes do ponto em discussão. A verdade é que a acepção corrente do termo não é interessante para nada. E daí achar que se devia abandonar uma discussão deste tipo, e preocupar-nos com coisas muito mais interessantes (I kid, I kid).

domingo, abril 21, 2013

The pot calling the kettle black

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Parece que recentemente se descobriu que um artigo chamado «Growth in a Time of Debt», escrito pela dupla Reinhart e Rogoff, foi revisto por uma troika (eh!) de pessoas da UMass e chegou-se à conclusão que o artigo era muito dúbio do ponto de vista metodológico e inclusivamente continha erros no Excel. Como parece que este paper «é um dos mais fortes argumentos para o aumento de impostos e corte da despesa pública para limitar a dívida abaixo dos 90% do PIB» e que inclusivamente insinua-se que destruiu as economias do mundo Ocidental (tanta responsabilidade!), vejo muito boa gente de dentro e de fora da Economia a soltar hossanas porque finalmente se provou que a austeridade é uma porcaria.

Isto tudo não deixa de ser engraçado. Primeiro: a razão para ser um dos mais fortes argumentos para o que quer que seja parece ser simplesmente a validação dos pares que têm formação para entender aquilo que foi feito — e, curiosamente, só ao fim de 3 anos é que essa validação se perdeu porque só agora se olhou para as entranhas do paper (o tal Excel); supõe-se, portanto, que as pessoas se limitaram a concordar, de boa fé, nas conclusões intermédias de Reinhart e Rogoff fizeram. É isto a que se chama "ciência", parece.

Segundo: não consigo evitar rir-me a ver o Paul Krugman a queixar-se que a metodologia e as assumpções que os autores do paper fizeram são estranhas e altamente questionáveis. Suponho que pensar que todos os bens numa dada economia têm a mesma função de custos seja algo muito menos estranho e questionável. É um nítido caso do "diz o roto ao nu". (Já estou a ouvir muito boa gente que partilha a minha formação em Economia a gritar-me: "É só uma simplificação, ó idiota!", mas já por aí passei.)

Terceiro, é engraçado ver Krugman a insinuar que o Rogoff e a Reinhart, por terem cometido estes erros, devem sair do "pedestal". Eu também gostava muito que a Economia fosse uma área de estudos onde a reputação contasse para alguma coisa; afinal de contas, isso significaria que já ninguém ligava patavina ao que Krugman escreve.

Quarto, não deixa de ser engraçado a guerrinha que se faz com este estudo. Neste caso, os economistas "anti-austeridade" ficaram muito aborrecidos quando, nos últimos 3 anos, lhe atiravam à cara este estudo para "provar" que a austeridade funcionava a partir de certo ponto; agora que o estudo perdeu credibilidade, acontece o contrário. E toda a gente fica muito chateada que os "pró-austeridade" mantenham a sua posição mesmo com este desmentido, ainda que os "anti-austeridade" o fizessem quando se acreditava que o estudo era válido.

E por último, as pessoas não percebem que a Economia Neoclássica não passa de um dos grandes hoaxes dos tempos modernos. E isso é o que me aborrece mais.

Economics is but a game where the pot calls the kettle black.

quarta-feira, março 27, 2013

Momento musical

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Swans - You Fucking People Make me Sick  (My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky, 2010, Young God)

quinta-feira, março 21, 2013

A Escola Austríaca e a Ciência

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Na verdade, não deveria estar a escrever este texto: é estar a pôr a carroça à frente dos bois. O que tenho tentado fazer nestes últimos 2 meses aqui pelo Ordem Natural é uma introdução a alguns problemas e conceitos interessantes da parte da epistemologia para conseguir depois, com uma toolbox mais completa, explicar porque é que a economia neoclássica é uma treta e porque é que a Escola Austríaca, podendo até ter problemas, é uma abordagem mais sã e correcta ao problema que a Economia se propõe a (ajudar a) resolver. Sim, eu tinha um plano (tão socialista da minha parte), e ainda não consegui reunir as condições para conseguir explicar de forma consistente aquilo que queria. Mas apareceu este post n'O Insurgente e não consigo resistir a responder.

O primeiro problema com a narrativa exposta no post é o facto de o critério de demarcação defendido pelo autor ser o do bom velho Popper — o falsificasionismo. Mas não deixa de ter piada que se fossemos a aplicar esse mesmo critério à teoria neoclássica, ela falharia redondamente. Aliás, as primeiras pessoas a fugir com a cara "aos tapas da falseabilidade" serão mesmo os neoclássicos: estudos empíricos comprovam que as assumpções estão erradas (adoro poder usar esta frase). Por exemplo, basta irmos ler Tversky (1969), May (1954), McCrimmon e Larson (1979), Slovic e Lichtenstein (1983), Fishburn (1984), e Steedman e Krause (1986), etc, e perceber que só a ideia da transitividade e a impossibilidade da reversão de preferências é algo que está completamente falsificado; e, no entanto, continua a fazer parte do core da economia neoclássica.

E pode-se dizer que o autor não estava a fazer uma apologia da economia neoclássica, algo que é possível. No entanto, o que o autor não percebe é que não é o critério da falsificabilidade que nos diz o que é ou não ciência. Não é esse o critério que os cientistas utilizam — pelo contrário, as observações que falsificam uma teoria são, normalmente, "resolvidas" com novas assumpções adhoc que permitam que aquela teoria continue a ser utilizada.  O "método científico", contrariamente ao que se faz querer parecer, não é o falsificacionismo (em versão naive  ou mais sofisticada); para perceber porquê, este post pode ser um bom começo. Mas basta olhar para aquilo que a Economia é: mesmo imitando de modo mais ou menos consistente o "método científico" (hipótese, teste, falsificação, etc), não é uma ciência — as falsificações acumulam-se há 40 anos, e ainda está tudo no mesmo "paradigma".

Convém ainda reproduzir um ponto especialmente importante, que revela muita da ignorância e impossibilidade epistemológica de existir uma Economia a imitar as ciências naturais:

«Predizer é orientar para onde se espera que o mundo caminhe *dado o que* sabemos hoje e levando em consideração tanto riscos (estimáveis) quanto incertezas (a respeito das quais quase nada podemos dizer). Se as previsões são utilizadas para fazer policy, o problema não é com as previsões: é com os policymakers e, o que é ainda mais grave, com os que elegem esses policymakers para seus cargos.»

Isto é muito bonito. Mas parte de um pressuposto muito interessante: a regularidade da realidade. E, mais ainda: que existe uma distribuição de probabilidades que pode explicar a realidade; e que essa distribuição seja, por norma, a distribuição normal. E, aqui sim, o problema está nas previsões.  

Vamos voltar ao básico da estatística: para poder utilizar ferramentas de indução estatística que nos permitem (não) rejeitar uma qualquer hipótese (testes de t, F, chi quadrado, etcetcetc), damos como adquiridos alguns pontos: random sampling, sample variation, etc. Mas há uma em especial, que é o facto de as variáveis terem que ser i.i.d.. Curiosamente, é sempre um ponto que é dado como adquirido mas nunca consegue bem ser provado — e, quando é feito, é sempre com assumpções adhoc. A questão aqui é muito simples: a realidade, aquilo que o autor tanto quer descrever, não se descreve com uma distribuição normal. Talvez se consiga descrever as alturas da população (e, mesmo isso, esbarra com o facto de não se poder ter uma altura negativa nem tampouco haver pessoas com menos de 40cm, por hipótese), ou outra coisa qualquer menos interessante. Mas tente-se lá fazer modelização para descrever o comportamento do mercado de trabalho com recurso a uma distribuição normal; ou, mais engraçado ainda: tente-se prever os mercados financeiros com recurso a intrincadas equações que têm no seu âmago a distribuição normal (hint, hint). Se calhar, a melhor recomendação que posso fazer é ler os escritos de uma senhora chamada Deirdre McCloskey, em especial o seu  Standard Error of Regressions.

E, após perceber o início do porquê desta ideia do empirismo e do facto histórico não servir para  muito na Economia, é ainda mais interessante perceber o porquê da abordagem austríaca ser consideravelmente melhor do que a abordagem "científica".

Uma das críticas que está patente no post original é o facto de, devido ao seu método não-empírico, a Escola Austríaca não conseguir dizer nada de muito interessante sobre a realidade: se ninguém disputa a consistência lógica, disputa-se a utilidade. Mas aqui é interessante perceber ao certo o que é que Mises conseguiu ir buscar e melhorar a Kant. E muito do que vai ser aqui dito já foi explicado por Hoppe no seu Economic Science and the Austrian Method, mas vou tentar parafrasear para não obrigar a leitura completa (no entanto, tal descrição está sujeita a erros; aconselha-se a leitura completa do ensaio para perceber exactamente o que está aqui [d]escrito).

Kant diz-nos que existem 4 "categorias" que podem classificar as proposições: a priori e a posteriori, bem como sintéticas e analíticas. As proposições que a EA faz são proposições sintéticas a priori: proposições cuja veracidade pode ser aferida antes da experiência (a priori) e cujas leis da lógica proposicional não são suficientes para aferir a sua veracidade (sintéticas). A parte engraçada é que Kant diz que estas afirmações existem, pois são derivadas de axiomas auto-evidentes, axiomas cuja veracidade não pode ser negada sem incorrer em auto-contradição. Mas o problema aqui sempre foi um suposto idealismo nesta teoria: como é que se explica que estas categorias da mente possam encaixar na realidade? E é aqui que Mises entra: é a acção que faz a ligação entre a mente e a realidade; as categorias da mente são, em última instância, categorias da acção; e a causalidade também o é: agir é precisamente influenciar algo num dado ponto do tempo para produzir um resultado posterior — se a causalidade não existisse, não existiria acção. O axioma que procuramos é o axioma da acção. Daqui se conclui que todas as conclusões da EA, assumindo a sua consistência lógica interna, são não só válidas como dizem algo sobre a realidade. E isto é extremamente útil.

Poderia escrever ainda sobre mais umas coisas com as quais discordo do autor (a questão do método científico, se o propósito da ciência deve ou não ser "produzir previsões", se ser ciência interessa ou não para alguma coisa, etc). Mas estes 3 pontos (demarcação, distribuições de probabilidade, e axioma da acção) parecem-me ser os mais importantes para perceber o que se passa de errado naquele texto. Num futuro não muito longínquo, voltarei à carga para explicar com mais pormenores coisas que me parecem importantes sobre este mesmo tema.

quarta-feira, março 20, 2013

Nassim Nicholas Taleb no Reddit

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Já agora, permitam-me variar um pouco e chamar a atenção ao IAmA que o Taleb, um dos meus autores favoritos, fez no Reddit. Se não sabem o que é o Reddit ou um IAmA, tudo bem; se não sabem quem é o Taleb, vão ler o Black Swan e o Antifragile.

Adenda: por lembrança de um comentador, o Fooled by Randomness também se recomenda vivamente, claro. Obrigado ao dito comentador.

Kýpros

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Parece que o plano de bailout do Chipre que incluía a tão famosa taxa sobre os depósitos foi recusada pelo parlamento cipriota (cf. Reuters e Guardian). Sinto que existem algumas coisas que me parecem importante esclarecer:

  • A taxa sobre os depósitos é uma ideia terrível. Não só por ser um imposto (o que já era mau por si só), mas é um novo imposto: não obstante todos os impostos já existentes (consumo, rendimento, mais valias, etc), cria-se um imposto que não permite que as pessoas ajustem o seu comportamento em função da nova medida — afinal de contas, o congelamento das contas serviu para isso mesmo. É todo um novo nível de intrujice e saque.
  • Mas não deixa de ser engraçado, no meio disto tudo, ver acontecer o seguinte (e o Carlos Novais apontou para esse aspecto algures, já não me lembro bem onde, mas fica o crédito): as mesmas pessoas que aqui há uns meses clamavam por uma intervenção musculada do BCE junto dos países em aflição para aliviar o serviço da dívida são as mesmas pessoas que agora reclamam e estrebucham contra esta medida. Não deixa de ser engraçado. Afinal de contas, aquelas pessoas menos favorecidas, que normalmente se tenta proteger, seriam bem mais prejudicadas por uma onda de inflação do que por este tipo de imposto — vide efeito de Cantillon. É mais uma daquelas fantásticas idiotices dos comentadores da praça. O pior é que as restantes pessoas vão atrás.
  • Há, contudo, uma pequena luz ao fundo do túnel: começa-se a perceber que a UE está disposta a muita coisa para salvar o Euro. E isto é positivo porque, quanto mais se forçar a continuação da moeda única, mais depressa ela vai cair. São estes sinais de desespero que vão levar ao fim da moeda única, mais do que outra coisa. E isto vai permitir uma de duas coisas: ou o fim da União ou a criação de algo bastante maior ("fuga para a frente") que aquilo que a UE é ao nível da soberania.
  • O parlamento cipriota ter recusado as medidas também acaba por ser um bom sinal. E as consequências que se vão fazer sentir vão ser também muito interessantes de seguir. A análise do "What Now?" que está na notícia do Guardian que citei acima está interessante, apesar de incompleta: se o Chipre de facto sai do Euro, e essa opção torna-se tão mais plausível quanto mais rigoroso for o acordo, abre um precedente tremendo. Poderão não ser os ratos de laboratório na questão do imposto, mas acabarão por sê-lo naquilo que acontece depois. E, mesmo que os russos se metam ao barulho e salvem o Chipre, nada disso é o garante de que tudo fique na mesma, bem pelo contrário.
All in all, não vai ser bonito. Boa sorte.

quarta-feira, março 06, 2013

Fascismozinho de trazer por casa

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A UE não nos pára de surpreender. Agora querem banir a pornografia em todos os media (e isso inclui a Internet), tudo com o motivo bastante nobre de "eliminar os estereótipos de género". Vai ser uma luta interessante: burocratas de Bruxelas contra todos os adole onanistas desta Europa.  A proposta pode ser vista aqui.

domingo, março 03, 2013

O conhecimento tem problemas (IV): o método e a demarcação

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A questão do método é importante: num mundo onde a "Ciência" atinge uma dimensão muito próxima ao "culto da carga", onde a maior parte das pessoas não percebe muito bem o que se está a passar mas que acreditam em (quase) tudo o que vem com a etiqueta de "científico", convém garantir que quem trata da "carga" o faça de uma maneira não só íntegra mas que também seja consistente dentro da disciplina a tratar — i.e., se dentro de um determinado campo temos pessoas a tratar o mesmo assunto de maneiras diametralmente opostas, ainda estamos a falar de ciência?

O primeiro problema que se oferece é que um método, por si só, não é um critério de demarcação. A maneira de "validar" (aqui as aspas não são em vão) conhecimento terá que ser, simultaneamente, interna e externa: i.e., ao nível interno, é um bom indicador de validade do conhecimento se houver consistência no método com a restante investigação feita; mas, por si só, não chega. Ao nível externo terá que existir um outro critério que permita separar o que é ciência do que não é, devido à insuficiência do "critério interno".

Porque é que é importante a existência dessa consistência metodológica interna? Foi, no fundo, essa a pergunta que ficou em aberto no primeiro parágrafo. A resposta parece-me que é dada pela teoria sobre a história/evolução da Ciência que Thomas Kuhn avança: o processo científico normal é dado pela observância dos princípios basilares de uma dada área, e com essa framework tenta-se fazer um processo de "acumulação de verdades". Os cientistas, por norma, não estão constantemente a tentar revolucionar o seu campo, estando mais virados para a resolução de problemas (Kuhn chama-lhes "puzzle-solving") do que outra coisa. Só quando a acumulação de anomalias (i.e., diferenças entre os resultados teóricos e a realidade) se torna insustentável — o que não é um conceito fixo — é que os cientistas tentarão sair do seu paradigma. Mas é precisamente por causa deste conservadorismo, da existência de um método consistente, que a ciência é tão útil para resolver problemas.

O segundo ponto, o do critério externo, é um dos pontos de contenção mais fortes dentro da filosofia da ciência. Afinal de contas, como sabemos que estamos perante conhecimento que é válido? Já vimos que não é suficiente que exista um "método científico". A resposta standard é ao falsificacionamismo, onde o ponto importante é a falsiabilidade, a característica de algo que é passível de ser falsificável; portanto, para uma teoria ser considerada conhecimento científico terá de 1) ser passível de ser falsificável e 2) ainda não ter sido falsificada. Este critério de demarcação foi defendido por Popper a partir da década de 30. No entanto, esta visão entra em conflito com o ponto exposto atrás; Popper acaba por ver a ciência como algo em constante revolução, onde as teorias são postas de parte à primeira contradição (falsificação), ignorando duas situações distintas: primeiro, que a maior parte dos cientistas apenas muda de paradigma de modo relutante, ignorando ou tentando justificar as primeiras anomalias que surgem dentro desse mesmo paradigma (assim nos diz Kuhn); por outro lado, Alan Sokal diz-nos que os cientistas escolhem as teorias na medida em que lhes são útil e a realidade as confirma (e Popper sempre foi muito crítico da ideia de ter um critério de "confirmação").

Imre Lakatos tenta suprir a aparente contradição (que para Lakatos é apenas desconexão) entre os argumentos de Popper e Kuhn fazendo a diferenciação entre as teorias que fazem parte do "núcleo duro" e as hipóteses auxiliares que tentarão limar esse núcleo de eventuais contradições. Segundo Lakatos, o facto de a natureza falsificar uma teoria não quer dizer que a teoria esteja errada, poderá apenas querer dizer que faz parte de um conjunto de teorias que é inconsistente (nas palavras do próprio: «It is not that we propose a theory and Nature may shout NO; rather, we propose a maze of theories, and nature may shout INCONSISTENT»). (cf. este post do ON) Mas então que método é que Lakatos propõe? A substituição das hipóteses auxiliares de acordo o critério de falsificação através da investigação empírica, tentando com isso proteger o núcleo; e quando o poder explicativo das teorias aumenta, então o progresso acontecesse; se, contudo, se acrescentar hipóteses ad-hoc apenas tentar salvar a teoria, nada feito. Isto, não sendo um método per se — afinal de contas, nada nos é dito quando e em que circunstâncias exactas se deve abandonar o núcleo duro — mas não deixa de ser um método para progredir no conhecimento.

Finalmente, há uma última perspectiva que é interessante abordar. Paul Feyerabend avança a ideia de que não há qualquer regra metodológica que oriente aquilo a que se chama "ciência"; no fundo, a ciência não tem nenhum método universal e pensar que sim é na verdade prejudicial para o seu desenvolvimento. Daí que Feyerabend seja adepto de um anarquismo epistemológico ou, citando, «anything goes». O propósito de mostrar que não existem estas regras metodológicas universais prende-se com a ideia de que é impossível encontrar um critério de demarcação que seja igualmente universal. No fundo, não é exequível separar "ciência" de "pseudociência".

O que é que se tira do meio disto tudo? Bem, isso fica para um próximo post.


quarta-feira, fevereiro 27, 2013

A direita "liberal" Portuguesa

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Tenho andado de há uns tempos para cá a pensar no porquê de a direita portuguesa que se diz "liberal" não sair da cepa torta. Surgiram-me algumas razões (falta de recursos, poucas pessoas, postura anti-liberal da população, etc); no entanto, e se essas razões podem ser encaradas como válidas, comecei a procurar por algo interno, uma caracterização do grupo (e não das pessoas em particular). E cheguei a 4 vectores que me parecem criar o "espantalho" que, para mim, representa os piores vícios; não me parece que estes vícios andem propriamente desligados uns dos outros. E certamente que também haverá qualidades, mas não é bem disso que estava à procura. Permitam-me, então:

1. Anti-esquerdismo:

Uma maneira simples de explicar este fenómeno é que é mais fácil explicar porque é que os outros estão errados ao invés de arranjar razões para eu estar certo. Traduzindo numa situação mais prática: é mais frequente ver liberais a explanar o caso negativo («porque é que o socialismo/comunismo/etc é mau») do que a fazer o caso positivo («porque é que o liberalismo está certo»). Ou, entrando no mundo da política partidária: «votem na direita não porque eles por si só tenham mérito, mas porque todas as outras alternativas são uma trampa». Isto também leva a que qualquer proposta do quadrante político mais à esquerda seja logo posta de parte, mesmo que não entre em conflito com a ideologia liberal (e.g., não se pode falar de default porque isso é uma perigosa ideia de esquerdista radical).

2. Caciquismo:

Não convém nunca criticar partidos de direita. Ora porque se é militante (e, normalmente, isso implica perder todo o espírito crítico), ora porque isso pode implicar que a "esquerda" vá para o poder, logo vai contra a "causa". Não se deve apontar algo de errado nos argumentos do PSD ou nas acções do CDS porque isso pode permitir que o PS ganhe as próximas eleições. Não se ouvem muitas vozes dissonantes da política de aumenta-impostos-mantém-despesa do actual governo, mesmo que isso seja bastante iliberal; a não ser que seja o PS a fazê-lo: aí é que é uma coisa que destrói o tecido produtivo, prejudica os empreendedores, a classe média, etc. Mas depois vem o PSD salvar a situação, continuamos com défices, aumento da dívida pública; mas ao menos não é a esquerda, "ELES", que estão no poder. As rendas continuam a ser entregues, mas ao menos são aos "nossos".

3. Pragmatismo:

Infelizmente, poucos são os liberais em Portugal que não se congratulam com o seu pragmatismo, a sua moderação e a sua capacidade de aceitar o consenso e o meio-termo. Eu suponho que isto seja derivado de um utilitarismo de algibeira que é muito comum, provavelmente porque é fácil racionalizar decisões e acções assim — «estou a fazer isto porque é o melhor para a maioria», mesmo estando-se na completa ignorância sobre o mundo que o rodeia. No fundo, todas estas "virtudes", que tanto jeito dão na arena política (mas que demonstram uma ligeira falta de espinha dorsal), devem ser amplamente difundidas. Não são precisos radicais que não saibam negociar; o único princípio é que não há princípios; devemos ser realistas e saber comprometer. E por aí fora.

4. Conservadorismozinho:

Este é aquele ponto mais difícil de caracterizar. Não vejo nada de particularmente errado com um estilo de vida conservador per se: desconfiar da mudança, dar valor à tradição, não querer experiências sociais. Tudo princípios relativamente saudáveis quando são aplicados ao nível individual, sem imposição a terceiros. No entanto, parece-me que há uma séria patologia neste meio, um conservadorismozinho completamente agarrado ao status quo, independentemente da justiça inerente ao sistema em si. Uma completa falta de visão para além do que está em frente ao olhos deles, de que algo pode ser diferente, para melhor. O que é algo estranho, tendo em conta que vivemos num estado que andará muito próximo do pior dos dois mundo: consume muito aos cidadãos e devolve quase nada;  muito pouco liberal, na minha opinião. E, no entanto, qualquer solução que não seja gradual (mas daquele gradualismo bacoco, de pequena reforma em pequena reforma, enquanto por detrás continuam a legislar por mais estado e a comer estas pequenas vitórias morais), é completamente rejeitada. O default está fora de questão porque implicaria a falência do estado e isso não pode ser; não porque cause problemas à população, mas porque implicaria que o status quo mexesse de tal maneira que nada seria o mesmo. E isso é que não pode ser.

Já sabemos que este é um exercício vazio de significado. E provavelmente há quem se vá ofender com isso. Mas a direita em Portugal é o lol. Mesmo a direita que se diz liberal, parece que vive completamente em função do estado: algumas vezes porque é de facto essa instituição a dar-lhe o ganha pão; mas, na maior parte, porque também o querem controlar. No fundo, não diferem muito da esquerda, neste aspecto. Esquecem-se, acima de tudo, que a "solução" liberal é a solução de cooperação, não a de coerção.