É bastante mais interessante ver posts n'O Insurgente que procuram provocar a discórdia entre as hostes liberais do que os já muito habituais (e cansativos) jabs partidários ao PS/PCP/BE. O rui a. é provavelmente dos autores que mais tenta provocar destas discussões. Hoje, tem um post intitulado "o «liberalismo» radical e revolucionário de hans-hermann hoppe". De há uns tempos para cá, o rui a. tem feito por fazer valer a sua tese que o anarco-capitalismo não pode ser considerado liberalismo — tal seria uma contradição em termos, visto autores como Rothbard, Hoppe, Huerta de Soto, etc, fazerem uma crítica ao constitucionalismo liberal oitocentista e o que daí originou. Parece-me ser essa a tese esposada neste post, bem como no "a «ética» de rothbard", "deitar fora a criança com a água do banho" e "sem tirar nem pôr". Mas, para este efeito, o post sobre Hoppe — provavelmente, o melhor da série — será suficiente para tentar expor aquilo que considero estar mal nas ideias de rui a..
A primeira coisa que gostaria de destacar como errada no post sobre Hoppe apresenta-se logo no primeiro parágrafo: "Esta doutrina ["o dito «liberalismo» anarco-capitalista"] tem dois pressupostos essenciais: a recusa do mundo moderno e um ódio vesgo ao liberalismo clássico, que ambos consideram responsável por esse mundo degenerado em que vivemos." Ora, se é inegável que pensadores anarco-capitalistas fizeram uma crítica ao liberalismo clássico (aconselho a leitura do artigo de Huerta de Soto "Liberalismo Clássico versus Anarco-Capitalismo", no Mises Portugal, para perceber melhor que tipo de crítica é essa), falar de um "ódio vesgo" por parte dos Ancaps será um exagero; não duvido que rui a. tenha lido muitas das principais obras fundadoras do ancapismo, mas fico sob a impressão de que há um ligeiro distorcer daquilo que acontece na crítica libertária ao liberalismo de oitocentos. Do mesmo modo como Menger rompeu com os economistas clássicos (que acreditavam na teoria do valor-trabalho, sendo que Menger fundou a Escola Austríaca nos princípios do marginalismo e subjectivismo), o que é feito na crítica é algo em tudo semelhante: "encontramos coisas com as quais não concordamos e que parecem internamente incoerente; daí, propomos pegar na parte 'boa' da teoria e actualizá-la à luz dos desenvolvimentos actuais do conhecimento". Porque, afinal, não se pode afirmar de boa consciência que o ancapismo não bebe directamente do liberalismo clássico, e aproveita muitos dos seus ensinamentos.
Contudo, e numa discussão mais "ao lado", a caracterização que rui a. faz do pensamento "liberal" ancap também me parece errada. Querer caracterizar o anarco-capitalismo (seja ele ou não liberal), e não falar no princípio de não-agressão, na assumpção weberiana do Estado enquanto monopolista do poder coercivo da força num dado território, na ética da argumentação desenvolvida por Habermas, Apel e Hoppe, na Escola Austríaca, todos eles princípios/axiomas/pressupostos/etc mais importantes e óbvios do que os referidos no post original, mostra a tentativa de rui a. construir um boneco de palha. É lamentável que assim seja, até porque o "liberalismo" (seja ele na vertente rui-a.-iana ou na vertente anarquista) teria muito a ganhar caso acontecesse.
Saindo um pouco do primeiro parágrafo, ao longo do texto é notória a tentativa do rui a. de descredibilizar o posicionamento de Hoppe enquanto liberal. A parte importante não é que Hoppe esteja certo ou errado nos pressupostos do seu pensamento, no seu método, nas suas conclusões ou recomendações; importante é que tenhamos cuidado e não misturar o liberalismo com anarquismo. O importante é que a revolução americana não foi uma "revolução a sério" (não foi radical, mas sim conservadora) porque tentou restaurar os princípios da Magna Carta — e aqui, mais uma mostra de má fé: o que se lê nas entrelinhas do texto de rui a. é que Hoppe dá o exemplo da revolução americana como uma "revolução a sério" (não conservadora) porque houve uma guerra e quebra com os valores "antigos", quando Hoppe diz claramente que a revolução americana foi o reafirmar de um velho princípio liberal: '"E, na Declaração de Independência, Jefferson afirmou que "sempre que qualquer forma de governo se torna destrutiva para a vida, para a liberdade e para a busca da felicidade, as pessoas têm o direito de alterá-lo ou aboli-lo". Os anarquistas defensores da propriedade privada estariam apenas reafirmando o direito liberal-clássico de "livrar-se de tal governo e providenciar novos defensores para sua segurança futura."'
E, como Hoppe foi agora classificado como um perigoso radical e revolucionário, já se pode dizer coisas como esta: "Dito de uma forma mais solene, as rupturas «revolucionárias» são adversárias das instituições e das comunidades socialmente consolidadas pelo tempo e pela história, sendo que, a este respeito, não seria desinteressante que Hoppe fizesse um exercício para tentar perceber por que razão as pessoas vivem como vivem e não como ele gostaria que elas vivessem." Que óbvia contradição que rui a. conseguiu descortinar no pensamento Hoppeano: a mesma pessoa que não quer viver sob o jugo estatista, com os seus ímpetos revolucionários, fará por impor a sua vontade nos restantes. A ser verdade, esta contradição será destrutiva e torna todo o pensamento ancap digno do estatuto intelectual de uma teoria como a frenologia. Mas, na verdade, é relativamente óbvio que Hoppe não pretende fazer com que as outras pessoas vivam de determinada maneira; Hoppe apenas rejeita que as outras pessoas possam ditar como o próprio Hoppe terá de viver. No fundo, aquilo que Mises diz: "No people and no part of a people shall be held against its will in a political association that it does not want." (Nation, State, and Economy), o que é, basicamente, secessão ao nível individual, estado voluntário, anarquia, o que lhe quiserem chamar.
De qualquer modo, o ponto importante e central parece ser mesmo que rui a. parece querer apenas reafirmar que o anarco-capitalismo não é liberalismo. Se assim for, é-me um pouco indiferente. Mas gostaria apenas que isto fosse feito de modo intelectualmente honesto. Não tenho nada a ganhar ou perder com a inclusão do ancapismo na "família" liberal; nem sequer sou anarco-capitalista. Mas acho que rui a. já mostrou que é capaz de fazer melhor; e deve fazer melhor.
